31 janeiro 2008

SÃO PAULO

Veja

A RECEITA DOS VENCEDORES

VEJA

Paulo Veras, diretor do Instituto Endeavor: "Temos de buscar o caminho para crescer e sermos os maiores"

A lição dos vitoriosos para ser bem-sucedido nos negócios

1 - Empresa pequena é apenas uma empresa que está no começo.

2 - Mire em ser o melhor do mundo em sua atividade. Se chegar perto disso, já é um sucesso.

3 - Sobreviver sem crescer é condenação ao fracasso. É preciso crescer sempre.

4 - Seu produto tem de fazer a diferença. Chegar tarde para fazer a mesma coisa é sinônimo de derrota.

5 - Ambiente de negócio hostil não é desculpa. É preciso vencer em qualquer situação.

6 - Desafios e crises são coisas do cotidiano, e não exceções.

7 - Seu mercado é o planeta.

8 - Deve haver transparência total nos objetivos e na contabilidade. O informal está condenado a ser pequeno.

9 - Grandes idéias nascem e prosperam em pequenos grupos, não em assembléias.

10 - Seus clientes querem satisfação, e não que você se esgote correndo atrás das novidades de seus competidores.

SONHO DE SINECURA

André Petry

"Lupi parece mas não é. Além das idéias que parecem úteis mas não são, Lupi não fala. Ele arenga às massas. Lupi não administra. Ele realiza sonhos. Comporta-se como ministro, mas não passa de um constrangimento"

O ministro Carlos Lupi, do Trabalho, está empenhado em realizar o que chama de "o meu sonho". Seu sonho é criar casas de trabalhadores brasileiros no exterior. Nessas casas, os brasileiros que vivem lá fora terão acesso a informações sobre obtenção de visto de trabalho, legislação trabalhista e lazer. No lançamento de 100.000 cartilhas que serão distribuídas nos aeroportos brasileiros e outros locais com orientações sobre a vida no exterior, o ministro definiu seu sonho: "Lá, o brasileiro vai poder escutar música popular e comer um feijãozinho amigo para matar a saudade". É precisamente assim que se criam as sinecuras. Parecem úteis, quando na verdade são apenas mais um cabide de emprego público inútil e dispendioso.

Amparar brasileiros no exterior é missão do governo, mas fica difícil entender por que é preciso criar casas de trabalhadores quando existe o Ministério das Relações Exteriores, que consumiu mais de 750 milhões de reais no ano passado para, entre outras coisas, manter sua rede de 100 embaixadas pelo mundo e meia centena de consulados. Em qualquer país civilizado, os servidores no exterior e as instalações diplomáticas servem para prestar assistência aos compatriotas. Se a rede brasileira lá fora faz um trabalho bom ou ruim, é outra discussão – embora seja certo que não existe para servir feijoada.

Para coroar sua desorientação, o ministro Lupi resolveu realizar seu sonho no momento em que os brasileiros começam a voltar para o Brasil. O ritmo do crescimento econômico, a maior oferta de empregos e o dólar fraco, combinados com a ameaça crescente de recessão nos Estados Unidos, acabaram por criar esse novo quadro em que as tais casas vão ficando especialmente desnecessárias. Estima-se que haja 4 milhões de brasileiros no exterior. Não há números precisos sobre a quantidade que já fez o caminho de volta, mas a cidade mineira de Governador Valadares, o maior símbolo da emigração nacional, já sente os efeitos dos dólares que começam a escassear. O grosso dos emigrados está nos Estados Unidos, no Japão, no Paraguai e em alguns países europeus. Lupi já decidiu que as primeiras casas dos trabalhadores serão em cinco países: Estados Unidos, Japão, Itália e Portugal. O quinto país não foi definido. A sinecura não quer exilar-se em Assunção.

Com esse tipo de patacoada, Lupi é cada vez mais um ministro que parece mas não é. Além das idéias que parecem úteis mas não são, Lupi não fala. Ele arenga às massas. Lupi não administra. Ele realiza sonhos. Comporta-se como ministro, quando não passa de um constrangimento. Em dezembro passado, a Comissão de Ética Pública pediu que escolhesse entre ser ministro e presidir seu partido, o PDT. A comissão entendeu que a acumulação dos cargos fere o código de conduta das autoridades federais. Lupi saiu-se com a avaliação de que estar nos dois cargos "não é ilegal". Ninguém disse que era. Lupi diz entender de lei, mas não entende de ética.

É claro que o presidente Lula não tomou a decisão de demiti-lo, nem pediu que deixasse o comando do PDT. Assim, ministro e comissão de ética ficam mancos, parecendo ser sem sê-lo. Para um governo que, às portas de uma crise energética, contrata Edison Lobão para as Minas e Energia, até que faz sentido. Lobão é outro que vai direto para a fila dos ministros que parecem mas não são.


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Atualmente são assim as nossas autoridades... Lastimável!

CHARGE

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Fonte: www.sponholz.arq.br

30 janeiro 2008

O CÂNCER DO LOTEAMENTO

Veja

Nesta edição, VEJA traz uma radiografia exclusiva do escândalo que originou o terremoto político no primeiro governo Lula. A revista teve acesso ao relatório final da Polícia Federal sobre a bandalheira que corria solta nos Correios – aquela imortalizada, como deve lembrar o leitor, na imagem do funcionário Maurício Marinho embolsando propina, enquanto explicava ao pagador como funcionava o esquema de corrupção na empresa estatal, de cujos cofres se locupletavam os partidos governistas. A gatunagem nos Correios acabou por abrir as portas do inferno ao PT, escancarando o mensalão. Quase três anos depois, a PF concluiu e enviou à Justiça um relatório primoroso. Ele autopsia as vísceras de um sistema corroí- do pelo câncer do loteamento de cargos públicos.

No plano ideal, como funcionaria o sistema político brasileiro? O presidente da República e seu partido, ao não dispor de maioria no Congresso, procurariam fazer coalizões com agremiações adversárias, a fim de ver aprovados os projetos enviados à Câmara e ao Senado. Essas coalizões deveriam se dar, principalmente, a partir do estabelecimento de visões coincidentes na defesa dos interesses do país. Aos aliados, como demonstração de boa vontade, caberiam alguns cargos no governo, preenchidos forçosamente por pessoas com competência técnica. Não é o que ocorre. Para compor – e manter – sua base aliada na Câmara e no Senado, o governo vem oferecendo um sem-número de cargos a partidos fisiológicos, empenhados numa única tarefa: meter a mão no Erário. Esse loteamento está na raiz de bandalheiras como a que vitimou os Correios. A melhor forma de resolver isso é diminuir dramaticamente o número de cargos loteáveis. Para se ter uma idéia, quando muda o partido no governo, trocam-se apenas 100 cargos públicos na Inglaterra e 1.000 na França. No Brasil, a estimativa é que haja a substituição de 21.000 servidores. O problema não é trocar um assalariado por outro, e sim o afastamento de funcionários competentes, que dão lugar a quadros especializados em desviar dinheiro público para os partidos a que pertencem. Esse loteamento fisiológico, além de causar danos à administração do Brasil, não traz sequer ganho político para o governo. Basta ver o que ocorreu na votação da CPMF no Senado. O governo entregou mundos e fundos à base aliada, mas foi derrotado também por ela.


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Leia a matéria. Dá vergonha, mas precisamos conhecer a verdade.

ANALISE O ERRO E NÃO ERRE MAIS

Stephen Kanitz

"Infelizmente, a maioria das pessoas não admite quando erra. Mas o verdadeiro idiota não é aquele que comete erros, e sim aquele que não aprende com os erros cometidos"

Todos nós cometemos erros, faz parte da vida. Em vez de ficarmos remoendo os erros, o correto seria realizar o que chamamos de "post-mortem do problema" e aprender a lição. Fazer post-mortem significa analisar as razões que nos levaram a tomar a decisão errada. Quem nos aconselhou errado, que dados errados usamos, qual foi o raciocínio ou a teoria equivocada utilizada, que dados temos hoje e quais deveríamos ter tido ao decidir, e assim por diante.

Infelizmente, a maioria das pessoas nem sequer admite quando erra, ou então não aprendeu a técnica na faculdade. Mas o verdadeiro idiota não é aquele que comete erros, e sim aquele que não aprende com os erros cometidos. Portanto, gaste sempre um tempinho analisando os seus erros de uma forma estruturada.

Façamos o post-mortem da CPMF. O deputado João Mellão se arrepende publicamente de ter votado pela CPMF e explica por quê: "O doutor Jatene, por sua biografia e reputação, emprestou credibilidade ao imposto do cheque e como conseqüência o Congresso o aprovou" – inclusive ele. Primeira lição desse post-mortem: emoção é um péssimo critério para tomar decisões, e confiar na reputação intelectual dos outros, pior ainda. Quem tem de pensar é sempre você, e não os outros.

A CPMF começou com a proposta do imposto único. Os assalariados passariam a pagar somente 1,7% a 2% de imposto no recebimento do salário, mais 1,7% a 2% na compra de bens e serviços. Um total de 3,4% a 4% de imposto somente, uma maravilha. Ou seja, já dava para desconfiar que algo estava errado. O governo precisa arrecadar 37% do PIB, e não 3,4% a 4%. De onde então viria a diferença? Dos empresários, dos atravessadores, dos capitalistas, dos especuladores, dos banqueiros, dos atacadistas, dos varejistas, das empresas, os inimigos de sempre. Só que eles representam 40% do PIB, na melhor das estimativas. Ninguém aceita pagar 83% do que ganha, é confisco, e portanto totalmente inviável. Mesmo assim, é impressionante a quantidade de confederações do comércio e pequenos empresários que dão apoio ao imposto único. E imaginem a fila de prefeitos, governadores e ministros que se formaria atrás do ministro da Fazenda para rediscutir a divisão do imposto único. Paralisaria o país. Foi exatamente o que aconteceu com a CPMF. Dedicada inicialmente a gastos de saúde, ela logo teve a sua fila quilométrica e destinações diversas.

