Não tenho tempo para indecisão quando um desconhecido me pede um favor. Por quê? Ele espera uma resposta imediata. E não sei se, em uma situação semelhante, ele faria o mesmo por mim. Então, em alguns segundos, preciso responder a três perguntas para tomar a decisão. A pessoa precisa muito desse favor?
Concedê-lo vai ser uma inconveniência muito grande para mim? E a pessoa que pede está sendo gentil?
Num vôo doméstico, troquei de lugar com uma mulher que queria se sentar com o marido. Mas, num vôo para a Alemanha, me recusei a trocar minha poltrona no corredor, ao lado de outro marido, pela da mulher, no meio das poltronas centrais. Por que não cedi? Passar 12 horas como recheio de sanduíche, com duas pessoas de cada lado, faria minha claustrofobia virar ataque de pânico.
É fonte de tanta ansiedade que sento ao lado do corredor em cinemas e evito ser espremido em blocos de Carnaval, elevadores, ônibus e metrôs lotados. Tenho mais tempo para decidir se devo ceder a desconhecidos cujos hábitos me irritam. Por quê? Não esperam minha aprovação. Em vez de ceder aos que fumam perto de mim em um ônibus ou na área de não-fumantes em restaurantes, digo que é proibido. Uma vez, disse isso a um velhinho com um charuto aceso no elevador. Sua resposta: "Ninguém me diz o que posso fazer neste prédio. Sou dono dele".
Cedo a quase todos os que furam filas porque minha ficha não é limpíssima. Se, depois de comprar ingresso para o cinema, encontrar um conhecido na longa fila, puxo conversa. E uso o caixa expresso no supermercado quando meu carrinho tem 15 itens, e não os dez ou menos exigidos. Mas não cedo a malandros(as) cujo modo de furar fila acaba resultando em uma longa espera.
É o caso da dondoca sessentona que entrou no consultório onde eu esperava, reclamando de fortes dores no peito e exigindo ver o médico imediatamente. A recepcionista perguntou se não nos importaríamos de ceder a vez. Exceto por mim, todos disseram "tudo bem", que teria sido normalmente a minha resposta. Mas achei que a dondoca poderia estar fingindo ou exagerando o desconforto. Afinal, encontrou tempo, em meio à dor que a fez correr para o consultório, para pôr um monte de maquiagem. Além disso, ela era um rolo compressor, achatando qualquer um que se impusesse entre ela e seu objetivo.
Apesar de tentar tratar os outros como gostaria de ser tratado, trato rolos compressores como acho que me tratariam. E, já que não conseguia imaginar a tal dondoca cedendo sua vez para mim - a não ser que eu caísse inconsciente no chão -, disse a ela: "Se sua dor no peito é tão grande assim, talvez seja melhor ir para o hospital, que fica a um quarteirão daqui".
Então, ela olhou para mim, o primeiro da fila, e disse: "Pedi sua vez, não sua opinião". Minha réplica: "O paciente atrás de mim cedeu o lugar, pode entrar logo depois de mim". Em vez de encarar a humilhação, ela saiu da sala num rompante, mas não para o hospital. Depois da minha consulta, ela estava sentada pacientemente, e parece que a dor no peito sumira. Ou talvez tenha cedido.
08 novembro 2007
CEDER OU NÃO CEDER
MAIS UMA NO BURACO
Durante muitos anos, o Brasil conviveu, na prática, com um monopólio na aviação civil: a Varig teve 100% do mercado internacional e em torno de 75% do doméstico, mandava e desmandava no governo e não tomou providências para se sanear nos primeiros sinais amarelos nem nos sinais vermelhos. Enfim, tudo explodiu.
Lá se foram a velha Varig, a Vasp, a Transbrasil e agora a BRA, que pode até dizer o contrário, mas não tem condições de voltar a voar. Antes, tem de somar dívida e conviver com as imagens e declarações dos 65 mil passageiros que lesou.
E é assim que o Brasil sai de um longo monopólio para um "duopólio" na aviação civil, justamente quando a economia está estabilizada, com tendência de crescimento e com a classe média juntando suas economias para voar por aí. A conjunção de crise na oferta e aumento de demanda dá nisso. E vira um caos, quando é apenas uma parte de um complexo problema.
Companhias aéreas são concessões públicas especiais, que envolvem fortunas e mexem com segurança. E aí entra a responsabilidade do Estado, dos governos.
Se o antigo DAC (Departamento de Aviação Civil, vinculado à FAB) fosse mais independente, e a Anac não fosse amadora, para dizer o mínimo, deveriam ter competência para fiscalizar também a situação financeira das companhias aéreas.
Poderiam, assim, evitar perdas para o próprio governo, para os fornecedores e principalmente para os usuários. Sem contar que empresas endividadas, numa área sensível assim, são também perigosas.
A regra que começou a ser discutida, mas parou no meio da bagunça geral, deveria ser a seguinte: empresa com patrimônio líquido negativo não pode voar. Ou se conserta em seis meses, ou perde a concessão.
Mas isso é para país e para agências sérias. Há controvérsias se é ou não o caso do Brasil. E, com certeza, não é o da Anac.
07 novembro 2007
REQUIÃO: MAIS UMA GAFE
Gazeta do Povo
Denúncia de Requião sobre venda da Amazônia vira mais uma gafe
O governador Roberto Requião (PMDB) caiu numa "pegadinha" durante a Escola de Governo desta terça-feira (6). Requião iniciou a reunião com os secretários de governo exibindo um vídeo com uma suposta propaganda da empresa multinacional Arkhos Biotech propondo a compra de terras na Amazônia. Depois do vídeo, o governador disse à platéia que o vídeo está sendo apresentado pela "Rede Globo no México" e fez duras críticas ao "comercial".
O que Requião não sabia é que a propaganda não é real. Trata-se de um jogo que mistura entretenimento e marketing lançado por uma marca de refrigerante, a Guaraná Antártica. Na propaganda fictícia, um locutor, mesclando imagens da floresta, afirma que a única forma de preservar a mata é privatizando-a, uma vez que ela seria patrimônio de todo o mundo, e não somente do Brasil.
Este tipo de ferramenta publicitária, chamada de “Alternate Reality Games” (args), está sendo muito usada em campanhas por grandes companhias em todo o mundo.
Se não bastasse a gafe, Requião foi além. Determinou que a Televisão Paraná Educativa entrevistasse ambientalistas para comentar o assunto. Ele ainda sugeriu que a televisão estatal veiculasse o comercial de "venda da Amazônia" juntamente com os comentários dos ecologistas.
Outras gafes
A mesma gafe foi cometida pelo senador Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas, há sete meses. Virgílio subiu na tribuna do Senado para "denunciar" a tentativa de "privatizar a Amazônia". O tucano, à época, chegou a propor um convite à empresa fictícia - Arkhos Biotech - para uma reunião na Subcomissão da Amazônia no Senado.
Além desta, Requião coleciona outra gafe. Em fevereiro de 2006, o governador do Paraná esteve em Brasília para uma audiência com o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Após o encontro, Lula e Requião posaram para fotos. Num determinado momento, o presidente mostrou à Requião sementes de mamona. O governador então pegou e as colocou na boca. "Isso é mamona, pô", alertou Lula. "É bom", respondeu o governador. "Você sabe que isso tem uma toxina que não pode comer?", retrucou o presidente. Imediatamente Requião cuspiu a mamona.(Veja o vídeo no youtube)
36 PROJETOS DE REELEIÇÃO
Confira:
13 - Fim da reeleição;
11 - Fim da reeleição, com mandato de 5 anos;
1 - Fim da reeleição, com mandato de 6 anos;
1 - Fim da reeleição apenas para prefeitos;
1 - Reeleição de prefeitos de cidades com mais de 200 mil habitantes;
1 - Permite reeleição somente de presidentes;
7 - Exige licença ou renúncia do cargo para concorrer;
1 - Acaba com o limite, desde que haja licença de 6 meses.
DEPOIS DA CPMF, O QUEREMISMO
JORGE BORNHAUSEN
A aprovação da prorrogação da CPMF será a partida para o país começar a descer o plano inclinado do chamado "golpe institucional"
Mas ninguém dirá que o autor da proposta, o deputado Devanir Ribeiro, sindicalista da confiança pessoal do presidente, é um livre atirador. Pelo contrário, trata-se de uma voz autorizada e prestigiada.
Não era para ser assim. Como tudo no governo Lula - um jogo político em que pouco importam os meios, tudo é feito apenas para manter e ampliar o poder -, a questão da CPMF seria um bom pretexto.
Embora seja uma ação legislativa absurda (emendar a Constituição para criar um tributo provisório que se extingue no dia 31/12/2007), a tramitação da CPMF foi escolhida como biombo para aprovar a segunda reeleição do presidente da República.
Não se esperava pela proclamação judicial da vigência plena do princípio da fidelidade partidária, que se transformou na última instância para burlar a lei, explorando fraquezas e motivações inconfessáveis de alguns vira-casacas. Ao fazê-los trocar de partido e esvaziar as bancadas da oposição, montou-se o rolo compressor (que eles chamam eufemisticamente de "base governista") para aprovar a segunda reeleição de Lula.
