04 janeiro 2008

"MEU NOME NÃO É JOHNNY"

CONTARDO CALLIGARIS

Os desmandos dos filhos constituem o consolo dos pais diante da inelutabilidade da morte

Nos anos 90, João Guilherme Estrella, um jovem de classe média-alta carioca, tornou-se "barão" do varejo de cocaína. Ele exportou "pura" para a Europa, foi preso com seis quilos da droga e, num processo memorável pela sinceridade do acusado e pela inteligência da juíza, foi condenado a dois anos de internação num manicômio judicial. Ele cumpriu a pena e é hoje um produtor musical.
Estréia amanhã "Meu Nome Não É Johnny", de Mauro Lima, com atuações notáveis de Cléo Pires e Selton Mello. O filme se inspira no livro homônimo (Record, reeditado nesta ocasião) em que Guilherme Fiuza reconstruiu e contou a história de João Guilherme Estrella.
O filme (como o livro) começa com uma breve descrição da infância de João Guilherme. Por um momento, pensei (receei) que a narrativa adotasse a explicação que quase sempre liga a toxicomania dos filhos à permissividade dos pais. É aquela lengalenga: os pais nunca souberam dizer não, e os filhos, incapazes de encarar qualquer frustração, procuram na droga a garantia de uma gratificação constante. Pois é, o filme é muito mais inteligente e verdadeiro do que esse clichê explicativo.
Um exemplo. O pai de João Guilherme tolera que o filho estoure um rojão na sala quando o Vasco marca um gol. Mas é melhor a gente não se apressar em julgar e condenar: o pai também exige que o moleque trabalhe para pagar ao menos a metade da prancha de surfe que ele quer. Quase todos os pais se reconhecerão nessa mistura em que coexistem a fascinação pelas façanhas do filho (deixe, que esse menino vai longe) e as tentativas desesperadas de inculcar nele uma ética do esforço. Esse paradoxo é o drama básico de todos os pais modernos.
No começo de sua "carreira" de traficante, João Guilherme vivia na casa de família junto com o pai, que se separara e estava gravemente doente. Enquanto o pai esperava a morte confinado no seu quarto, cocaína e maconha rolavam soltas nas animadíssimas reuniões organizadas pelo filho na sala da casa.
O espectador talvez se indigne: o pai está cego? Não vê o que está acontecendo? Ou então: como o filho faz a festa enquanto o pai está morrendo?
Mas uma outra leitura é sugerida pelos bonitos planos em que Mauro Lima enquadra frontalmente a casa do Jardim Botânico ou mostra o pai se virando na cama no meio da noite: o quarto do pai doente e a sala da bagunça não são mundos separados.
A contradição é só aparente entre os desmandos do filho e a agonia do pai: talvez, no fundo, o pai queira mesmo o barulho da festa que não o deixa dormir.
É sempre assim. Os filhos são tudo o que nos resta para acreditarmos que a vida continua, e eles têm a tarefa de serem "felizes" para compensar as amarguras de nosso tempo que se acaba. Condenamos os excessos nos quais eles se engajam, mas é apenas "pelo bem deles". O gozo dos filhos, por mais que seja reprovado, é um espetáculo que consola os pais da inelutabilidade de sua própria morte.
João Guilherme Estrella foi traficante de droga. Mas o verdadeiro traficante nunca toca na droga; ele só vende. Para fazer a diferença entre traficante e usuário, a lei só pode indicar critérios quantitativos, que são freqüentemente incorretos: João Guilherme movimentou enormes quantidades de cocaína, mas ele mesmo chegou a cheirar, numa semana, o despropósito de cem gramas. A juíza viu mais o drogado que o traficante. Com razão: ao longo de sua "carreira", João Guilherme não acumulou nenhuma reserva de dinheiro nem organizou uma quadrilha, ele apenas viveu anos na ânsia de uma fruição frenética. Durante o processo, a juíza perguntou a João Guilherme se ele sabia que estava fazendo algo errado ou ilegal.
João Guilherme respondeu que ele não tinha muito clara a distinção entre o que é certo e o que não é. Claro, ele devia saber que algumas substâncias são ilícitas por lei. Mas há uma distinção mais profunda que muitos perdem - não só os toxicômanos, também todos os entusiastas que, a mando dos pais, saem à conquista do mundo. Ou seja, todos nós, quem mais quem menos.
Há um momento, no filme, em que João Guilherme e alguns amigos cheiradíssimos circulam de carro pelo Rio lançando um grito comum: "O Rio de Janeiro é nosso!!!". Que o Rio fosse dele - aliás, que o mundo fosse dele - era tudo o que o pai de João Guilherme queria. E é tudo o que qualquer pai quer para o filho, não é?

Um comentário:

r a c h e l disse...

Ai como eu amo as coisas que esse homem escreve!

bjbj