A CPMF jamais deveria ter sido criada, muito menos recriada, como querem alguns. O setor de saúde deveria lutar por parte do IPI da Souza Cruz, pelo menos o necessário para custear os estragos médicos causados pelo tabaco, como o enfisema e o câncer de pulmão. Deveria lutar pela receita das multas de quem não usa cinto de segurança para custear as cirurgias de quem se espatifa no pára-brisa de seu carro. Deveria lutar por parte do IPI ou do ICMS das indústrias de alimentação que exageram no sal para custear as complicações médicas da hipertensão. Em administração, isso se chama custeio ABC: achar a correspondência, mesmo que indireta, entre despesas e receitas. Quanto mais cigarros forem vendidos, maior será a receita da área de saúde.

A Fiesp quer redução de impostos sem reduzir despesas de saúde. Mas como? O custeio ABC permite uma inteligente forma de reduzir tributos. Negociar a redução de sal nos alimentos e biscoitos em troca da redução do imposto, por exemplo, algo que a Fiesp poderia fazer. Reduzir carcinogênicos em troca de redução do IPI do fumo. Imposto criado sem destinação é convite à malversação e à gastança e permite sonegação de serviços públicos acordados em lei.

Os economistas são normalmente a favor da desvinculação de receitas porque eles não são bobos. Desvincular receitas facilita a vida deles e aumenta o poder do ministro da Economia. Nem toda despesa do governo pode ser rateada, logicamente o custeio ABC não é uma panacéia, mas tem sua aplicação em muitos casos. Na dúvida, ficaria o padrão usual: os ricos pagariam mais pelos serviços prestados pelo estado, via imposto de consumo ou imposto de renda. Por todas essas razões, a CPMF entrará na história econômica do Brasil como um imposto mal votado, mal concebido, mal pensado, desvirtuado, cuja alíquota de 0,38% vai continuar, incorporada que foi em outros impostos que não carregam o seu nome.


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Pior do que não aprender com os próprios erros é passar a vida colocando a culpa nos outros.

O CRIME QUE O GOVERNO ENCOBRE

CLÓVIS ROSSI

O governo Lula está encobrindo uma crime. Não, hidrófobos e debilóides, a acusação não é da "mídia golpista", mas de uma figura absolutamente acima de qualquer suspeita, o jurista Hélio Bicudo, próximo do PT, vice-prefeito com Marta Suplicy.
Diz Bicudo, a propósito da morte do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel: "O governo nunca viu com bons olhos uma investigação que levasse à descoberta da verdade, que eu não sei qual é".
Só em repúblicas bananeiras não há interesse em desvendar crimes.
E não se trata de uma vítima qualquer. Celso Daniel era, à época do crime, o coordenador do programa de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Logo, se não tivesse sido morto, acabaria certamente em uma posição de destaque no governo, a exemplo do que ocorreu com seu sucessor na coordenação, Antonio Palocci.
Mais: Gilberto Carvalho, talvez o mais próximo assessor de Lula, foi também assessor muito próximo de Celso Daniel em Santo André. Não é possível que não fique periodicamente cobrando de seu chefe empenho das instituições em apurar o assassinato.
Bicudo diz mais: o governo federal pressionou, indiretamente, o irmão de Celso Daniel, Bruno, levando-o a asilar-se na França com a mulher, Marilena Nakano. Que diabo de democracia é essa, que diabo de governo é esse que tolera ou até força o exílio de quem está apenas cobrando que as autoridades façam o seu dever e investiguem direito um crime?
O que se pretende encobrir com uma investigação mambembe? Eventual corrupção na Prefeitura de Santo André? Para que, se no governo federal viram-se coisas muito piores?
Ou algo ainda mais tenebroso, posto que Celso Daniel tinha e expunha idéias e propostas bem mais à esquerda das que acabaram sendo adotadas pelo governo petista?


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Olha a gravidade disto!...

29 janeiro 2008

O JOVEM POLICIAL

Lya Luft

"Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, menos cidadãos seriam assaltados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes"

Eu estava botando gasolina no tanque de meu carro e do meu lado estavam dois carros da Brigada Militar. Dois policiais falavam com alguém do posto. Um terceiro, bem junto da minha janela, de costas para mim, portava uma arma grande, que na minha ignorância acho que poderia ser um fuzil ou uma metralhadora. Estava ali, sozinho, e comecei a observá-lo sem que me notasse. Tenso, alerta, consciente de sua missão, olhava para os lados empunhando sua arma com o cano voltado para baixo. Seu rosto era jovem, tão jovem que me comovi. Podia ser meu filho. Mais: podia ser meu neto. Estava tão concentrado no seu dever, tão alerta na sua posição, que fiquei imaginando se, ou quando, ele poderia levar um tiro de algum bandido. Poderia ficar lesado gravemente. Poderia morrer. Por mim, por você, por um de nós, em qualquer parte do Brasil, não importa que nome se dê à sua corporação nem se é da guarda estadual, municipal, federal. Esses jovens se expõem por nós. Morrem por nós. Tentam, num país tão confuso, proteger o cidadão. A gente realmente pensa nisso? Uma vez ao dia, uma vez por semana, uma vez ao mês?

Tentei imaginar também como eu me sentiria se um de meus netos tivesse essa profissão. Que suspiro de alívio a cada noite, ou a cada manhã, sabendo que ele estava em casa. Que angústia sempre que se noticiasse uma perseguição, um tiroteio. Quanto ganha para se expor assim um rapaz desses? Esse tinha na mão esquerda uma fina aliança. Podia ter filhos, com certeza muito pequenos, dada sua pouca idade. Que vida a de milhares de famílias, em troca, penso eu, de uma compensação financeira diminuta.

Impressionada com sua seriedade, com a realidade concreta daquela arma enorme, e com quanto de repente me senti em dívida com aquele quase menino, teimei em adivinhar: quanto ganharia ele? Tanto quanto uma boa empregada doméstica, que não arrisca a vida embora seja importantíssima numa casa bem organizada onde a valorizam? Tanto quanto uma professora de escola elementar, que vende quinquilharias ou doces feitos em casa para colegas no intervalo das aulas, a fim de se sustentar?

Tanque cheio, saí rodando, pensativa: a educação e a segurança são o primeiro eixo da vida de um país digno. Elas e outros tantos fatores. Mas eu, naquele dia, quis pensar em educação e segurança. Com elas gastam-se quilômetros de papel e uma eternidade em falação. Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, com certeza menos cidadãos seriam assaltados, violentados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes. Menos jovens de classe média alta se matariam nas estradas ou venderiam drogas mortais a seus colegas nas escolas ou nos bares.

O problema, o dilema, a tragédia é saber por onde começar: educação começa em casa. Mas, diz um psicólogo amigo meu, os meninos (e meninas) problemáticos (aqui não falo dos saudáveis, que constroem uma vida) em geral não têm pai ou mãe em casa, e têm poucos modelos bons a seguir. Nas escolas, professores e professoras são mal pagos, desestimulados, sobrecarregados e desanimados (não todos, portanto não me xinguem por isso). Nesse caso, a educação deveria começar pelo alto: pelas autoridades, pelos políticos, pelos líderes. Não posso dizer que o Brasil está sendo brindado com uma maioria de políticos modelares, de líderes positivos, de autoridades de atitude impecável.

Então vivemos um dilema triste: começar por baixo, pela faixa etária menor, pela educação em casa e nos primeiros anos na escola, ou começar a reformar a mentalidade dos altos escalões, nos quais alguns líderes se destacam pela autoridade moral e elevada postura, mas a maioria, sinto muito, está longe disso?

Não creio que haja resposta. Eu não a tenho. Quem a tiver que sugira aos governos, ou aos pais, ou aos colégios. De momento, parece-me que estamos apenas despertando para essa questão crucial, sem a qual nada se fará de importante neste nosso país das utopias.

21 janeiro 2008

A NOVA CABELEIRA DO ZEZÉ

NELSON MOTTA

Uma das mais legítimas aspirações do ser humano é se tornar mais belo, aos seus próprios olhos e diante das fêmeas e dos machos da espécie. Zé Dirceu é humano, tem pleno direito de querer ficar mais bonito e, como homem de esquerda, sempre acreditou que os fios justificam os meios.
O Brasil não é só o país da piada pronta do Zé Simão, também está virando o da metáfora pronta. Como essa, político-capilar, estrelada por Dirceu, tirando fios de cabelo da nuca e reimplantando-os na vasta e brilhante testa.
O velho guerreiro vai voltar à cena com o seu velho topete. Zé Dirceu sempre foi topetudo, e se orgulhava de ser chamado de "Alain Delon dos pobres". Até como galã, Dirceu já mostrava uma opção preferencial pelos pobres, embora suas fãs fossem as jovens universitárias das elites brancas: a nobre calça e a cabeleira rebelde se completavam.
Na guerra do mensalão, Dirceu se descabelou. Na solidão de sua sala no Planalto, arrancava os cabelos em fúria e desespero, até finalmente cair em desgraça, semicareca e acusado de ser o chefe de uma quadrilha que cometeu crimes cabeludos contra a democracia. Sua voz e seu sotaque continuaram os mesmos, mas os seus cabelos... E Dirceu ainda teve o topete de dizer que não sabia de nada.
Ao resgatar remotos cabelinhos rebeldes da nuca histórica e reimplantá-los na devastada testa pós-queda, Dirceu sinaliza para a militância que é hora de tomar as ruas e arrepiar, fazer onda, encrespar. Alisar e amaciar, jamais. E denuncia que o mito de que, "na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais" é armação da direita disfarçada de marchinha de Carnaval.
E o "corta o cabelo dele!" da "Cabeleira do Zezé" é uma palavra de ordem fascistóide da imprensa golpista.