Num país em que já são cobrados 64 tributos diferentes e certamente ocorre a maior desproporção entre o peso dos impostos sobre a população e a retribuição desse dinheiro em serviços e fortalecimento do Estado, a CPMF é indefensável.
Seja do ponto de vista da técnica tributária, seja pela incidência perversa sobre os mais pobres, seja pelo desestímulo ao desenvolvimento -a incidência de 0,38% em todas as operações financeiras de um único evento desorganiza qualquer sistema de produção -, a CPMF não resiste a nenhuma lógica. Portanto - e por tudo o que esse tributo tem de inconstitucional, como se justificam com cinismo os negociadores governistas-, o disfarce para a mobilização não deixa de ser bem engendrado.
Sem limites éticos, o governo Lula atinge os seus fins: a remoção do obstáculo representado pela capacidade da oposição de desfrutar de seu peso específico - obtido pelo voto, em eleições diretas- nas decisões do Congresso, ao menos quando se tratar de maiorias qualificadas.
Daí a votação da prorrogação da CPMF, o imposto do cheque, ter se transformado numa batalha decisiva para a democracia brasileira. Sua aprovação será a partida para o país começar a descer o plano inclinado do chamado "golpe institucional", quando os avanços discricionários cumprem falsos rituais democráticos. Sem nenhum obstáculo, a implantação de um governo absolutista satisfaz a preocupação natural do grande grupo de incompetentes e desqualificados que, graças ao uso da "estrelinha" partidária, e só por isso, ocupam as dezenas de milhares de cargos públicos de confiança. E não terão o que fazer se perdê-los.
A eles se aliarão os inescrupulosos que, por meio de ONGs de fachada, se alimentam dos cofres governamentais. Serão todos capitães da brigada de choque do novo queremismo.
("Queremismo" deriva de "Queremos Getúlio!", que por vez sintetizava a pregação de "Constituinte com Getúlio", que equivalia a "democracia com um ditador".) Trata-se de uma variante golpista brasileira de 1945. Getúlio já havia se rendido à exigência dos oficiais da FEB que, voltando vitoriosos do front da Segunda Guerra Mundial, não aceitavam que o Brasil vivesse a opressão política fascista que acabavam de derrotar na Europa. Desesperados, burocratas do Estado Novo tentaram uma reação.
Não desejavam perder seus cargos e se mobilizaram para conciliar o inconciliável, que era associar o Estado democrático de Direito com a ditadura que estava caindo.
O queremismo não pegou, mas o vírus da doença tropical se mantém hibernado. Ou pode-se interpretar de outra maneira a implantação surpreendente da nova TV estatal, mobilizando recursos e pessoas que dificilmente se disporiam a trocar carreiras e tempo de serviço, com excelentes salários, por uma aventura de fim de governo? Esse tipo de operação tem nome e modelo conhecidos na política brasileira. É queremismo.
RUMOR DE FACAS
Os jornais britânicos acham que a violência será um dos grandes obstáculos à realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Nossos jornais também. Com sete anos de antecedência, eles já estão em cima do problema e, pelo tom dos editoriais, sem grandes esperanças de que as coisas se resolvam até lá. Talvez fosse o caso de adotarmos o modelo inglês para tentar aliviar a situação.
Somente nas ruas de Londres, há 1,2 milhão de câmeras de televisão de circuito fechado penduradas em postes e marquises. Como são 7,5 milhões de habitantes, temos uma câmera para seis habitantes. Isso não inclui as câmeras em elevadores, portarias, shoppings, bancos, estádios, pubs, casas de apostas e, talvez, dentro dos táxis. É a cidade mais vigiada do mundo. Os londrinos sabem que, não importa onde e o que estejam fazendo, há um olho à espreita. Os indianos, negros, árabes, asiáticos e jovens em geral sabem melhor ainda.
Isso não impede que, segundo a polícia, 52 adolescentes por semana sejam vítimas de crimes com facas, e que os assassinatos por arma branca em Londres sejam três vezes maiores que os por arma de fogo. As lojas vendem coletes à prova de faca e os clientes são pais temerosos de que seus filhos de 10 a 16 anos sejam atacados a caminho da escola. Mas 42% dos infratores são outros garotos dessa idade.
A Scotland Yard calcula que, além desses delinqüentes amadores, haja 175 gangues juvenis atuando neste momento em Londres. E elas não se passam por facas ou canivetes. Corre um florescente comércio de armas de fogo oriundas de contrabando, financiado pelo tráfico de drogas. Em certos bairros, como Brixton, no sul de Londres, a polícia pensa antes de entrar - e não entra.
Não olhe agora, mas estou preocupado com a Copa na Inglaterra em 2018.
TOMAR O TERRITÓRIO DE VOLTA
Veja se não há a mais absoluta lógica na frase seguinte, pronunciada pelo presidente eleito da Guatemala, Álvaro Colom: "Há cartéis que têm seus próprios exércitos [na fronteira]. Não podemos ir lá com a polícia sozinha, temos que ir com o Exército, como uma operação de guerra, se de fato quisermos tomar o território de volta".
Muito bem, agora volte para o Brasil e veja se não há uma razoável semelhança de situações. Um: o crime organizado tem seus próprios exércitos, aliás, encravados em territórios urbanos. As fronteiras, para complicar mais, são porosas. Por elas, passa tudo: armas, drogas, contrabando.
Dois: parece igualmente óbvio que o Estado tem que "tomar o território de volta", ou seja, recuperar espaços perdidos ao longo do tempo para a criminalidade. Três: "a polícia sozinha" já foi "lá" uma porção de vezes, e não conseguiu recuperar o território.
Se o "um", o "dois" e o "três" são certos, como parece ser indiscutível, o "quatro" também deveria ser, certo? E qual é o "quatro"? É o "temos que ir com o Exército", conclusão do presidente guatemalteco recém-eleito. Detalhe importante: ele era o candidato contra a "linha dura", em geral associada ao "ir com o Exército".
O Brasil, no entanto, recusa-se pateticamente a pelo menos discutir o "ir com o Exército". Repito: não estou seguro de que usar o Exército em funções de segurança pública seja uma boa solução. Há inúmeras contra-indicações.
Mas a lógica contida na frase de Álvaro Colom também parece indiscutível, assim como sua aplicação ao Brasil.
Falta só as autoridades brasileiras pararem de rodear o toco, como é um invencível hábito tapuia, e pelo menos levar a discussão até as últimas conseqüências, para "ir com o Exército" ou não, mas "tomar o território de volta", sim ou sim.
ERROS EM PROFUSÃO
É cedo para precisar as causas do acidente com o Learjet 35 que matou oito pessoas em São Paulo. Mas, antecipando-se às perguntas incômodas que fatalmente viriam, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, apressou-se em criticar a eficácia da fiscalização de aeronaves, a cargo da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Embora esteja no cargo desde julho, foi só na semana passada, com a renúncia de Milton Zuanazzi do comando da agência, que o ministro conseguiu estender sua influência sobre a Anac. Está prestes a acabar, portanto, o acervo de desculpas passíveis de serem imputadas à "herança maldita".
Jobim -que diz que o tumulto aéreo dura pelo menos até o Carnaval- pode não se sentir responsável pelo que ocorreu até aqui na Anac. Mas ainda deve ao país um plano de ações coerente para debelar as causas estruturais da crise.
Já que se apressou em criticar a fiscalização, deveria dizer também de que modo pretende aplicar a promessa de que "agora" as empresas serão cobradas pela manutenção de seus aparelhos.
A Anac conta hoje com 390 profissionais para fiscalizar a regularidade da manutenção dos 11.320 aviões e helicópteros em operação no país. Acidentes em aeronaves de pequeno porte -já ocorreram pelo menos 75 neste ano- fortalecem um outro tipo de questionamento sobre a atuação da agência. Ela teria priorizado as inspeções das 457 aeronaves da aviação comercial de grande porte, relegando a segundo plano os 1.400 táxis-aéreos e 1.048 helicópteros.
Embora grave e preocupante, a descoberta de buracos negros na fiscalização não surpreende. A crise aérea nada mais é do que a expressão física de restrições de infra-estrutura diante de um importante aumento da demanda. Assim, afeta desde radares e pistas até controladores e fiscais.
O exasperante é que, mesmo após dois grandes desastres, que causaram a morte de 353 pessoas, e vários acidentes menores, o governo siga sem tomar medidas básicas necessárias para corrigir seus erros.
PROMESSAS GASOSAS
Editorial da Folha de S. Paulo
Lula estimula debate sobre falsa solução boliviana no gás e se esquiva de enfrentar a questão do setor elétrico
Os brasileiros têm motivo para redobrar sua preocupação com o abastecimento energético no futuro próximo. O governo Luiz Inácio Lula da Silva começa a transmitir mensagens confusas e equivocadas sobre as medidas que tomou - e as que pretende adotar - para enfrentar a mais grave ameaça à continuidade do crescimento."Todos nós sabemos que a Petrobras tem que fazer investimentos para que a gente possa ter mais garantias de que a Bolívia vai ter mais gás para exportar", diz o presidente Lula. Todos sabemos? Sem a explicitação dos termos da reaproximação com La Paz, ninguém pode ter certeza. Terá o presidente Evo Morales se convencido da necessidade de respeitar contratos? Ou esse será mais um acordo na base do "La garantía soy yo"?
A administração Lula, desconcertada com o apagão episódico no gás, na semana passada, apressa-se em ludibriar o público com essa versão de que a Bolívia será a tábua de salvação para o abastecimento do combustível. Falta dizer que qualquer investimento novo que a Petrobras realize hoje dificilmente será capaz de trazer mais gás boliviano ao Brasil em menos de dois anos.
O gasoduto Brasil-Bolívia já opera em sua capacidade máxima. Para cumprir o plano original de elevar em cerca de 50% o fluxo atual, seriam necessárias melhorias - para aumentar a compressão do gás transportado, por exemplo - que não estariam prontas antes de 2010. Mas o plano original foi abandonado pela Petrobras, com razão, após o governo Morales ter quebrado contratos, nacionalizado ativos da estatal brasileira e lhe imposto um arrocho tributário.
Ao redescobrir a Bolívia, o governo Lula tampouco revela que o país andino assumiu compromissos de venda de gás que excedem em mais de 10% sua produção. Não é à toa que falta suprimento para a termelétrica de Cuiabá. A propalada estratégia de trazer "mais gás" boliviano soa na verdade como tentativa de assegurar o fornecimento já contratado com o Brasil.
Enquanto estimula discussões sobre a falsa solução boliviana, o Planalto vai se esquivando de tomar medidas que atinjam o cerne da crise - o setor elétrico. Por mais que o preço do gás suba no mercado brasileiro, dificilmente a sua vantagem econômica em relação ao petróleo, cujo barril já roça os US$ 100, vai desaparecer. Continuará havendo um estímulo natural para o uso do gás.
Diante disso, medidas para inibir a demanda pelo gás natural, embora necessárias, terão efeito limitado. É preciso redesenhar o modelo de contratos no setor de energia elétrica, em especial para os chamados grandes consumidores. Está aí uma das fontes de instabilidade que ameaçam produzir mais um racionamento de eletricidade no Brasil.
"BRASÍLIA, MEU AMOR"
Hoje, entidades empresariais brasilienses lançam a campanha "Brasília, meu amor".
Um protesto pacífico contra os casos de corrupção ao longo de toda sua história.
A campanha também visa promover a valorização da "capital de todos os brasileiros, que registra os melhores índices de qualidade de vida, mas foi contaminada pela má fama do poder político-governamental".
Uma feliz idéia. Brasília é realmente muito mais do que a política a tornou.
PELÉ: O NÚMERO 1
A Associação de Estatísticos do Futebol (AFS) elegeu Pelé o melhor jogador do mundo, seguido por Ronaldo e Romário.
Maradona ficou com a modesta 6ª posição, atrás de Figo e Zidane.
Cafú ficou na 10ª posição, à frente de grandes craques como Zico, Ronaldinho e Djalma Santos.
Na lista dos 100 melhores, 11 são brasileiros.
Não tenho lá tanta simpatia pela pessoa de Pelé, mas, sem dúvida, como atleta ele foi excepcional. E merece o título de melhor jogador do mundo.
Quanto à Diego Maradona... deixa pra lá.
06 novembro 2007
CÉU DE URUBU
Desde o final do ano passado, já caíram, pelo menos, um Boeing da Gol, um Airbus da TAM, um tucano da FAB e um Learjet particular, além daqueles três helicópteros num único dia da semana passada em São Paulo. Três! É impressão minha ou tem alguma coisa errada nessa história?
Quando o Boeing se chocou com o Legacy em pleno ar ("acidente impossível", apelidam os especialistas), foram 154 mortos, e o Brasil descobriu que o controle aéreo estava descontrolado, com falhas técnicas e pessoal insatisfeito, à beira da insubordinação.
Quando o Airbus caiu e ardeu em chamas em Congonhas, plena São Paulo, foram mais 199 mortos. E o Brasil descobriu que:
1) as companhias estão enchendo as burras, voam como querem e estão deixando a manutenção em algum outro plano que não o primeiríssimo, como deveria ser;
2) a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) viajava de graça pra lá e pra cá, mas não fiscalizava nada. De quebra, usou norma fajuta para facilitar a vida das companhias em Congonhas, filé do setor;
3) a Infraero (estatal responsável pelos aeroportos) gastou fortunas para embelezar os aeroportos, mas deixou as pistas para lá. O governo esbravejava que era preciso "desafogar" Congonhas. Mas para onde? A pista de Guarulhos também estava irregular e insegura.
Agora, quando caem o Learjet e três helicópteros, um atrás do outro, fica evidente que, além de Congonhas estar saturado e Guarulhos não ser nenhuma Brastemp, o aeroporto Campo de Marte, também no miolo paulista, é um quebra-galho perigoso. E, se ninguém cuida direito dos grandes aeroportos e dos grandes aviões, cuida-se menos ainda dos pequenos e dos helicópteros. Tudo entregue à própria sorte, à nossa sorte.
Enfim, nós estamos num mato sem cachorro e não temos para onde correr. Nem para onde voar.
DISCUSSÕES ARMADAS
Editorial da Folha de S. Paulo
Diante da corrida às armas na Venezuela, Brasil precisa modernizar suas Forças Armadas e torná-las mais enxutas
Era previsível que mais cedo ou mais tarde as vultosas compras de material bélico sofisticado feitas pelo presidente Hugo Chávez repercutiriam no Brasil. A Venezuela não apenas moderniza e amplia suas Forças Armadas mas se aproxima de fornecedores e parceiros estratégicos, como a Rússia, a China e o Irã.Não há fórmula mais eficiente de atrair a atenção de Washington para a região e incentivar o armamentismo em outros países sul-americanos - Colômbia e Chile já embarcaram na onda. É verdade que na origem da aproximação de Chávez com a indústria bélica russa está o bloqueio dos EUA à compra de armas americanas pela Venezuela.
O veto americano, insuflado pelos ataques pueris de Hugo Chávez ao governo George W. Bush, foi mais uma atitude a lamentar da diplomacia dos EUA para a América Latina. Como ocorreu no apoio envergonhado à fracassada tentativa de golpe contra o presidente venezuelano, em 2002, Washington desta feita também contribuiu para fornecer a Chávez um pretexto ideal para suas aventuras.
É óbvio que, implícito na encomenda de 24 caças Sukhoi e 53 helicópteros a Moscou e de três radares aéreos a Pequim, está um projeto que vai além da mera reposição de força militar. Os US$ 4,3 bilhões de compras anunciadas desde 2005 -2,5 orçamentos anuais das Forças Armadas do país - elevarão a defesa aérea venezuelana ao que há de melhor na região. Escaramuças com a Colômbia e, algo bem mais plausível, uma intervenção na Guiana, da qual a Venezuela reivindica cerca de dois terços do território, deixariam o terreno das fabulações para tornarem-se opções à mão de Hugo Chávez.
O surto bélico venezuelano já produz efeitos no Brasil. A preocupação com o vizinho do norte ajudou a elevar de R$ 6,9 bilhões para R$ 9,1 bilhões a previsão de investimento nas Forças Armadas brasileiras no ano que vem. Mais R$ 1 bilhão foi autorizado para o programa de processamento de urânio e o projeto de um novo avião militar de carga.
Não é necessário, contudo, nenhum pretexto externo para reconhecer que as Forças Armadas brasileiras estão mal equipadas para o papel que delas se espera: a defesa nacional na era dos armamentos superinteligentes.
Essa deficiência está relacionada à penúria orçamentária por que o país passou nas últimas duas décadas, mas só em parte. O descompasso do poderio militar brasileiro também se explica por escolhas equivocadas sobre onde investir o dinheiro. Para ficar num exemplo, um item de grande poder dissuasório, o submarino nuclear - que não carrega armas atômicas, apenas é movido a energia nuclear -, perdeu prioridade em nome de opções bem menos operacionais.
Ficou a meio caminho, por fim, o projeto tantas vezes enunciado de constituir Forças Armadas mais enxutas, em termos de efetivo, mas com poder de intervenção bastante ampliado - seja por ganhos em mobilidade, seja por uma distribuição regional mais eficiente, seja pelo acesso a armamentos mais sofisticados.
Para que se complete essa modernização desejável, será preciso romper resistências, algumas delas incrustadas na própria corporação militar brasileira.
AUDIÊNCIA
Alisson Avila
A letra de É Hoje, canção de Didi e Mestrinho eternizada no samba e na música popular brasileira, é sempre lembrada como “aquela que fala da luta do rochedo contra o mar”. E é mais ou menos isso o que acontece, guardadas as devidas proporções, na velha guerra da audiência da tevê brasileira. A Rede Globo trata de manter-se impávido colosso diante dos vagalhões projetados por Record e SBT contra o seu rochedo.
Ambos os canais fizeram (SBT) e fazem (Record) todo o possível para reduzir a histórica superioridade que começou a ser construída pela empresa da família Marinho na tevê aberta do País a partir dos anos da ditadura militar. E parece que tanto esforço e energia – e especialmente dinheiro, tratando-se da Record – começam a gerar sinais de erosão na pétrea estrutura da Globo.