DE ÁGUAS E MICOS

ELIANE CANTANHÊDE

Lembrança do ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), velho morador de Brasília: há 30 anos, não havia macaquinhos nem aves exóticas no bairro do Lago Sul, onde hoje esse animais fazem a festa de seus netos. Lembrança de qualquer morador antigo de Brasília: todo janeiro, chovia de manhã, de tarde, de noite. Neste mês, a chuva só chegou mesmo na quarta-feira.
Algo está mudando no mundo, no Brasil, no centro do país, e convém ampliar as discussões sobre a febre amarela, focadas só na Saúde, e sobre a ameaça de "apagão", focadas só em Minas e Energia. Vale polemizar: e quanto ao desmatamento?
Para Marina Silva (Meio Ambiente), é claro que a migração de animais silvestres para áreas urbanas e o desequilíbrio nas precipitações de chuva são resultado de uma história de agressão ao ambiente.
Muita coisa já melhorou e vem melhorando, a partir da consciência das pessoas, de entidades e dos governos, mas persiste "um tensionamento" na sociedade entre a preservação e a competitividade econômica imediatista. Inclusive no próprio governo: "O governo não é diferente daquilo que acontece dentro da sociedade, é resultado", diz Marina Silva.
Sua advertência: "As pessoas que só pensam no lucro aqui e agora não estão preocupadas com o que vai acontecer daqui a 20, 30 ou 100 anos. Mas, se destruírem a Amazônia, por exemplo, teremos escassez de água no Sul e no Sudeste". E alerta também para o desmatamento e a ampliação desordenada das cidades e seus efeitos no ecossistema.
Não há certezas, mas talvez esteja aí uma das explicações para a volta do Aedes aegypti, o recrudescimento da febre amarela e a falta de água nas hidrelétricas, que atiça o fantasma do apagão. Os erros de ontem geraram as crises de hoje. Os de hoje produzem as crises de amanhã. E eles, os erros, e elas, as crises, serão cada vez piores.

O ROUBO E O PROGRESSO

CLÓVIS ROSSI

No mundo todo, 900 milhões de pessoas acham que os políticos são desonestos. Chocante, embora não propriamente uma grande novidade.
É o que se infere da pesquisa batizada de "A Voz do Povo", feita pelo Gallup International para o Fórum Econômico Mundial, a entidade que organiza, todo janeiro, os encontros de Davos.
O Gallup ouviu 61,6 mil pessoas em 60 países, mas garante que os resultados refletem o ponto de vista de 1,5 bilhão de cidadãos. Como 60% deles dizem que os políticos são desonestos, chega-se aos 900 milhões. Na América Latina são mais: 77%. O Brasil não entrou na pesquisa, mas acho que ninguém duvida de que os resultados seriam parecidos ou piores, dada a catarata de escândalos que se sucedem governo após governo.
O que mais incomoda é que ainda não se inventou outra maneira de intermediação entre Estado e sociedade que não seja a política. Se os seus agentes não são confiáveis, tem-se um buraco institucional gravíssimo. A propósito, apenas 8% dos pesquisados no mundo confiam nos políticos; na América Latina, menos (4%).
De todo modo, parece que começa a haver crescente descolamento entre a atividade política e o funcionamento do país. O Brasil é um exemplo nítido: o Congresso é um horror, a articulação Executivo/ Parlamento é atrapalhada, na melhor das hipóteses, e promíscua, na pior, a ação do governo é claramente lenta e insuficiente, mas, mesmo assim, a economia anda.
A Venezuela é outro exemplo: 79% de seus cidadãos acham os políticos desonestos, apenas 4% (metade da média mundial) confiam neles, mas, não obstante, 55% esperam que a próxima geração será mais próspera que a atual (muito mais ou um pouco mais).
Leitura possível: enquanto os políticos roubam, o país progride. Até quando, no entanto?

MENTE FÉRTIL

Editorial da Folha de S. Paulo

Um deserto de homens e idéias: por muito tempo, o Brasil foi visto desse modo, aliás injustamente. Seja como for, o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, parece mais do que nunca disposto a ocupar esse deserto por conta própria.
Desembarcou na Amazônia nesta terça-feira, fumegando de propostas para a região. Impostos, educandários e aquedutos brotavam da sua mente fértil.
Por que não um aqueduto? Por que não vários? Transamazônicas líqüidas, velozes, atravessavam as visões do ministro. Desembocariam no árido Nordeste. A teoria ungeriana é clara, límpida, desconcertante. "Numa região, sobra água, inutilmente. Na outra região, falta água, calamitosamente."
Diante do torrencial igualitarismo do projeto, até a dispendiosa e polêmica transposição do rio São Francisco parece modesta. O que faria seu adversário mais célebre, frei Luiz Flávio Cappio, se confrontado com o portentoso mangabeiroduto? Houve quem considerasse sua greve de fome um ato comparável aos de um profeta do Antigo Testamento. Talvez ao religioso só restasse prosternar-se, contrito, diante das inspirações superiores de Mangabeira, ao mesmo tempo Moisés e faraó, Netuno e Curupira.
A ministra do Meio Ambiente guarda silêncio. A prefeita de Santarém lembra que antes dos aquedutos seria interessante prover de água encanada os domicílios da região.
Nosso Doutor Fantástico viajou em companhia de 35 assessores. O desperdício da missão só é menor do que o desperdício dos neurônios, certamente preciosos, do professor da Universidade Harvard.

FRASE

"Como podemos ter em nossos quadros um senador que é filho de um ministro? Vamos precisar pedir para ele sair das reuniões na hora de definir planos de embate com o governo?"
Deputado ONYX LORENZONI (RS), líder do DEM na Câmara, sugerindo que o suplente Edison Lobão Filho, deixe o Partido e se filie ao PMDB.

MINISTRA TORRA R$ 171 MIL COM CARTÃO CORPORATIVO

Josias de Souza

Pouca gente sabe, mas o governo Lula dispõe de uma ministra que se dedica à promoção da igualdade racial. Chama-se Matilde Ribeiro. Chegou ao primeiro escalão em março de 2003. E não saiu mais. A despeito do poder longevo, o trabalho da ministra continua obscuro. Porém, o uso que Matilde faz do cartão de crédito corporativo saltou da obscuridade para as páginas de Veja (só para assinantes).

A revista lanço um providencial facho de luz sobre as faturas do cartão da ministra relativas ao ano de 2007. Gastou notáveis R$ 171.500 –o equivalente a R$ 14.300 mensais (valor superior ao salário da ministra, de R$ 10.700). Os extratos anotam despesas curiosas, muito curiosas, curiosíssimas. Dispêndios que Matilde fez e –nunca é demasiado recordar— você pagou. Estão distribuídos assim:

R$ 126 000 reais aluguel de carros
R$ 35 700 reais hotéis e resorts
R$ 4 500 reais bares, restaurantes e até padaria
R$ 460 reais free shop
R$ 4 800 reais despesas diversas
R$ 171 500 reais total

Matilde informou à revista que só usou o cartão corporativo para custear despesas decorrentes de viagens oficiais. “De fato, ela viaja tanto que poderia assumir o Ministério do Turismo”, ironiza Veja. “No ano passado, pagou 67 contas em hotéis – média de 5,5 contas por mês. É rara a semana em que ela não se hospeda em algum estabelecimento. Seu favorito é o confortável Pestana, um cinco-estrelas que enfeita a Praia de Copacabana. Ela esteve por lá 22 vezes no ano passado, ao custo total de R$ 10.000 reais”.

Por vezes, as despesas da ministra foram realizadas em ambientes que destoam do caráter oficial: bares, choperias, quiosques, restaurantes, rotisseries e até padarias. A reportagem anota: “No Rio de Janeiro, ela adora o restaurante Nova Capela, conhecido reduto da boemia carioca, e o bar Amarelinho, que se orgulha de servir o chope mais gelado da cidade”.

Prossegue o texto: “Em São Paulo, Matilde é assídua na padaria Bella Paulista, que fica aberta 24 horas por dia e é freqüentada pelos notívagos paulistanos. Nas refeições, ninguém pode acusá-la de abandonar a bandeira da igualdade racial: ela usou seu cartão dez vezes em restaurantes italianos, nove em árabes e três em japoneses”.

E quanto aos R$ 460 gastos no free shop, aquelas lojinhas nas quais os viajantes satisfazem suas pulsões consumistas no retorno de viagens internacionais? Matilde diz que, neste caso, o cartão governamental foi usado por engano. “O valor já foi ressarcido à União", disse ela.

Os gastos com os cartões do primeiro escalão do governo são realizados com a transparência de um cristal cica. A julgar pelos extratos da ministra Matilde, passa da hora de aprovar uma lei obrigando ministros e funcionários graduados a exibir na internet, mês a mês, as contas bancadas com dinheiro alheio.


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Falar o quê?!