A emissora de Faustão, Xuxa e Ana Maria Braga, mesmo sem ver afetada a folga na liderança, perde participação de mercado. Enquanto isso, a Record cresce, e bem, e o SBT segue caindo, mas faz questão de mostrar que ainda não perdeu a batalha. Arma-se assim o cenário para um acirramento muito maior da disputa a longo prazo. Tais conclusões são resultado da análise dos dados do Ibope Telereport, interpretados em perspectiva de janeiro de 2005 até agosto de 2007, a partir do filtro mais utilizado pelo mercado de propaganda na hora de definir quanto de dinheiro será investido em cada rede: o chamado share de audiência das emissoras.
Trocando em miúdos, trata-se da participação de mercado (leia-se quantidade de espectadores), em pontos porcentuais, que Globo, Record, SBT, Band e demais tevês abertas possuem. A partir dessa métrica, vê-se que, na Grande São Paulo, a Globo sofreu uma queda de 9,5% no chamado horário nobre (das 6 da tarde à 1 da manhã), quando se compara a média de janeiro a agosto de 2007 ao mesmo período de 2006.
Em âmbito nacional, a perda foi de 7%. Estendida a referência para o dia inteiro (das 6 da manhã à meia-noite), descobre-se que o share caiu 10,5% na Grande São Paulo e 7,3% no total nacional (tabelas na edição impressa). À medida que desce a curva da Globo, outra curva sobe. A Record, mesmo que a partir de uma base muito menor, que facilitaria um crescimento acelerado, avançou 23% no horário nobre na região metropolitana paulista e 22,5% no total nacional nos oito primeiros meses deste ano, na comparação com 2006.
No acumulado do dia, sob a mesma referência do cálculo da Globo, a emissora de Edir Macedo ampliou a participação em 28% em São Paulo e 27% no Brasil de um ano para o outro. Os dados são praticamente públicos: qualquer agência de publicidade ou veículo de comunicação pode comprar os sistemas de pesquisas do Ibope e selecionar determinados filtros, gerando dados que permitam a comparação. O detalhe é que esses números, segundo as regras do mercado, não podem ser divulgados publicamente, ou seja, devem circular apenas à boca pequena.
05 novembro 2007
BRASÍLIA, CAPITAL DO SUICÍDIO
Do Blog de Cláudio Humberto
Somente nos primeiros nove meses deste ano 72 pessoas se mataram em Brasília, segundo a Secretaria de Segurança do DF. Esse número alarmante é maior que o registro do Detran de motociclistas (62) e ciclistas (59) mortos no Distrito Federal em 2006. Por temer que a divulgação estimularia novas ocorrências, a imprensa de Brasília ignora os casos. Mas os suicídios na Capital se transformaram em problema de saúde pública.
*
O que estará acontecendo em Brasília?
É preciso saber a aparente causa destes suicídios, para melhor analisá-los.
Seja lá quais foram os motivos, é preocupante e desolador.
DA SÉRIE "NOSSO PAÍS"
O normal, como há 200 anos, é cobrar um percentual de todas as obras nas estradas, que continuam esburacadas
O Brasil é um país complicado. A filosofia de grande parte dos brasileiros é ficar rico rapidamente; não à custa do trabalho, mas de preferência dando um golpe - ou uma tacada, como costumam dizer, mas isso não é de hoje. Há 200 anos o Brasil é assim, e não dá mostras de mudança. A inspiração para este artigo veio depois da leitura do magnífico livro "1808", do jornalista Laurentino Gomes - que deveria ser lido obrigatoriamente por todos que tentam entender nosso país-, que conta como era o Brasil nos tempos de D. João 6º, há 200 anos.
Segundo o livro, quando o governo do presidente Adams, em 1800, mudou a capital dos EUA da Filadélfia para a recém-construída Washington, o número de funcionários era de apenas mil. Já quando Brasília foi inaugurada, o número foi entre 10 mil e 15 mil, todos com salários altíssimos, pelo sacrifício da viagem. O livro diz que "grande parte dos nossos políticos pouco se interessa pela prosperidade do país; querem mais enriquecer à custa do Estado do que administrar justiça ou beneficiar o povo. Os que têm os cargos mais altos recebem verba de custeio e representação; é um grupo caro, perdulário e voraz". Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Continua o livro: "Naquele tempo o banco do governo financiava, sem garantias, políticos, usineiros e fazendeiros quebrados, e foi inventada a "caixinha", nas concorrências e pagamentos do serviço público.
Uma comissão de 17% era cobrada de todos os pagamentos ou saques no tesouro público. Era uma forma de extorsão velada: se o interessado não comparecesse com os 17%, os processos simplesmente paravam de andar. Um dos encarregados de administrar as finanças públicas, o que incluía todos os contratos e pagamentos, enriqueceu rapidamente.
No momento em que alguns moralistas tentaram mudar as coisas, esse homem foi preso e teve seus bens confiscados. Duas semanas mais tarde foi solto". Só para lembrar: isso acontecia em 1808.
No Brasil de hoje, as diretorias das importantes estatais são disputadas pelos partidos, entre políticos que não são do ramo. Fala sério: por que razão um arquiteto - aliás, bom arquiteto - deve ser presidente de Furnas ou um deputado presidente da Infraero? Quando entra um novo governo, estouram os escândalos de superfaturamento, CPIs são instaladas - geralmente não dão em nada- , e o dinheiro, ó: nunca mais. O normal, exatamente como há 200 anos, é cobrar um percentual de todas as obras feitas nas estradas, que continuam esburacadas, matando gente, e nos aeroportos, onde as pistas, por não terem o padrão exigido pela segurança, matam gente. Os poderosos continuam na gastança, pois a filosofia é que dinheiro do governo não é de ninguém, e o dinheiro da CPMF, que teoricamente foi criada para ser usado na saúde, não é empregado em hospitais, e o povo morre nas filas esperando atendimento médico. Com o Brasil sediando a Copa de 2014, seria preciso um Tribunal de Contas para a reforma de cada estádio e outro para cada estádio novo que será construído.
E o leite adulterado, vai dar em algo? Um ex-governador, hoje deputado, atirou num inimigo político há 12 anos, é preso em flagrante, às vésperas de ser julgado -tem foro privilegiado-, renuncia, e o processo vai recomeçar da estaca zero. É escárnio, como bem disse o ministro do Supremo Joaquim Barbosa.
Depois de ler esse livro, passei a entender que a corrupção está cravada no DNA do Brasil e vai ser preciso muito tempo para que as coisas mudem. Daqui a duas ou três gerações, talvez.
Talvez.
*
O autor do livro citado, 1808, é maringaense. Laurentino Gomes é um dos mais influentes jornalistas da atualidade.
1808 é resultado de 10 anos de pesquisa, sendo considerado um dos melhores livros acerca do tema.
1808 está na lista dos mais vendidos no país.
Sem dúvida, uma boa pedida.
Editora: Planeta do Brasil
Número de páginas: 408
Preço: R$ 39,90
QUARTO MANDATO?
Fundamento essencial da democracia é o de podermos assegurar a alternativa do poder. O continuísmo é um mal
No estado democrático de direito, o servidor público mais importante é o presidente da República, porque em sua pessoa se simboliza, consolida e opera o próprio Poder Executivo. Embora na mesma cédula, o vice-presidente se destina, nas condições normais, apenas à reserva política e constitucional, só entrando no posto titular em situações específicas e quase sempre muito provisórias (Constituição, artigos 76 e 79).
O termo mandato soma credenciamento para a função, exercício efetivo e tempo. Mandato sem tempo determinado é ditadura. Juntas militares e ditadores são impostos ao povo. Têm tanto tempo de mandato quanto às forças políticas internas ou externas se componham a seu favor. As ditaduras não são compatíveis com nosso Estado Democrático de Direito. Já vimos e vivemos de perto as ditaduras e seus defeitos. Às vezes começam bem, produzem coisas boas, mas logo se deterioram, passando ao abuso. As democracias querem que quem detenha o poder seja substituído de tempos em tempos ou quando o povo livremente resolver afastá-lo, perdida a confiança, durante o mandato.
Tem-se discutido qual a duração conveniente do mandato, em cujo exercício o governante tenha o efetivo controle da administração pública nacional em todos os seus segmentos. Cinco a sete anos, sem reeleição? Aparentemente seria solução média boa para o Brasil. Nossa experiência histórica sugere que quatro anos é pouco.
Quando a máquina começa a operar, depois de dois anos e meio, abrem-se as discussões sobre a nova eleição, e seus possíveis candidatos, atrapalhando o verdadeiro trabalho administrativo. O sistema atual, ao qual retornamos para favorecer o segundo período de Fernando Henrique Cardoso, foi solução uma boa, mesmo sendo produto da emenda constitucional de 1997, num imenso conchavo político.
O exemplo da Argentina é bom de recordar, sob outro ângulo. Lula tem dito que não quer o terceiro período, mas, por baixo do pano, há emenda para liberar as reeleições. Imaginemos, em lugar dessa hipótese, que alguém sugira ao presidente a eleição de Dona Marisa, copiando Kirchner e a mulher dele. É inútil me dizer que a idéia é absurda, posto que proibida. A breve parada no terreno do absurdo, porém, se destina a ver que, havendo proibição de reeleger o mandatário, a regra pode ser burlada se seu cônjuge, marido ou mulher for feito candidato. O caso de Hillary Clinton é diferente. Já se passaram dois quatriênios desde a saída do marido dela.