20 janeiro 2008

19 janeiro 2008

CHARGE

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REPARAÇÃO

CONTARDO CALLIGARIS

A brutalidade de nosso desejo sempre nos deixa a tarefa de reparar o objeto desejado

Estreou na sexta passada "Desejo e Reparação", de Joe Wright -uma adaptação, essencialmente fiel, da obra-prima de Ian McEwan, "Reparação" (ed. Companhia das Letras).
O filme recebeu o Globo de Ouro para melhor drama e será certamente um sucesso de público. O livro de Ian McEwan é já um clássico e um best-seller. Por quê?
Certo, Joe Wright fez um filme maravilhoso, e McEwan é um dos melhores escritores do momento. Mas não é só isso.
Acontece que, na tela ou nas páginas, a história contada revela e ilustra um canto ao mesmo tempo escuro e familiar da subjetividade de todos nós, ou melhor, como se diz em psicologia, um mecanismo psíquico que governa nossa vida muito além do que a gente pensa.
Resumindo: uma menina, dotada de uma certa predisposição artística e inspirada por uma paixão amorosa e pelo ciúme inconfessável que essa paixão produz, faz uma sacanagem que estraga radicalmente a vida da irmã assim como a do jovem que ama essa irmã e é amado por ela.
A menina, ao crescer, tenta expiar sua culpa e descobre que ela poderá remir-se escrevendo não tanto a verdade do que aconteceu, mas uma história, um romance. É de uma vida dedicada à literatura que ela esperará a redenção: um romance reparará, enfim, o ato funesto que ela cometeu.
Os distribuidores brasileiros do filme mudaram o título de McEwan.
Acrescentando "desejo" a "reparação", eles fizeram uma escolha aceitável. Evitaram, em particular, a tentação de optar por algo como "Culpa e Reparação", termos ligados por uma implicação óbvia: a gente faz uma besteira, sente-se culpado e tenta acalmar a culpa reparando os danos -às vezes, trata-se de uma decisão consciente, outras vezes, nossa vida inteira se organiza ao redor de um projeto reparador sem que a gente saiba direito por quê (afinal, somos sempre culpados de alguma coisa, não é?).
Claro, a culpa pode exigir reparação, mas talvez a vontade de reparar os tortos não seja apenas a conseqüência das culpas que nos tocam por causa de nossos malfeitos. Talvez essa vontade seja algo mais radical, mais originário.
Foi uma grande psicanalista, Melanie Klein, que introduziu a "reparação" entre os conceitos da psicanálise. A idéia básica é a seguinte: um belo dia, o bebê se dá conta de que os objetos de seu amor são pessoas inteiras (por exemplo, ele descobre que não gosta apenas do seio que o alimenta, das mãos que cuidam dele etc., mas da mãe como um todo). Logo, nosso bebê começa a sentir a necessidade de "reparar" os "danos" que sua visão anterior do mundo teria causado -em suma, de reconstituir o corpo materno que ele havia consumido aos pedaços.
Isso pode parecer bastante exótico aos olhos do leigo. Mas, para entender, basta considerar que nunca paramos de oscilar entre a vontade de despedaçar o outro e a vontade de reparar os estragos. Como assim?
É simples e está no título do filme ("Desejo e Reparação"). No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade.
Falando em beleza, justamente, Melanie Klein e seus primeiros alunos já pensavam que talvez a vontade ou a necessidade de reparar o mundo (despedaçado por nosso próprio desejo) fosse a força que anima nossas ambições estéticas.
A incrível persistência humana na tentativa de criar algo bonito lhes parecia ser o jeito que inventamos para compensar a violência de nossa cobiça (não só sexual, aliás). Ou seja, os danos produzidos pela brutalidade de nosso querer nos dariam vontade de arrumar o mundo, de embelezá-lo, de fazê-lo ficar "bom de novo", como dizia Klein.
Em suma, talvez nossa capacidade de criar algo misteriosa e extraordinariamente "bonito" (como o livro de McEwan e o filme de Wright) seja a maneira que encontramos para proteger aos outros, a nós mesmos e ao mundo contra a "loucura" de nossos desejos.
Nota: é bem possível que nossa paixão ecológica de hoje tenha uma origem parecida. Afinal, ela tenta preservar e restaurar o que não sabemos deixar de destruir.

QUEM FALA MAIS ALTO

Rosely Sayão

Será que temos diminuído nossa capacidade auditiva? Parece que a cada dia precisamos falar mais alto. Não é de se estranhar, já que a poluição sonora dos centros urbanos é cada vez pior e o nosso cotidiano é lotado de barulhos: lojas, bares e restaurantes tocam música em volume alto, e tudo isso faz com que falemos cada vez mais alto.
Como se não bastasse a dificuldade em ter vida privada - hoje quase tudo é público -, até nossas conversas ao telefone vazam para todos os lados porque falamos ao celular em lugares barulhentos e isso nos obriga a aumentar o tom de voz. Resultado: a gritaria é geral, e participamos como observadores de brigas conjugais, de discussões profissionais e até das broncas nos filhos.
As crianças têm aprendido conosco a falar bem alto. Estudos já foram feitos em diversas escolas para medir a intensidade do som. Mesmo sem a voz dos alunos, o ruído é alto demais e colabora para a perda da atenção e da concentração. É que não temos tradição em nosso país de cuidar da acústica escolar: os pisos e as paredes não são elaborados com materiais de isolamento acústico.
Com os alunos dentro, o ruído aumenta. No recreio, algumas escolas que fizeram medições constataram um nível de decibéis considerado prejudicial à saúde. É que nessa hora, ao barulho do entorno escolar, soma-se a gritaria do alunado. Em sala de aula, os professores elevam o tom de voz para serem ouvidos, os alunos os imitam, e quase ninguém mais fala: todos gritam. Em uma pesquisa feita com alunos, mais da metade considera existir uma única saída que permita ouvir a aula toda: sentar-se próximo ao professor. Isso significa que muitos alunos nem sequer ouvem o que o professor diz.
Em casa, muitos pais confundem seriedade ou firmeza com aumentar o volume da voz. Mas não é preciso subir os decibéis para ser obedecido ou levado a sério por crianças e jovens. Aliás, eles podem aprender a falar mais baixo, a regular o volume da voz de acordo com as situações e, principalmente, a ouvir e respeitar as pessoas com quem se relacionam. E, para tanto, é preciso que tenham bons exemplos.
Criamos um falso conceito: o de que a criança fala alto naturalmente e que isso é um sinal de que vive bem sua infância. Muitos adultos consideram que ensinar a criança a falar mais baixo é reprimir sua espontaneidade.
Conheço uma professora de educação infantil que se esforça para ensinar seus alunos a se comunicarem em um tom de voz suave. Claro que ela consegue, com muito esforço e depois de um tempo de convivência com os alunos. Mas muitas de suas colegas consideram sua sala "muito reprimida".
Na verdade, ensinar a criança a falar em tom suave e audível faz parte do ensino da comunicação verbal e é um fator importante do processo de socialização. Para chegar a isso, precisamos colocar em ação nossa capacidade de auto-regulação do tom de voz. Afinal: vamos ajudar o mundo a ser menos barulhento ou vamos continua

AGRURAS DE CASAR

Anna Veronica Mautner

Se é mesmo verdade que hoje se casa cada vez mais tarde, há também quem diga que se casa cada vez mais cedo. É possível que as duas afirmações sejam verdadeiras.
Permito-me uma digressão sobre as dificuldades atuais em realizar o sonho, que quase todo mundo tem, do tal casamento para toda a vida. Eu me pergunto: como é possível casar cedo se saímos cada vez mais tarde da adolescência?
Casar tarde não é problema; ser adolescente solteiro é. A vida noturna, que é quando ocorre o encontro com parceiros, vai ficando violenta e se soma à liberdade sexual, que traz novos riscos. Lembremos uma velha frase que diz: quem casa quer casa.
Se os jovens têm cada vez menos dinheiro para montar uma casa, justamente por serem muito jovens, o que fazer? Há não muitos anos, quando os jovens queriam casar e não tinham como, eles moravam com a família até conseguir montar o próprio lar.
Hoje, morar com a família é o que um casal menos quer - e tampouco o querem os pais. Os estilos de vida diferem hoje muito mais do que antes. Alavancar o orçamento dos casais é um hábito que sempre existiu, só que não era confortável. Hoje a alavanca se tornou muito agradável: estando cada um na sua casa, não se atrapalham. Assim, o tempo da dependência se alonga. Na ausência de proteção da geração anterior, resta o casamento tardio - depois que um pé-de-meia foi feito ou que o par atinge estabilidade profissional.
Isso não ocorre com os adolescentes nem com os adultos jovens. Um casal de classe média que deseja se instalar, por mais modestamente que seja, precisa dispor de uma pequena fortuna. Fogão, geladeira e televisão não fazem mais um lar. Precisa-se de som, máquina de lavar louça, computador, impressora, telefone, TV a cabo, DVD e um carrinho que seja, além do enxoval e dos móveis.
Poderão alguns argumentar que muito disso se ganha de presente de casamento. Acontece que cada maquineta exige manutenção e eventual substituição. Além disso, há seguros a pagar, inclusive o de saúde. Com ajuda das famílias, pode-se casar cedo ou tarde. Sem ela, o começo é bem difícil, mas tem sua vantagem: lutar juntos sedimenta a relação.
Depois desse mergulho na realidade, sou levada a me indagar sobre as conseqüências dessa dependência sem data para terminar. Creio que afeta a ligação do casal, pois faltam espaço e liberdade para sonhar juntos. Um bom casamento tem a ver com fazer projetos comuns. Se eles não têm como sonhar com os fins de semana que poderão ter, com as viagens que farão, com a escola e o futuro resta para sonhar juntos?
Sem plano e sem sonho, um casal continua solteiro, namorando. São muitos os casais que vivem de forma nuclear, mas sob tutela. Como vimos, isso também acontecia antigamente -só que, morando num quarto na casa da família, sonhavam em ter um teto próprio. Aí a pressão era forte para sair de lá. Os casais que vivem na interface entre autonomia e dependência perdem a liberdade de criar um jeito próprio de existir, de fazer escolhas de prioridades, como "viajar antes de ter filhos ou ter filhos antes de viajar". Sempre existe alguém com autoridade de provedor para palpitar.
A família nuclear vive uma crise, mas continua sendo o microcosmo mais forte da sociedade. Enquanto outras instituições tremem, os casamentos - mesmo os prematuros - vão adiante, firmes e fortes, como base de formação psicológica da sociedade por vir que será a de seus filhos.

IRMÃO DE CELSO DANIEL É RECEBIDO NA FRANÇA COMO REFUGIADO POLÍTICO

Folha de S. Paulo

Bruno, sua mulher e três filhos foram acolhidos após relatarem ameaças a órgão

Um irmão e uma cunhada do ex-prefeito petista de Santo André (SP) Celso Daniel, morto há quase seis anos, foram reconhecidos pelo governo francês como refugiados políticos.
Bruno Daniel, Marilena Nakano e três filhos deixaram o Brasil em março de 2006. A família informou que vinha recebendo ameaças de morte por insistir na elucidação do assassinato do prefeito, até hoje sem resposta na Justiça.
O casal reuniu reportagens e relatos de amigos sobre as ameaças para apresentar ao Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas (OFPRA) - a Folha ligou para o órgão, que informou que os casos são mantidos em sigilo.
Bruno e Marilena disseram que escolheram o país pela tradição da França em dar abrigo a perseguidos políticos.
A pedido da família, Hélio Bicudo, membro da Fundação Interamericana de Direitos Humanos, irá apresentar hoje duas cartas escritas pelo casal, que pede um maior empenho do Judiciário. No documento, a família informa que sua maior preocupação é a ação que está no STF (Supremo Tribunal Federal) questionando a legitimidade de os promotores conduzirem uma investigação.
Advogados do ex-segurança e empresário Sérgio Gomes da Silva, apontado pelo Ministério Público como o mandante do crime (o que ele nega), dizem que só a polícia pode investigar.
A família pede aos ministros que se sensibilizem e votem de forma favorável à Promotoria.
O processo sobre a morte está na primeira instância - as testemunhas de defesa estão sendo ouvidas. Celso Daniel foi seqüestrado no dia 18 de janeiro de 2002, quando estava em um carro blindado conduzido por Gomes da Silva. O corpo foi localizado dois dias depois.
Para a Promotoria, o crime foi encomendado e está relacionado a um esquema de propina montado para financiar campanhas eleitorais.
A Polícia Civil, porém, concluiu que foi crime comum.


*

Até hoje este crime gera muita especulação.
Será que algum dia saberemos o que realmente aconteceu?!

51% DOS ELEITORES NÃO TÊM ENSINO FUNDAMENTAL

LUCAS FERRAZ

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) divulgou ontem levantamento que mostra que mais da metade (51,5%) do eleitorado brasileiro, que atingiu a marca de 127,4 milhões em 2007, não conseguiu concluir o ensino fundamental ou sabe apenas ler ou escrever. Do total de eleitores do país, cerca de 8,2 milhões (6,46%) são analfabetos.
O levantamento confirma projeção de que as mulheres são maioria no colégio eleitoral (65,9 milhões ante 61,3 milhões de homens), na divisão regional e nos variados graus de instrução - as exceções são nos quesitos "lê e escreve" e "primeiro grau completo" - atual ensino fundamental.
O Nordeste apresenta o maior número de eleitores com baixa escolaridade - 70%, segundo o TSE. Na região, formada por nove Estados, há também mais eleitores analfabetos: 4,2 milhões. O número é mais que o dobro das demais regiões, que, juntas, têm 4 milhões de analfabetos.
No Brasil, segundo o levantamento, há cerca de 4,3 milhões de eleitores com formação superior, com maior concentração no Sul e Sudeste. A disparidade educacional é comprovada na comparação com os eleitores que têm curso superior no Norte e Nordeste - 156 mil e 614 mil, respectivamente.
O próprio TSE, contudo, ressaltou que os dados podem "apresentar defasagens", pois a escolaridade é declarada quando é feito o alistamento.


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Um país sem educação não progride.
Temos que ter a educação como prioridade.

CASA & JARDIM

Painel

Depois de trocar mobília, comprar carros e até testar a qualidade do ar nos palácios da Alvorada e do Planalto, a Presidência destinou R$ 56 mil nos últimos dias para comprar flores tropicais e do campo.


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Sem comentários.

AINDA A CPMF

JOSÉ ALENCAR

São muitas as preocupações, mas há uma de que não se tem falado nada, e é sobre ela que me permito falar. Trata-se da defesa nacional

O orçamento sofreu um rombo. Coisa parecida com R$ 40 bilhões. O equilíbrio orçamentário é absolutamente essencial para a estabilidade da moeda. Mas o rombo está posto. Quarenta bilhões de reais.
A partir daí, há sérias preocupações, presentes na saúde, na educação, no saneamento, na energia e no transporte, no Bolsa Família. São muitas as preocupações.
Mas há uma de que não se tem falado nada, e é sobre ela que me permito falar, sem desapreço às outras, algumas arroladas aqui. Trata-se da defesa nacional.
Dimensão territorial, população, PIB, situação geográfica, entre outros fatores, nos conferem responsabilidades especiais em relação à região a que pertencemos.
Somos um país que exerce responsabilidades maiores em toda a América Latina, notadamente na América do Sul. Nosso território, é bom lembrar, tem 8,5 milhões de km2. Nossas fronteiras, mais de 15 mil km de extensão. Nossa costa atlântica se estende por 7.367 km, do Rio Grande do Sul ao Amapá.
Nosso país possui riquezas que exigem vigilância responsável. Os recursos minerais, a admirável biodiversidade, as florestas inigualáveis; terra, água e sol que nos tornam um dos melhores países produtores mundiais de alimentos e, agora, biocombustível. Nosso mar territorial, a chamada Amazônia Azul, representando mais de 50% do território nacional, é riquíssimo em petróleo, gás, nódulos polimetálicos e recursos vivos. Um patrimônio de valor imensurável, que exige absoluta atenção e presença de nossas forças em sua defesa.
Essa é a dimensão. São gigantescas as responsabilidades que nos pesam.
E, no entanto, há muitos anos, temos relegado a plano secundário o reaparelhamento das Forças Armadas nacionais, preocupação que deve estar presente na cabeça não apenas de cada homem público, mas de todos os brasileiros.
Está na Constituição Federal que as Forças Armadas destinam-se, entre outras atribuições, à defesa da pátria. Como, porém, defender nossa integridade territorial, a soberania, a integração nacional, a paz social e o progresso? A própria democracia?
Como cumprir essa tão nobre missão desprovidas das condições elementares e essencialíssimas para tal? Como combater -por terra, mar e ar- a estrutura e a reconhecida agilidade do crime organizado, do contrabando, do tráfico humano, de armas e de drogas se não contarmos com os recursos tecnológicos, de equipamentos e de armamentos correspondentes ao tamanho do desafio?
É de fundamental importância a manutenção das Forças Armadas em patamar de atualização técnica e tecnológica, material e humana que lhes permita exercer a inalienável atribuição. O despreparo e a obsolescência de meios certamente custam mais caro. As conseqüências são imprevisíveis. A prontidão tem um custo.
Do ponto de vista humano, nossas Forças Armadas se equiparam às mais bem preparadas do planeta. As academias e escolas de aperfeiçoamento da Marinha, do Exército e da Aeronáutica fornecem ao país, anualmente, contingentes aptos ao cumprimento da missão. O conceito de que desfrutam a Escola Naval, a Academia Militar das Agulhas Negras e a Academia da Força Aérea Brasileira tem despertado a busca permanente, por parte de outros países, de oportunidade de treinamento e aperfeiçoamento para elementos de suas forças.
Como nação soberana, o Brasil requer uma capacidade de defesa compatível com a sua estatura político-estratégica e com sua crescente inserção no concerto internacional. Nesse sentido, cabe lembrar que o decreto 5.484/05, que aprova a Política de Defesa Nacional, define que "é prioritário assegurar a previsibilidade na alocação de recursos em quantidade suficiente para permitir o preparo adequado das Forças Armadas".
Assim, a manutenção da previsão orçamentária para o ano de 2008 é imprescindível ao atendimento das necessidades mais prementes e imediatas das três forças, tanto no que diz respeito ao reaparelhamento material como na atualização dos soldos, fazendo-se justiça.
Somente dessa forma elas poderão ajustar-se à estatura político-estratégica da nação, ficando em condições de respaldar as decisões soberanas do país, seja no cenário regional, seja no mundial.
É oportuno reiterar que o Brasil não pode prescindir de Forças Armadas que assegurem seus bens e interesses, que permitam honrar seus compromissos internacionais e que respaldem sua posição histórica de fiador da paz e da harmonia entre as nações.

AMEAÇA DE MORTE

ELIANE CANTANHÊDE

O serviço de inteligência da Polícia Federal identificou e abortou um plano engenhoso -e macabro - para matar um gerente do Ibama (órgão de fiscalização do Meio Ambiente) que vive às turras com madeireiros na região Norte.
O alvo era Roberto Scarpari, de Altamira (PA), que passava férias no Rio e foi retirado às pressas pela polícia. A intenção dos seus quase-algozes era simular um assalto à mão armada contra ele - um crime tão corriqueiro no Rio que dificilmente levantaria suspeitas.
Scarpari, que é desses que briga, grita e incomoda até mesmo o governo, ou melhor, os governos, foi um dos responsáveis, por exemplo, pela autuação da empresa Amazônia Projetos Ecológicos, que mantinha castanhais na área do Médio Xingu, entre Altamira e São Félix do Xingu (igualmente no Pará). Ela foi notificada para desocupar mais de um milhão de hectares e multada por queimada de áreas florestais.
Na autuação, foram apreendidas armas de caça ilegais. A PF, o Ibama e o Meio Ambiente não fizeram, ao menos publicamente, nenhuma relação de causa e efeito entre a operação contra a empresa e o plano de morte abortado. Mas a notificação foi em outubro de 2007. A viagem (de ida e volta, digamos assim) de Roberto Scarpari acaba de acontecer. Foi logo depois, portanto.
Essa história ocorre em meio a uma pergunta que não quer calar: afinal, até onde o desmatamento é responsável tanto pela migração de animais silvestres e de novas doenças para áreas urbanas quanto pela falta de chuvas que ameaça os reservatórios e, portanto, o fornecimento de energia?
Enquanto se desmata e se mata por lá, 20 anos depois do assassinato de Chico Mendes, já estão se sentindo os prováveis efeitos por toda a parte. Brasília está cheia de micos inesperados e vive praticamente sem chuvas no seu mês mais chuvoso do ano. Por que será, hein?