A proposta de emenda constitucional querendo permitir a reeleição por mais de uma vez é expediente típico das ditaduras. Saddam Hussein podia ser reeleito quantas vezes quisesse. Mubarak, no Egito, idem. Musharraf no Paquistão nem precisa disso. O ideal democrático é compatível com períodos relativamente prolongados, mas sempre finitos. A finitude, isto é, a certeza de que um dia termina, é essencial, predominante no povo brasileiro e na história republicana. Para alguma coisa serve a lembrança de George Bush.
Era o líder inconteste da democracia norte-americana. Hoje já é referido como o pior presidente da história. O fundamento essencial da democracia é o de podermos assegurar a alternativa do poder. O continuísmo é um mal em si mesmo, que, de tão grave, há de ser sempre evitado.
A UTOPIA 2014
É difícil acreditar na ilusão de que tiraremos séculos de desmazelo e atraso em menos de sete anos
Qualquer visitante estrangeiro que chega hoje a uma das maiores cidades do país -São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife- tem dificuldade em se orientar, se locomover ou obter informações básicas.
Os transportes públicos em geral são confusos, mal distribuídos e mal sinalizados. Malandros e criminosos estão de olho em cada movimento do recém-chegado, esperando o momento certo para aplicar-lhe algum tipo de golpe. Nas cidades menores, a ameaça de violência é mais baixa, mas a infra-estrutura é ainda mais precária.
Por que estou repisando numa coluna de futebol tudo isso que o leitor está cansado de saber? Porque a Copa 2014 será disputada nesse Brasil real, não no Brasil de mentirinha da CBF e da TV Globo.
No mundo globalizado, uma Copa do Mundo é uma grande festa, mas não é brincadeira. Só pode ser realizada com uma enorme seriedade, com recursos materiais e humanos virtualmente inesgotáveis.
Não se trata apenas de construir ou reformar estádios, botar polícia na rua e criar meia dúzia de linhas extras de ônibus.
No caso brasileiro, é preciso, de certo modo, uma injeção de civilização, um progresso substancial em todos os terrenos: na segurança, nos transportes, nas comunicações e na educação em geral.
Juca Kfouri, Tostão e Soninha já mostraram fartamente que o Brasil começou mal o processo de preparação da Copa-2014. Criou-se um comitê organizador viciado e sem controle público, maquiaram-se a mais não poder as condições reais do país, mentiu-se quanto à previsão de gastos estatais, vendeu-se uma ilusão perigosa de paraíso na terra.
Não sou economista e não vou falar de dinheiro. Sei que os gastos astronômicos e a má gestão das verbas acabarão saqueando o poço sem fundo dos cofres públicos. Vide o que ocorreu no Pan do Rio.
Mas não é esse o meu ponto. Suponhamos, candidamente, que o dinheiro venha todo da iniciativa privada e que seja bem gasto. Suponhamos que a infra-estrutura toda (estádios, trens, metrôs, aeroportos, telefonia, equipamentos de segurança etc.) esteja pronta em junho de 2014.
Ainda assim, resta uma questão crucial: onde vamos buscar as pessoas para fazer essa imensa máquina funcionar a serviço dos cidadãos e dos visitantes, sejam eles torcedores, profissionais do futebol, turistas ou jornalistas?
A situação é análoga à das escolas: de que adianta o computador na sala de aula se o professor é semi-analfabeto?
Na Copa de 2002, na Coréia do Sul e no Japão, havia 33 mil voluntários trabalhando na organização e funcionamento do evento, cada um deles falando duas línguas além da sua própria. Na Copa da Alemanha, foram 15 mil voluntários trilíngües.
No Brasil, hoje, é difícil encontrar esse número de pessoas que fale corretamente sequer o português. Isso sem falar dos policiais, funcionários dos estádios, dos transportes, das comunicações etc.
É esse atraso de décadas, de séculos, que teríamos que tirar em sete anos.
Dará tempo?
AS LEIS DE DEBOCHES
Ronaldo Cunha Lima usou como arma o direito de ser confessadamente criminoso e inalcançável por punição da Justiça
Se o golpe de esperteza do ex-governador, ex-senador e agora ex-deputado Ronaldo Cunha Lima, para escapar ao julgamento por feroz tentativa de assassinato, foi - como diz o ministro Joaquim Barbosa - "um escárnio com a Justiça", antes desse há outro mais grave, porque escárnio da própria lei com cada eleitor e contra todo o país.
Ronaldo Cunha Lima, então governador da Paraíba, atacou a tiros uma pessoa indefesa, a quem acabara de ver, por acaso, em um restaurante. Era seu antecessor, Tarcísio Burity, que levou um tiro no rosto e dois no corpo, com seqüelas que o acompanharam desde aquele dezembro de 93 até a morte dez anos depois. Como era de esperar, a Assembléia Legislativa da Paraíba negou autorização para processo criminal contra o governador.
Eleito senador, Cunha Lima evitou o processo nas instâncias normais, mas teve que se sujeitar a processo aberto, em 95, no Supremo Tribunal Federal: é o que permite o foro privilegiado para parlamentares, no país em que "todos são iguais perante a lei".
De então até agora, quando o processo chegou à pauta de julgamentos, foram 12 anos. Que legislação de processo penal e regimentos são esses que, em um só tribunal, podem tardar tantos anos para cumprir sua finalidade de "fazer justiça"? Com isso, Ronaldo Cunha Lima, que fez tudo de que a sua incompetência foi capaz para matar uma pessoa indefesa, tem a liberdade assegurada para sempre. Bastou-lhe renunciar ao mandato de deputado e, portanto, ao foro privilegiado. O processo vai para as instâncias normais, na Paraíba onde o filho e motivo do crime é governador, logo, aos 71 anos, Cunha Lima sabe que chegará a idade impunível antes que o processo pudesse dar em julgamento.
Mas o "escárnio com a Justiça brasileira", como reagiu o ministro do Supremo, é incerto. Dessa vez, Cunha Lima usou como arma o direito que a legislação processual e a do foro privilegiado lhe deram: o interessante direito de ser confessadamente criminoso, com numerosas testemunhas do crime, e inalcançável por punição da chamada Justiça. Escárnio sem dúvida, um deboche cínico lançado a todos nós, foi o dos senadores que saudaram o truque de esperteza de Cunha Lima e, nas palavras do líder do PSDB, Arthur Virgílio, "as razões nobres que o motivaram". Nobres como os "nobres senadores"?
Antes de tudo isso, porém, há outra preciosidade do lixo legislativo que os identificados com Cunha Lima têm guardado com zelo, muitos deles em benefício próprio, outros por precaução. A legislação eleitoral é mudada quase que a cada eleição, sem jamais restringir o registro de candidatos com problemas policiais ou judiciais graves. O mandato, assim, é um refúgio remunerado e repleto de privilégios. Em vez de proteger possíveis candidatos contra artifícios persecutórios, protege contra processos justificados. Além de outros, foi o que levou Cunha Lima ao Senado, depois à Câmara e, no seu caso, afinal à liberdade tranqüila. Outros ficam se reelegendo, apenas.
O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio, que já foi palco de algumas das mais deploráveis atitudes eleitoralmente antidemocráticas, decidiu enfrentar, entre outras providências, a permissividade desregrada de registros de candidatos. Para as eleições do ano que vem, está estendida a determinação ensaiada na eleição do ano passado: os juizes eleitorais devem negar o registro a pretensos candidatos com processos criminais.
"Não haverá prejulgamento, mas quem quiser recorrer terá de vir ao TRE e só depois ao TSE. É preciso que o político tenha moralidade para o exercício do mandato." Nestas palavras do desembargador Roberto Wider e na decisão do TRE-RJ está o que bem poderia tornar-se norma de todos os TREs. Ainda mais nestes tempos de tribunais decididos a suprir o que considerem "omissões" do Congresso. Mas na Paraíba, por exemplo, não é imaginável que Ronaldo Cunha Lima seja impedido de candidatar-se, caso deseje mais privilégios. Na legislação eleitoral, antes da moralidade vêm as conveniências políticas e pessoais.
REGISTRO
O repórter Cristiano Romero fez uma incrível revelação sobre os dias nervosos da crise do mensalão. Ajuda a entender o passado e, quem sabe, o futuro:
"Em agosto de 2005, (...) quando o publicitário Duda Mendonça confessou à CPI que recebeu dinheiro do PT por meio de caixa dois, a ministra [Dilma Rousseff] considerou que, ali, o governo chegara ao fim da linha. Acompanhada de Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, ela foi ao Palácio da Alvorada dar um conselho ousado ao presidente - que ele renunciasse ao cargo.
Lula riu dos dois. "Vocês não me conhecem"."
A PUREZA DA RAÇA
Acompanhei por alto a polêmica declaração do Sérgio Cabral a respeito da relação entre explosão demográfica e a onda de violência que atravessamos. Creio que o governador não foi bem entendido. Fizeram de seu comentário o ponto de partida para um tipo de eugenia semelhante à do racismo.