BOM APETITE

Editorial da Folha de S. Paulo

Atendendo a interesses fisiológicos, Lula aponta para Ministério de Minas e Energia um nome sem qualificações técnicas

Dificilmente alguém terá ascendido ao cargo de ministro de Estado numa situação de tão precário prestígio quanto o senador Edison Lobão, do PMDB maranhense. Ainda que não seja do feitio desta Folha incorrer em prejulgamentos de natureza pessoal, é patente que faltam ao indicado para o Ministério de Minas e Energia qualificações técnicas para o cargo.
Falar em "qualificações técnicas" soa até como eufemismo, diante do que o próprio Lobão já admitiu. "Estou me informando", disse placidamente o político peemedebista, "sobre energia elétrica, sobre hidrelétrica, sobre gás, sobre petróleo."
Muitas noites em claro seriam necessárias, entretanto, para completar as leituras que pudessem habilitá-lo a tomar decisões em área tão vital; e não há garantias de que um apagão não as interrompa antes do tempo.
Enquanto setores técnicos do governo divergem sobre os riscos de falta de energia, Lobão cuida de abrigar-se de uma excessiva exposição aos calores do debate. "Nem sequer pus o pé na soleira do ministério e já estão me debitando coisas que possam acontecer no futuro."
Faça chuva ou faça sol, o fato é que "a soleira" das Minas e Energia foi franqueada sem cerimônias nem rodeios. Um observador afeito a jogos de palavras não deixaria de ver, na entrada de Lobão, mais um sinal de que as edificações da Esplanada dos Ministérios se assemelham mais e mais àquelas cabanas de palha e de madeira construídas pelos porquinhos da historieta, incapazes de resistir à voracidade dos interesses fisiológicos de toda espécie.
Se for imprópria a menção a um clássico infantil, cabe recordar a fábula supostamente moralizante que o presidente Lula empenhou-se em contar certa vez. Discutia-se a composição de sua equipe ministerial. "Com saúde e educação não se brinca": eram tranqüilizadoras as pretensões da assertiva presidencial. Revelaram-se contudo proféticas, no que diz respeito à nomeação nas Minas e Energia.
O ministério foi oferecido a Edison Lobão num ato de vassalagem ao PMDB sarneyzista. Da feudalização do Executivo, passa-se, no Senado, a contingências igualmente alheias à lógica política republicana. Reserva-se a Edison Lobão Filho a vaga de Lobão Sênior na Câmara Alta.
Sucessão legítima: ainda que sem trajetória política própria, Edinho, como é chamado, foi eleito -conforme as regras, notoriamente criticáveis, do sistema em vigor.
Todavia já surgem, e novamente não é o caso de julgá-las antes de uma investigação definitiva, denúncias contra ele. Nem sequer teria apetite pelo cargo, assevera o pai. Cogite-se então do suplente do suplente, Remi Ribeiro - e suas dificuldades com o Tribunal de Contas da União começam a bater às portas do noticiário.
Coisas do mundo encantado de Brasília. A história prossegue. Cabe acompanhá-la de olhos abertos - mesmo em caso de falta de luz.

18 janeiro 2008

RICARDO BARROS É O 1º DO PARANÁ E O 8º DO BRASIL EM GASTOS COM VERBA INDENIZATÓRIA

Do Blog do Rigon

O site Congresso em Foco levantou quais foram os nobres parlamentares que mais torraram o dinheiro da verba indenizatória, aquela que custeia despesas diversas, de gasolina a segurança. O ex-prefeito Ricardo Barros (PP) faz o favor de colocar o nome de Maringá nas alturas: em 2007, foi o oitavo deputado federal, entre os 513, que mais gastou em verba indenizatória. Gastou, ou torrou como diz o site de notícias IG, R$ 173.642,84, além do valor que recebeu como salário.
De acordo com o levantamento, no ano passado ele pulverizou R$ 47 mil com propaganda, R$ 67.900,00 com consultorias (pesquisas), R$ 38.584,09 com combustível e R$ 3.511,36 com material de expediente, além de R$ 11.823,93 com despesa do escritório político.
Barros é o primeiro dos 30 deputados paranaenses no ranking dos maiores gastadores de verba indenizatória da Câmara Federal, bem distante do segundo colocado, que é Moacir Micheleto (48ª posição). O outro deputado por Maringá, Odílio Balbinotti (PMDB), ocupa a 64ª posição. Confira a lista completa.

17 janeiro 2008

TAUTOLOGIA

Você sabe o que é tautologia?

É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.

O exemplo clássico é o famoso "subir para cima" ou o "descer para baixo". Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento
final
- certeza
absoluta
- quantia
exata
- nos dias 8, 9 e 10,
inclusive
- juntamente
com
-
expressamente proibido
- em duas metades
iguais
- sintomas
indicativos
- há anos
atrás
- vereador
da cidade
-
outra alternativa
- detalhes
minuciosos
- a razão é
porque
- anexo
junto à carta
- de sua
livre escolha
- superávit
positivo
-
todos foram unânimes
- conviver
junto
- fato
real
- encarar
de frente
- multidão
de pessoas
- amanhecer
o dia
- criação
nova
- retornar
de novo
- empréstimo
temporário
- surpresa
inesperada
- escolha
opcional
- planejar
antecipadamente
- abertura
inaugural
-
continua a permanecer
- a
última versão definitiva
-
possivelmente poderá ocorrer
- comparecer
em pessoa
- gritar
bem alto
- propriedade
característica
-
demasiadamente excessivo
- a seu critério
pessoal
- exceder
em muito.

Note que todas essas repetições são dispensáveis.

Por exemplo, "surpresa inesperada". Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.

Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.

Verifique se não está caindo nesta armadilha.

A MORTE EM VIDA DE JOSÉ DIRCEU

MARCELO COELHO

O modelo do militante é o cadáver de Lênin: na impassibilidade está sua principal virtude

"SAFADO. SA-FA-DO. SA-FA-DO!" Na fila do aeroporto, numa mesa de churrascaria, numa calçada qualquer, José Dirceu se arrisca todo dia a ouvir xingamentos desse tipo.
Na reportagem de Daniela Pinheiro para a última revista "Piauí", o modo com que o ex-deputado encara tais situações talvez seja mais interessante do que as farpas, amplamente divulgadas, que ele lançou contra adversários no PT gaúcho.
O texto, pelo excelente "timing" da narração e pelo tom de absoluta objetividade, merece ser citado mais extensamente. José Dirceu estava na churrascaria "Prazeres da Carne", que costuma freqüentar.
"Comia o segundo pedaço de cupim quando, sem que percebesse, um homem loiro e jovem se aproximou e pôs a mão no seu ombro. Talvez porque imaginasse se tratar de um conhecido, o ex-ministro sorriu quando o homem se inclinou. Com o rosto quase colado ao de Dirceu, entretanto, o desconhecido gritou."
Ouviram-se os impropérios já citados. "O sorriso do ex-ministro se desmanchou e sua expressão facial se esvaziou. Ele não demonstrou surpresa, raiva, medo, constrangimento ou qualquer outra emoção. Ficou olhando impassível, enquanto os berros continuavam."
Dá para intuir, pela reportagem, que tanta impermeabilidade não se construiu num dia. Não era muito diferente a atitude de José Dirceu nos tempos da clandestinidade. "Quando eu voltei para o Brasil", conta, "se alguém gritasse "Zé!" ou "Dirceu" na rua, eu nem olhava. Realmente, me convenci de que era outra pessoa".
Agora, como durante o regime militar, a despersonalização de José Dirceu funciona como um mecanismo de sobrevivência.
Fico pensando, entretanto, se também não foi essa despersonalização um dos fatores de sua desgraça política. Quem assistiu pela TV Câmara à sessão em que José Dirceu foi cassado certamente se lembra do tom quase burocrático do discurso em que tentou se defender.
Não digo que, se tivesse chorado, poderia ter escapado da perda do mandato. Mas um espetáculo mais emotivo naquela ocasião talvez diminuísse a virulência dos xingamentos que até hoje ele ouve.
É como se José Dirceu não tivesse sofrido demais com tudo o que aconteceu. Mesmo um "safado", para usar os termos do rapaz da churrascaria, pode estrebuchar quando punido.
Mas, aparentemente, a lógica por trás do comportamento de José Dirceu é de outro tipo. Está em curso a velha psicologia do militante bolchevique. Funcionário disciplinado do partido, cumpre-lhe assumir ou negar culpas, tanto faz, conforme o que lhe ditarem os interesses da revolução. Não existe fora da "causa", e o rumo da história, com "h" maiúsculo, é o único tribunal que merece o seu respeito.
No centro do poder ou fora dele, o militante continua a ter uma vida clandestina: a preservação dos segredos de Estado e o ocultamento prudente da existência privada tendem a ser duas faces de uma mesma moeda.
O modelo do militante é o cadáver embalsamado de Lênin na praça Vermelha: na impassibilidade está sua principal virtude.
As "grandes causas", evidentemente, desapareceram do horizonte; os interesses, contudo, persistem: a intermediação de negócios com empresários portugueses ou mexicanos, interessados em investir seu dinheiro no Brasil, ocupa a agenda do ex-deputado.
Curiosamente, a reportagem de "Piauí" assinala alguns momentos em que a subjetividade de José Dirceu ainda sobrevive sob o rigor tanatológico com que ele atravessa a existência.
Ele não vive sem creme hidratante, desmente usar botox, mas recorre a um miraculoso preparado anti-rugas feito em Cuba. Também se submeteu, faz pouco tempo, a um implante de cabelo. A respeito de Garibaldi Alves, o novo presidente do Senado, José Dirceu prevê que em breve irá a um ortodontista.
"Ele era lindo de morrer", exclama Daniela Pinheiro ao ver as fotos de José Dirceu nos idos de 1968. Natural que não queira ficar velho. Mas esse traço de fragilidade humana no ex-ministro vem na verdade confirmar, e não desmentir, as hipóteses que arrisquei sobre sua psicologia.
Brejnev, por exemplo, pintava o cabelo. Quem pensava ter o curso da história nas mãos não podia ser dominado pela corrosão do tempo. Fazer-se de morto é, algumas vezes, o mais poderoso elixir da longa vida. José Dirceu continua assustador.


*

Só uma pergunta: será que José Dirceu sente vergonha?!

16 janeiro 2008

CONCEIÇÃO TAVARES DIZ QUE POLÍTICA MONETÁRIA DE LULA É "IMBECIL"

Folha de S. Paulo

A economista Maria da Conceição Tavares classificou como "imbecil" a política de juros do governo Lula.
Em entrevista à revista "Desafios do Desenvolvimento", do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão vinculado ao governo, a economista afirma que o modelo de desenvolvimento do país não está completo. Segundo ela, o Brasil não pode ter como meta ser só um exportador de matérias-primas. Tavares é membro do novo Conselho de Orientação do Ipea.
A economista afirma ainda que a exportação de produtos manufaturados hoje está relacionada à existência de contratos de longo prazo, que podem não ser renovados caso o câmbio permaneça no nível atual.
Tavares responsabiliza os juros altos por esse cenário e diz que representantes do governo, como Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estão cientes dos efeitos provocados pelos juros.
A revista diz, após o expediente, que as opiniões emitidas são de responsabilidade dos autores e que não exprimem necessariamente o ponto de vista do instituto.
Em dezembro, o Banco Central decidiu manter pela segunda vez seguida a taxa básica de juros em 11,25% ao ano.
O BC justificou a decisão afirmando que o ritmo de crescimento da economia poderia pressionar a inflação.
Para Tavares, no entanto, os fatores que levaram o banco a manter os juros no patamar atual foram o fato de não saber como o Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) se comportaria e não conhecer ainda a dimensão exata da crise do crédito imobiliário de risco. Ela refuta a hipótese de que a preocupação com a meta de inflação tenha sido o fator responsável pela manutenção da Selic.
Segundo a economista, justamente em razão da situação no mercado externo o país precisa reduzir os juros para não ser pego de surpresa e evitar os efeitos de eventual variação mais forte de moeda no mundo. Dessa forma, seria possível, de acordo com Tavares, fazer com que o câmbio pare de se valorizar gradativamente.
A economista elogia o Fed e afirma que o BC americano não se restringe a atacar a inflação e foca também no crescimento econômico. "Tomara eu ter o Fed como banco central. Eles tratam direitinho das duas metas que eles têm, que são crescimento e inflação", disse.
Procurada, a economista informou que está em férias e que não tem concedido entrevistas. A exceção para o Ipea foi feita por ser membro do Conselho de Orientação do instituto. O BC não quis se pronunciar.

AGRÍCOLAS EVITAM DÉFICIT DA BALANÇA COMERCIAL

Folha de S. Paulo

Superávit do setor, de US$ 49,7 bi, quebra recorde

Não fossem as exportações de produtos agrícolas, o Brasil teria fechado o ano de 2007 com déficit na balança comercial. Havia dois anos o fenômeno não ocorreria, basicamente pelo crescimento das exportações do país.
O alto preço das commodities impulsionou o agronegócio, que terminou o ano passado com superávit recorde de US$ 49,7 bilhões - valor suficiente para manter positivo o saldo de balança comercial brasileira, de US$ 40 bilhões no total. Foram US$ 58,4 bilhões de produtos agrícolas exportados, contra importações de US$ 8,7 bilhões.
Na estimativa do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, o campo continuará auxiliando a balança comercial brasileira em 2008, com um superávit de "US$ 55 bilhões, provavelmente US$ 60 bilhões".
"Quem efetivamente mantém o superávit da balança comercial e ainda cobre o déficit dos demais setores é o setor agrícola", disse o ministro.
As vendas do agronegócio foram beneficiadas pelas cotações recordes das principais commodities agrícolas e pela ampliação de mercados para o complexo de carnes, fatores que compensaram a valorização do real ante o dólar no ano passado.
O complexo soja, por exemplo, apresentou crescimento de 22,3% nas exportações em 2007, apesar de uma queda de 2,9% no montante de toneladas embarcadas, compensada pelo aumento de 26% no preço.
Já o complexo de carnes registrou aumento de 30,7% nas vendas no ano passado, quando houve aumento de 13,2% no preço e 15,5% de crescimento na quantidade.
"A Bolsa de Chicago está em alta há vários meses e o que se pergunta no mercado é se os preços já atingiram um teto ou se há espaço para crescer. Nós achamos que ainda há bastante espaço", disse o secretário de Relações Internacionais do Agronegócio, Célio Porto.
O maior aumento registrado na pauta de produtos foram os 309,1% do milho, que embarcou uma quantidade 178,1% superior ante um preço médio 47,1% acima do registrado em 2006. As vendas se beneficiaram da opção norte-americana de utilizar o cereal como matéria-prima para a produção de álcool.
Outra conseqüência dessa política de Washington foi a redução nas vendas de álcool brasileiro para os Estados Unidos, o que contribuiu decisivamente para uma queda de 8,7% na exportação do agronegócio para os norte-americanos. Outro fator que explica essa queda foi a redução nas vendas de produtos de madeira, como móveis e compensados, devido à crise imobiliária que afeta os EUA.

O ano de 2008
Segundo Stephanes, o governo brasileiro dedica esforços para abrir os mercados da Malásia, Filipinas, México, China às carnes produzidas no país. A expectativa da equipe do ministro, segundo apurou a Folha, é anunciar ainda a abertura do mercado japonês para a carne suína brasileira neste ano, quando se comemora o centenário da imigração japonesa.
O complexo de carnes também deve ultrapassar a soja e se tornar o principal produto do agronegócio brasileiro, com a carne de frango em primeiro lugar, à frente da de bovinos e da de suínos.

GADO DERRUBA A AMAZÔNIA, RECONHECE STEPHANES

Folha de S. Paulo

Ministro da Agricultura admite que governo trata do problema apenas "em tese"

Estudo revelado pela "Folha" domingo mostra que região foi grande responsável pelo aumento das exportações brasileiras de carne bovina

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu ontem que há derrubada de floresta amazônica para uso como pasto, reconheceu que o governo trata do tema somente "em tese", disse que está preocupado e torceu para que o rebanho que come a floresta não se destine ao aumento das exportações brasileiras. "Já tinha enviado uma equipe de técnicos do ministério para a região, tenho mais de 250 fotos que não vou divulgar.
O outro lado disso é que a abertura da região se deu há 30 anos. Ainda estão derrubando, mas é pouca coisa. A gente tenta segurar esse processo", afirmou o ministro. Stephanes só conheceu alguns detalhes do problema ao ler reportagem da Folha de domingo: terra barata e crédito de bancos oficiais estimulam o avanço cada vez maior da pecuária. Hoje a Amazônia Legal responde por 36% do rebanho nacional e um terço das exportações, segundo relatório compilado pela ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira. Virtualmente todo o crescimento do rebanho nacional entre 2003 e 2006 aconteceu naquela região.

Questão de fé
"Como ministro da Agricultura, quero crer que não precisamos disso [ataque à floresta] para exportar carne." O Brasil é alvo constante de questionamentos de países desenvolvidos sobre as origens de seus produtos agrícolas, envolvimento de trabalho degradante e outros problemas. A temática ambiental também sempre surge nessas discussões.
Segundo Stephanes, o governo precisa passar à prática para impedir o avanço do pasto sobre a floresta. "Esta questão está colocada em tese, em nível de decisão política. O governo tomou a decisão política, algo que também é extremamente importante, que é a seguinte: não se derruba mais árvore para a expansão da agricultura e da pecuária brasileira", disse.
Entre as ações teóricas, inclui-se a preocupação do governo com o fenômeno da pecuária na Amazônia. "Estamos muito preocupados com aquilo que foi demonstrado na reportagem", afirmou Stephanes. O ministro abordou o assunto ontem, ao divulgar os dados da balança comercial do agronegócio brasileiro. O complexo de carnes foi destaque, com aumento de 12,8% nas vendas de carne bovina. Em 2007, o Brasil embarcou 1,62 milhão de toneladas de carne bovina em direção a 150 países, um número 6% superior ao ano anterior.
Em suas projeções, o Ministério da Agricultura espera um crescimento de 31,5% na produção bovina até 2017/2018. Segundo o ministro, há espaço para o aumento sem interferência em biomas protegidos, como a Amazônia e o Pantanal. O cerrado participa do cálculo como área para pastagem. Isso apesar de ser um bioma rico em biodiversidade e altamente ameaçado: estima-se que 40% dele já tenha sido alterado pela ação humana, e as pressões do agronegócio sobre a savana central brasileira só crescem.
"Estamos conscientes de que com a área que temos podemos ampliar a nossa produção agropecuária dentro das necessidades que teremos nos próximos dez anos sem precisar derrubar nenhuma árvore", disse. Entre as medidas citadas pelo ministro está o incentivo de áreas de pastagens degradadas.
O problema é justamente convencer pecuaristas a voltar a esses espaços, abandonados quando a quantidade de nutrientes no solo diminui consideravelmente. Para isso, seria preciso incentivos públicos financeiros para a compra de adubo e fertilizantes. "Temos de ter um uso mais intensivo, mais racional. Precisamos criar programas para uso de pastagem degradada, é uma proposta que precisa ser implementada", afirmou o ministro da Agricultura.
A recuperação de áreas degradadas era justamente uma das tarefas que cabiam àquela pasta dentro do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, coordenado pela Casa Civil. A ação nunca chegou a ser implementada.