A posição de Sérgio não difere da pregação de diversas religiões, inclusive a católica, que combate o aborto e prega a paternidade responsável. Famílias sem condições de gerar filhos saudáveis, capazes de receber a educação básica da sociedade, deveriam evitar a paternidade por outros meios que não o aborto.
Seria necessário um mutirão colossal na sociedade para que os casais tivessem consciência das reais condições em que vão gerar os filhos. A longo prazo, a taxa da violência diminuiria radicalmente, e a melhora não seria apenas no setor do crime, mas nas relações gerais do indivíduo com a comunidade, na família, na escola, no trabalho.
A solução do aborto, além de envolver uma discussão moral, social e religiosa, está longe de ser uma panacéia salvadora que livraria a sociedade de vários males, o da violência e o da miséria.
Já contei há tempo, neste espaço, o caso de uma mulher na Alemanha no século 18. Com mais de 52 anos, não tinha idade segura para engravidar, mesmo assim engravidou. Era pobre, sofria de tuberculose, tinha hemoptises diárias, fora internada diversas vezes em asilos por distúrbios psiquiátricos.
Um médico examinou-a e solicitou ao Departamento de Saúde Pública de Bonn a licença para interromper a gravidez, que, entre outras coisas, colocava em risco a vida da mãe e do filho.
A licença foi negada. O filho nasceu. Era desconjuntado, surdo, anti-social. Seu nome: Ludwig von Beethoven.
REELEIÇÃO, SÓ UMA
Editorial da Folha de S. Paulo
Petistas de segundo escalão testam reação à idéia de terceiro mandato para Lula: a melhor resposta é o repúdio
Devanir Ribeiro está sempre na vanguarda das causas indigestas do PT. Amigo do presidente Lula desde o tempo heróico do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, granadeiro aguerrido no batalhão que absolveu mensaleiros na Câmara, o deputado agora assume o papel de bandeirante do terceiro mandato.Ribeiro é desbravador a serviço de um protagonista que ainda não está em cena. O petismo começa a preocupar-se com 2010 e com a perspectiva de ver-se alijado do poder federal, que abriga 5.000 militantes do partido. Sem candidato natural à sucessão, os murmúrios de queremismo naquele que já foi chamado de "Partido da Boquinha" encontraram seu primeiro porta-voz.
O deputado cumpre uma missão precursora, para testar a receptividade da idéia. As cúpulas do governo, a começar de Lula, e do partido, metidas numa negociação duríssima com a oposição no Senado, também honram o protocolo e "desautorizam" a movimentação continuísta. Mas ela não parou até agora, sinal de que nem Planalto nem PT agiram para bloqueá-la.
Muita gente no governismo está curiosa para saber as conseqüências do "factóide" lançado pelo deputado Devanir Ribeiro -no mínimo para ter noção dos custos implícitos numa campanha pelo terceiro mandato presidencial. A melhor resposta da opinião pública é deixar claro que tais custos são proibitivos.
A reeleição aumentou as opções para o eleitorado brasileiro, que passou a ter o direito de estender por uma vez o mandato de governantes que aprova. Pela regra em vigor desde o pleito de 1998, o inconveniente de retardar a necessária alternância no poder fica suplantado pelo benefício da continuidade administrativa, pois quatro anos é um período curto para a consecução de uma boa gestão pública.
Tal avaliação muda radicalmente no caso de um período de 12 anos ou mais. O Executivo no Brasil, em especial a Presidência da República, é incontrastável na concentração de poder. A probabilidade de que o presidente se converta num caudilho e vá minando as instituições cujo papel é fiscalizar e moderar a força do Planalto cresce exponencialmente num mandato longo.
Os EUA, fonte de inspiração do presidencialismo brasileiro, descobriram essa ameaça na prática, mesmo num momento especialíssimo de sua história. Depois da quarta vitória seguida de Franklin Roosevelt, em 1944, limitaram a reeleição a uma única vez.
De resto, a democracia no Brasil precisa valorizar a estabilidade nas regras fundamentais da luta pelo poder. Não faz sentido modificar um sistema -a reeleição limitada a um termo- que foi implantado há apenas dez anos e cujos resultados iniciais são positivos.
A confusão de princípios e o mudancismo casuísta são tamanhos que há gente propondo o terceiro mandato, enquanto outros querem acabar com a reeleição. Esse clima de ameaça permanente aos pilares da disputa política não faz bem ao país.
Os políticos fariam melhor se concentrassem suas energias em responder a duas intervenções recentes do Supremo Tribunal Federal: devem ao país um estatuto coerente para a fidelidade partidária e o restabelecimento da chamada cláusula de barreira.
FRASE
Do deputado federal EDUARDO GOMES (PSDB-TO), sobre a movimentação do deputado petista para dar a Lula o terceiro mandato.
PARA MULHERES
As mulheres que querem nos ferrar
FolhaTeen
Mas existe um outro tipo de relacionamento feminino bem menos harmônico. É o nosso com as moças que ocupam cargos em departamentos públicos, médicas de convênio e até algumas passantes da rua. Muitas moças, quando percebem que outras PRECISAM dela, aproveitam para destilar sua grossura e crueldade.
Exemplo: você precisa tirar um passaporte novo. A moça diz que o seu RG está meio rasgadinho e que por isso não vai rolar. Você vai ter que tirar outro e depois voltar. Você conta que foi até lá, um lugar muito distante, de táxi e que gastou uma puta grana. Ela diz: "Da próxima vez vem de ônibus". É claro que, depois disso, você começa a chorar. E ela diz: "Você pode chorar lá fora que tem gente esperando para sentar aqui?". Essa mesma mulher que deve ficar de noite chorando escondida no banheiro!
Alguém acha mesmo que uma mulher iria ter coragem de fazer isso com um homem? Não, principalmente porque ia ter medo de levar uma bifa na cara. Como elas sabem que provavelmente o máximo que podemos fazer é chorar, destilam todo o ódio do mundo em nossas almas sensíveis.
O mesmo vale para quando você precisa tirar seu título de eleitor pela primeira vez ou fazer o exame de motorista. Se a instrutora for mulher, malvada e estiver com raiva da vida, vai acabar descontando em você, apostamos. A não ser que a gente fale sobre a novela para ganhar a simpatia.
É duro, é triste e também é irritante. Mas o que podemos fazer? Passar a dar socos e chamar para a briga? Não. Vamos continuar chorando nesses casos. E, na hora do choro, vamos ligar para uma amiga mulher, que vai nos acalmar. E nos salvar da maldade da outra moça.
Que horror! E os homens ainda têm coragem de quebrar nossos corações!
TERCEIRO MANDATO
O nível de desenvolvimento político alcançado pela sociedade brasileira torna inviável um terceiro mandato
O presidente da Câmara dos Deputados aceitou o pedido de desarquivamento da emenda constitucional que permite um terceiro mandato para os cargos eletivos. Por outro lado, deputados do PT falam em um referendo para aprovar a idéia. Com essas notícias, aumentaram as suspeitas de que o presidente Lula esteja buscando se manter por mais três anos no Planalto não obstante seus reiterados desmentidos. Meu entendimento, porém, é que esses temores são infundados, e que realmente o presidente não trabalha por essa mudança porque ele sabe que ela não tem condições de ser aprovada. Pouco importa que ele, como qualquer político, considere com bons olhos a idéia de se manter por mais quatro anos no poder. Ele é um político suficientemente competente para saber que não vale a pena o desgaste de tal empreitada; ele sabe que o nível de desenvolvimento político alcançado pela sociedade brasileira torna inviável um terceiro mandato. Embora eu não concorde com a visão cínica de cientistas políticos que supõem que os políticos agem apenas em interesse próprio, neste caso eu não estou supondo o espírito republicano do presidente para afirmar que não há por que temer o terceiro mandato. Esse temor só se justifica para quem tem uma avaliação muito negativa da democracia brasileira, e este não é o meu caso. Apesar de todos os nossos problemas -e principalmente, nos últimos três anos, dos lamentáveis escândalos em que se envolveu o Congresso nacional- eu entendo que no Brasil temos uma democracia consolidada na qual não há espaço para aventuras deste tipo. Erramos quando se estabeleceu o segundo mandato, mas os defensores da idéia tinham para justificá-la o sistema norte-americano. Agora, porém, para justificar um terceiro mandato o exemplo melhor é o da Venezuela -um país cujo desenvolvimento econômico e político é muito mais baixo do que o brasileiro. Nós criticamos nossos políticos e nosso Estado -e é necessário que o façamos-, mas não podemos perder de vista o quanto já avançamos social e institucionalmente na direção da democracia. O grau de desenvolvimento econômico e de desenvolvimento político de uma nação são sempre correlacionados, mas em cada momento um pode estar mais avançado ou mais atrasado em relação ao outro. No Brasil, desde a transição para a democracia, aprovamos uma boa Constituição e a estamos completando e corrigindo com boas reformas institucionais; enquanto isso, nossa economia cresce a taxas muito inferiores às dos demais países em desenvolvimento. Hoje, o Brasil é mais avançado no plano político do que no econômico. Quando comparamos, por exemplo, nossa economia e nossa política com a dos Estados Unidos, o resultado é significativo: em matéria econômica, nosso atraso é grande e continua aumentando; já no plano político, nosso sistema fica pouco atrás, e, em alguns pontos, é melhor. A influência do poder econômico na política, por exemplo, é menor aqui do que lá. O Brasil já possui uma grande classe média e uma opinião pública respeitável a defender sua democracia. Por isso, não importa que a popularidade do presidente Lula esteja alta. Isto é ótimo porque dá legitimidade a seu governo, mas não significa que o Congresso possa violentar a democracia com um terceiro mandato. É subestimar os brasileiros e os seus representantes políticos imaginar o contrário.
TESTE DE SINCERIDADE
Para afastar dúvidas, Lula tem dito a amigos que há pelo menos um bom motivo para não desejar um terceiro mandato consecutivo, apesar das desconfianças até justificáveis da oposição, dada a tendência dos políticos à arte da dissimulação.
Aposta que seu segundo mandato será bem melhor do que o primeiro. Lançar-se numa batalha para aprovar no Congresso o direito a um terceiro mandato desandaria o mingau do governo, tornando, nas palavras de um assessor, o clima político um inferno.
Traria para seu colo, avalia Lula, a mesma maldição que atormentou FHC no segundo mandato. O petista tem a convicção de que a primeira fase do tucano teria sido bem melhor se ele não tivesse se jogado na aventura de aprovar a reeleição.
Re-reeleição, insiste o presidente, seria brincar com a democracia, dar uma de ditadorzinho, algo que afirma não desejar ver escrito em sua biografia. Só que o tema continua na agenda, por obra e graça de seus amigos petistas.
Irritado, um assessor muito próximo de Lula desabafou que gostaria de "dar uma porrada" no deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), aquele que promete apresentar projeto permitindo que seu amigo dispute uma nova reeleição.
Cansado do assunto, assim dizem seus auxiliares, Lula estaria mais preocupado é com o desempenho das áreas de educação, saúde e segurança pública, mal avaliadas em pesquisas. É, pode ser, mas bem que ele poderia chamar sua turma e ordenar o fim da brincadeira.
Independentemente da sinceridade de Lula, a ser testada mais à frente, a oposição crê ter aliados entre governistas para barrar qualquer tentativa de terceiro mandato. Se passar na Câmara dos Deputados, cai no Senado.
Agora, terceiro mandato em 2014, isso, sim, está na cabeça de Lula. Daí que acabar com a reeleição é algo que vê com bons olhos. Daí que fazer seu sucessor é seu objetivo. Nem que seja Ciro Gomes.
A IMUNDÍCIE CONTINUA LÁ
"O caso da Telecom Italia nunca rendeu nada de bom: só o enfado dos leitores e um processo judicial contra mim. Mas a Justiça italiana conseguiu juntar algumas das pontas que permaneciam soltas. Um dos diretores da empresa admitiu: em 2003, a Telecom Italia pagou propina no Brasil"
A Telecom Italia pagou propina no Brasil. Já leu isso em algum lugar? Sim: na coluna do autoproclamado Oráculo de Ipanema. A primeira vez em fevereiro de 2006, a segunda vez em outubro do mesmo ano, a terceira vez – chega, Diogo, chega – na semana seguinte.
O caso da Telecom Italia, apesar de tratado insistentemente na coluna, nunca rendeu nada de bom: só o enfado dos leitores e um processo judicial contra mim. Mas todos sabem que eu sou um renomado parajornalista, e o que mais aborrece um renomado parajornalista é isto: uma trama em que as pontas permanecem soltas. Nos últimos tempos, a Justiça italiana finalmente conseguiu juntar algumas dessas pontas. Depois de passar oito meses na cadeia, um dos diretores da Telecom Italia, Giuliano Tavaroli, admitiu ao juiz Giuseppe Gennari o que eu e meus leitores menos avoados já sabíamos: em 2003, nos primeiros meses do reinado lulista, a Telecom Italia pagou propina no Brasil. O fato foi confirmado por outras duas testemunhas: o diretor financeiro da sucursal brasileira, Marco Girardi, e o chefe de segurança institucional da empresa, Marco Bonera.
A revista italiana Panorama acaba de publicar uma reportagem reconstruindo todos os eventos. Em 8 de abril de 2003, Marco Bonera foi encarregado de transportar 300 000 dólares a Brasília. De acordo com seu depoimento, ele alugou um helicóptero, voou à capital e entregou o malote de dinheiro a duas pessoas num quarto do hotel Blue Tree. Sucessivamente, segundo ele, essas duas pessoas distribuiriam a propina a uma série de políticos relacionados numa lista.
Alguns dias depois, em 30 de abril, a Telecom Italia assinou um contrato de consultoria de 3,25 milhões de reais com o empresário Naji Nahas. Recebi uma cópia desse contrato em janeiro de 2006, assim como o comprovante de que o pagamento havia sido feito em dinheiro vivo. Passei todo o material a VEJA. A reportagem descobriu que parte do montante fora entregue a Ludgero Pattaro, uma das pessoas que – cito a matéria – "apareceram em relatórios da agência Kroll como sendo responsável por pagamento de propina da Telecom Italia a dirigentes do PT". Ludgero Pattaro enfiou o dinheiro numa maleta e, acompanhado por guarda-costas, levou-o a uma saleta do hotel Renaissance, em São Paulo. Até agora ninguém podia apontar com certeza o destinatário do pagamento. Aos juízes milaneses, Giuliano Tavaroli afirmou tratar-se da segunda parcela de uma propina destinada aos membros da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados.
Propina, propina, propina. Eu sei que o assunto se esgotou. Pode parar de bocejar. Isso tudo é velharia. Isso tudo pertence a um tempo em que a gente ainda tinha o ímpeto de espernear contra a imundície na política. O ímpeto passou. A imundície continua lá.
04 novembro 2007
O EQUÍVOCO E O PADRE
"É um erro tanto absolver Júlio Lancellotti (socorrendo-se de sua obra social elogiável) quanto desmoralizar a obra social (socorrendo-se de um padre sob suspeita)"
O caso do padre Júlio Lancellotti está servindo de pasto para maus bois. O padre denunciou que vinha sendo extorquido por um ex-interno da velha Febem e, de lá para cá, o caldo entornou. O padre já foi acusado de pedofilia, de espancar meninas, de manter relacionamento homossexual pago com o mesmo ex-interno da Febem que supostamente o extorquia, de desviar dinheiro de ONG... Até agora, não se sabe ao certo se o padre é vítima de calúnias ou se os pecados e crimes de uma vida clandestina estão vindo a público.
O caso é que, como Lancellotti é uma legenda no trabalho de proteção aos direitos humanos, a meninos de rua e menores infratores, sua atuação está ocupando o centro do palco. O que deveria estar sob os holofotes não é o trabalho do padre, é seu comportamento: o padre é culpado ou inocente?
Para desmoralizar o respeito aos direitos humanos, o apoio a meninos de rua ou adolescentes infratores, pode-se festejar o caso de Lancellotti. Com isso, é como dizer que a proteção à massa de desamparados é uma cascata demagógica que envolve até padre pedófilo e ladrão. É bom ficar alerta contra a manipulação, mas ela não é nova. Trata-se da corriqueira tática de culpar o mensageiro pela mensagem.
O que chama mais atenção é defender o padre escorando-se em seu trabalho em favor dos desvalidos. No dia 22 de outubro, arcebispos, bispos e sacerdotes fizeram uma nota de solidariedade a Lancellotti. A nota, assinada por três religiosos, entre eles o arcebispo Odilo Scherer, que acaba de ser promovido a cardeal pelo papa Bento XVI, é exemplo primoroso de equívoco.
Na nota, os religiosos dizem que Lancellotti está passando por "momento de provação e sofrimento" em decorrência do "trabalho evangelizador que há décadas realiza, em São Paulo e no Brasil, junto aos mais pobres". Que a atuação do padre "sempre foi uma grande referência para a Igreja e a sociedade". Que é um "sinal do amor misericordioso de Deus junto aos irmãos mais sofridos".
Todas as referências ao trabalho de Lancellotti são verdadeiras, mas a provação e o sofrimento do padre não têm nada a ver com sua atuação pelos pobres. Têm a ver com a suspeita de pedofilia, de violência, de desvio de dinheiro. Os religiosos, movidos pelo corporativismo católico, caíram na mesma mistificação dos que querem culpar o mensageiro pela mensagem.
A obra social do padre não pode servir de muleta para absolvê-lo nem para condená-lo. São coisas distintas. Colocar tudo no mesmo balaio é criar confusão. É um erro tanto absolver o padre (socorrendo-se de sua obra social elogiável) quanto desmoralizar a obra social (socorrendo-se de um padre sob suspeita).
Por trás, há uma disputa ideológica devido aos laços evidentes de Lancellotti com o PT. Há a defesa de um padre petista pelo elogio à sua obra. E há a condenação de um padre e sua obra por ser petista. É pasto para maus bois. Quando se descobriu que um dos mais famosos pediatras de São Paulo, Eugênio Chipkevitch, abusava sexualmente de seus jovens pacientes, a ninguém ocorreu botar a culpa na pediatria.