EM CARTA, REFÉM NARRA TORMENTOS

FABIANO MAISONNAVE

Texto de Luis Mendieta, seqüestrado pelas Farc em 1998, foi trazido por Consuelo González

Narrativa fala em doenças, correntes, indiferença e humilhações; coronel fez jornada se arrastando após ter problema circulatório

Os dias de comoção não têm fim na Colômbia. Após o reencontro entre a ex-seqüestrada das Farc Clara Rojas e o filho, Emmanuel, no domingo, o personagem agora é o coronel da Polícia Nacional Luis Mendieta, 50, e sua carta sobre os nove anos em cativeiro enviada por meio de Consuelo González, recém-libertada pela guerrilha.
A provas de vida de Mendieta e de mais sete seqüestrados foram entregues por González aos familiares logo após chegar a Bogotá, anteontem. O encontro foi na casa de Patricia, filha da ex-congressista.
Nas cartas e fotos, o duro tratamento aos homens seqüestrados, que passam a noite acorrentados. O ex-congressista Jorge Eduardo Gechem, refém há quase seis anos, diz que sofreu sete paradas cardíacas e pede a Fidel Castro que intervenha para ser levado a um hospital de Cuba. "Se me recupero, iria a um presídio de Havana, na minha qualidade de refém político à espera do acordo humanitário", escreve.
O relato mais minucioso é o da carta de Mendieta. Na rádio Caracol, sua filha, Jenny, leu o texto com voz embargada. À rádio W, sua mulher, María Teresa, disse: "Desta vez ele não tem nem esperança". Leia, a seguir, trechos da narrativa:



Nascimento de Emmanuel
"Vimos que Clara estava grávida e que poucos meses depois teve seu filho, a quem chamou Emmanuel, em condições subumanas na selva. Dias depois, em duas ou três oportunidades, alguns de nós pudemos pegar o bebê no colo porque o levaram para o lugar onde estávamos, porque homens especiais da força pública fizeram coisinhas para ele, roupinhas, sapatinhos, brinquedinhos, bolsinhas e muitas outras coisinhas."

Viagem em redes
"À medida que se passavam os dias, e a viagem era inclemente, a pé, alguns de nós fomos adoecendo. Foi o que aconteceu com Ingrid [Betancourt], [tenente Raimundo] Malagón, [capitão Julián] Guevara [morto em cativeiro] e eu. Carregaram-nos em redes amarradas a um pau, fazendo as vezes de maca."

Saúde frágil
"Quando se iniciou o tratamento, me fizeram massagens nas pernas com Yodora, desodorante em creme, e, como criança, comecei do começo. Depois consegui dar alguns passos com paus, ou melhor, forquilhas que pareciam muletas, e ir ao banheiro sozinho."

Passatempo
"Nos últimos quatro anos não temos tido livros para ler (...). O mais importante é o tempo que (...) temos passando estudando por uma hora. Às vezes, durante o dia, inglês; em outros dias não estamos com ânimo para isso, ou por outros fatores, como a chuva. (...) Não obstante, pela idade, os neurônios perdidos em função das doenças do cativeiro, a falta de materiais de estudo (livros, cadernos, lápis, etc.), esse trabalho é dificultado, e aprender é difícil. Mas continuamos. Fazer isso funciona como terapia."

Solidariedade
"Como é lógico em função de minha doença, me tiraram a corrente com cadeado do pescoço, mas eram eles que tinham que carregar minhas coisas pessoais, e de um dia para outro elas desapareceram. Ou seja, fiquei sem nada exceto a roupa do corpo. Felizmente, no início da via crucis, [o sargento Arbey] Delgado se ofereceu para colaborar, carregando pacotinhos nos quais guardava as fotos (...) Delgado colaborou dando-me duas cuecas, um lençol e uma toalha. (...) [o ex-governador] Alan [Jara] me deu papel higiênico de presente, [o capitão Enrique] Murillo me deu pasta de dente

Angústia
"Não é a dor física o que me detém nem as correntes no pescoço o que me atormenta, mas a agonia mental, a maldade do mau e a indiferença do bom, como se não valêssemos, como se não existíssemos."


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E o presidente Hugo Chávez ainda pede para que as Farc não seja considerada como terroristas...
O que são, então?!

REQUIÃO FAZ CENA EM TV PARA CRITICAR JUSTIÇA

Folha de S. Paulo

Governador corta sua própria voz em programa de canal estatal em protesto à decisão judicial que o proíbe de fazer promoção pessoal

Juiz federal diz que só tenta vetar mau uso da emissora e que não se trata de censura; telespectador era conduzido a canal de secretário do PR

Para protestar contra o juiz federal que o proibiu de atacar adversários pela TV Educativa do Paraná, o governador Roberto Requião (PMDB) cortou sua própria voz no programa "Escola de Governo", uma reunião semanal transmitida pela emissora para anúncio de obras e projetos das secretarias estaduais. Quando Requião se manifestava, o som era cortado e uma tarja com a palavra "censurado" era colocada na tela.
Foi a primeira exibição do programa desde que o juiz Edgard Lippmann Júnior, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, atendeu na semana passada parte de um recurso da Procuradoria em Curitiba, que acusa Requião de usar a TV estatal para promoção pessoal e ataques a adversários, mídia, juízes e Ministério Público. O juiz proibiu as críticas, mas não suspendeu o programa, como pedia a Procuradoria.
Na exibição, além da tarja, uma mensagem associava o silêncio de Requião à decisão do juiz e avisava que o pronunciamento poderia ser acompanhado sem cortes de áudio na emissora Canal 21, do empresário Luiz Mussi, secretário especial do governo. Procurado pela Folha, Mussi não ligou de volta.
O programa começou ontem com depoimentos gravados em solidariedade ao governador e de repúdio à ordem judicial.
Entre os que criticaram a decisão, estavam o senador Pedro Simon (PMDB-RS); o líder do MST João Pedro Stédile; o ex-assessor do presidente Lula Frei Betto; e os presidentes da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sergio Murillo de Andrade, e da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício Azêdo.
"A censura é uma prática abominável que tivemos nos 21 anos de ditadura militar", afirmou Frei Betto.
Ao final das declarações, Requião foi anunciado para falar. Enquanto as câmeras o mostravam conversando com a platéia, o som era cortado e aparecia a mensagem de censura. O áudio voltava quando os secretários iam a um púlpito falar sobre suas pastas. Quando Requião conversava com eles, o som era interrompido de novo.
Em entrevista, o governador criticou o Judiciário. "Querem me transformar num divulgador de receitas de bolo, como aconteceu na ditadura", disse, numa referência à publicação de receitas pelo jornal "O Estado de S. Paulo" em protesto pelas notícias retiradas pelos censores do regime.

Outro lado
O juiz Edgard Lippmann Júnior disse à rádio CBN que sua decisão não impede Requião de falar. "O que fizemos no processo foi vedar o mau uso da TV Educativa. Nunca impedi o governador de falar." Procurado pela Folha, ele afirmou que não daria mais entrevistas.
O juiz disse que vai aguardar manifestação do Ministério Público para analisar se o teor do programa de ontem extrapolou a determinação judicial. "Se ficar caracterizado que isso se constitui numa afronta, vai ser analisado por mim, porque já existe uma multa prevista [de R$ 50 mil por cada agressão]", disse Lippmann Júnior.
O juiz disse lamentar críticas de Requião sobre a decisão. Ele afirmou que recusa o convite feito pelo governador do Paraná para debater a decisão no programa.


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Por que o governador Requião insiste em atitudes como esta?
Lamentável!

FRASE

"Lula é seletivo ao seguir seu próprio conselho sobre palpites: evoca os direitos humanos ao falar dos reféns das Farc, mas cala sobre os dissidentes cubanos."
IGOR GIELOW

TRANSGÊNICO DOMINA 48% DA ÁREA DE SOJA DO PARANÁ

Folha de S. Paulo

Estimativa é da Federação da Agricultura; para secretaria, parcela é de 41%

Governo Requião se opõe ao uso de grãos geneticamente modificados; presidente de entidade defende liberdade de escolha dos agricultores

Produtores de soja do Paraná já registram crescimento no uso de grãos transgênicos na safra 2007/2008, que começa a ser colhida em fevereiro.
Entidades do agronegócio estimam que o plantio do produto geneticamente modificado atinja 48% das lavouras do Estado -segundo maior produtor de soja do país, que deve colher cerca de 12 milhões de toneladas nessa safra.
Em relação à safra passada, a presença de grãos transgênicos deve aumentar 2%, segundo as estimativas. O número é comemorado pelo setor, que enfrenta oposição do governo do Estado, contrário ao transgênicos.
"Queremos ter o direito e a liberdade de defender o que o produtor quer plantar. Não adianta querer impor goela abaixo", afirmou Ágide Meneguette, presidente da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná).
Em 2003, a Faep e o DEM ingressaram com uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no STF (Supremo Tribunal Federal) e conseguiram derrubar uma lei do governador Roberto Requião (PMDB) que proibia o plantio de transgênicos no Estado.
A lei foi considerada inconstitucional porque o assunto é de responsabilidade do governo federal.
Na mesma época, a União havia editado medida provisória liberando o cultivo da soja transgênica no país.
Para o secretário da Agricultura do Estado, Valter Bianchini, os números sobre o plantio de transgênicos no Paraná "podem ser interpretados de diferentes formas". Segundo ele, "não houve um crescimento expressivo dos transgênicos como se esperava". Ele estima, contudo, que ao menos 41% das lavouras do Estado (sete pontos percentuais abaixo do divulgado pela Faep) tenham grãos geneticamente alterados.
Bianchini diz que países como França e Japão impõem restrições aos transgênicos. "Nós estamos comemorando também. Ainda há uma boa vantagem da tecnologia convencional, que é mais democrática e menos oligopolizada", disse o secretário, em referência à obrigação de pagamento de royalties, pelos produtores, para empresas detentoras da patente dos grãos geneticamente modificados.
Pelo segundo ano consecutivo, o produtor rural Nelson Paludo, 51, investe no plantio de soja transgênica na propriedade de 250 hectares em Toledo (549 km de Curitiba). Paludo diz que não tem observado restrições de clientes ao produto. "Já está tudo vendido."
Segundo ele, o tratamento da lavoura com transgênicos gera menos custo. Ele afirma que gastava, por hectare, R$ 962 para o cultivo com grão convencional. Agora, desembolsa R$ 857. "Fazíamos até quatro aplicações de herbicida no convencional. Com o transgênico, basta uma passada do produto."


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Será que Requião perdeu esta batalha?