PAISAGEM COM PROBLEMAS
"Por ser complexa, a vida é interessante: por isso enchem-se os consultórios dos psicanalistas, escrevem os escritores, combatem os soldados"
Problemas são privilégio dos humanos. Quem mandou andar ereto, quem mandou pensar? Quem mandou inventar sociedade, trabalho, salário, teorias das mais abstrusas e, ainda por cima, política? Altos e baixos, magros e gordos, belos e feios, pobres e ricos, inteligentes e menos iluminados, problemas sempre teremos: com filho, com cônjuge, com patrão, com funcionários, com o Fisco ou o governo, com amigos ou com a burrice alheia. Nosso envolvimento vai armando uma trama que nos atrapalha e não nos deixa enxergar a claridade ou curtir os não-problemas.
Outro dia, depois de uma palestra, um casal me abordou, simpático. Ele pediu: "Eu queria que a senhora escrevesse sobre a necessidade de reavaliar nossos problemas e aliviar a vida. Pois minha mulher", ele a olhou com carinho, não com censura, "vive tão enrolada que pouco tempo resta para a alegria e para nós dois".
"Bom", respondi, "isso depende dos problemas". E resolvi escrever este artigo, lembrando o que me disse uma amiga: "Quando a gente está muito atrapalhado, é bom parar e analisar o que sombreia nossa paisagem: são tragédias ou chateações? Na imensa maioria das vezes são apenas chateações". Nunca esqueci essa fabulinha. Quando começo a querer me queixar da vida, penso nela.
"Com as perdas só há uma coisa a fazer: perdê-las", escrevi certa vez. Algo parecido ocorre com os problemas. Com eles, só há duas saídas: uma é resolvê-los. Com os insolúveis, o jeito é perceber e aceitar. Duro aprendizado. Depois, relegá-los a um segundo plano, abrindo-se mais para a vida – que é breve, é difícil, e não deixa o bonde passar muitas vezes, ah, não. Um dia, talvez não distante, abriremos os olhos e lá estará o belo e terrível Anjo da Morte, curvando o dedo no gesto irrecusável: "Vim te buscar, pobre humano".
Não acho que problemas devam ser ignorados. Frivolidade também mata. Mas há sempre o momento de parar para pensar, ou pensar menos e viver mais. Rever nossas estruturas, internas e externas: O que posso resolver? O que devo esquecer ou superar para que não me sufoque ou me roube a luz de que preciso para enxergar outras coisas, coisas melhores?
A vida é dura lida. Por vezes altamente dramática. Aqui e ali, tragédia. Nem sempre podemos desviar os olhos e a alma, nem sempre podemos ignorar e superar, nem sempre podemos resolver. Vitórias são raras. "Do caos nasce a luz" e da derrota pode nascer uma nova pessoa, melhor que a de antes. Mas do caos também pode surgir mais confusão, e da derrota pode resultar um pobre ser esmagado. Assim, dos problemas pode-se fazer uma seleção, em que alguns serão jogados fora. Deletou, acabou-se. Outros ficarão à margem do caminho, dando passagem ao otimismo e à vontade de vida, mas estarão ali, à espreita de um momento de fraqueza para nos assaltar feito bandoleiros. Outros, ainda, necessitam de um longo tempo para que se desmanchem suas raízes no coração que se atormenta. Só que esse tempo não pode ser tão longo quanto a vida nem ocupar demasiado espaço dentro dela, ou desperdiçaremos o que há de melhor na paisagem.
Eu mesma, do alto dos meus tantos anos e duras lidas, não consigo resolver ou superar alguns de meus problemas nem ajudar pessoas que amo a se livrar de todos os seus. Às vezes o jeito é dar-se as mãos numa ciranda solidária, esperando que o bom senso vença a perplexidade e reduza nosso sofrimento inútil. Seja como for, por ser complexa, a vida é interessante: por isso enchem-se os consultórios dos psicanalistas, escrevem os escritores, lutam os soldados, roubam os ladrões, enganam os crápulas e brincam, antes de se convencer da dureza dos combates, quase todas as crianças na paisagem em torno.
Não brincam as que morrem nos hospitais, fenecem nas ruas, sofrem nos lares violentos ou tristes: são responsabilidade nossa, grandes trapalhões que inventamos esta cultura, esta sociedade, esta injustiça, esta omissão, estas relações e esta vida. Porque a morte, essa não inventamos nós. Diante dela, quase todos os problemas se resolvem, e empalidecem quase todos os dramas.
03 novembro 2007
COMO CAPTURAR PORCOS SELVAGENS
Do Blog do Rigon
Havia um professor de química em um grande colégio com alunos de intercâmbio em sua turma. Um dia, enquanto a turma estava no laboratório, o professor notou um jovem do intercâmbio que continuamente coçava as costas e se esticava como se elas doessem. O professor perguntou ao jovem o que o incomodava. O aluno respondeu que tinha uma bala alojada nas costas, pois tinha sido alvejado na luta contra os comunistas de seu país, que estavam tentando derrubar o governo governo e instalar um novo regime, um "outro mundo possível".
No meio da sua história ele olhou para o professor e fez uma estranha pergunta:
- O senhor sabe como se capturam porcos selvagens?
O professor achou que se tratava de uma piada e esperava uma resposta engraçada. O jovem disse que não era piada.
- Você captura porcos selvagens encontrando um lugar adequado na floresta e colocando algum milho no chão. Os porcos vêm todos os dias comer o milho que lhes é oferecido. Quando eles se acostumam a vir todos os dias, você coloca uma cerca, mas só do lado em que eles se acostumaram a vir. Quando eles se acostumam com a cerca, ele voltam a comer o milho e você coloca um outro lado da cerca, por onde eles escolheram passar. Mais uma vez eles se acostumam e voltam a comer. Você continua desse jeito até colocar os quatro lados da cerca em volta deles com uma porta no último lado. Os porcos que já se acostumaram ao milho fácil e às cercas, começam a vir sozinhos pela entrada. No momento em que eles estão dentro do cercado, fecha-se a porteira e captura-se o grupo todo. Assim, em um segundo, os porcos perdem sua liberdade. Eles ficam correndo e dando voltas dentro da cerca, mas já foram cercados. Logo, voltam a comer o milho fácil. Eles ficaram tão acostumados que esqueceram como caçar na floresta por si próprios, e por isso aceitam a servidão.
O jovem então disse ao professor que era exatamente isso que ele via acontecer no nosso país. O governo está espalhando o milho gratuito na forma de programas de auxílio de renda, bolsas isso e aquilo, impostos variados, estatutos de "proteção", cotas para estes e aqueles, subsídio para todo tipo de coisa, pagamentos para não plantar, programas de "bem-estar social", medicina e medicamentos "gratuitos", sempre e sempre novas leis, etc, tudo ao custo da perda contínua das liberdades, migalha a migalha.
Devemos sempre lembrar que "não existe esse negócio de almoço grátis" e também que "não é possível alguém prestar um serviço mais barato do que seria se você mesmo o fizesse".
Finalmente, você poderá então perceber que toda essa maravilhosa "ajuda" governamental é um problema que se opõe ao futuro da democracia em nosso país.
01 novembro 2007
O ESTRESSE DOS PAIS
Outro dia, um pai apontou uma questão bem interessante. Ele assinalou o estresse dos adultos com os filhos e no exercício da autoridade educativa que lhes cabe.
É verdade: os pais, atualmente, se estressam muito por causa dos filhos. Aliás, boa parte desse estresse diz respeito à maneira como são vivenciados os papéis de pai e mãe -muito mais do que ao comportamento dos filhos. E, em geral, são estes que costumam receber todos os créditos do estado permanente de tensão em que vivem os adultos responsáveis por eles.
Vamos, só para reflexão, partir da premissa de que não são os filhos os únicos responsáveis pelo estresse dos pais. Para tanto, precisamos deixar de considerar que as crianças e os adolescentes de hoje sejam mais exigentes e críticos e tenham menos limites e menor tendência a acatar a autoridade. Vamos refazer a pergunta: por que os pais são tão estressados?
Primeiramente, porque, de acordo com a cultura a que estamos submetidos, vive-se muito mais para si do que para os outros. E os filhos são alguns desses outros: são próximos, estão ali por desejo dos pais, mas ainda assim continuam na condição de outros. E são outros que exigem bastante de seus responsáveis, mesmo que não sejam crianças com demandas infindas.
Sabemos que as crianças não nascem sabendo obedecer e que durante todo o processo educativo vão provocar as autoridades, transgredir e tentar burlar as regras.
Sabemos também que, enquanto não assumem a própria vida, é comum que deixem os deveres para os responsáveis por eles. Por isso é preciso lembrar aos filhos do banho, da escovação de dentes, da lição de casa etc. E essas tarefas atrapalham a vida dos adultos que querem viver para si.
Além disso, vivemos numa sociedade que tem como ideal a manutenção da juventude eterna, o que leva à busca da aparência jovem e a um estilo de vida característico. E, vamos convir, é difícil conciliar juventude com a maturidade necessária para aplicar paciência e persistência no trato com os filhos.
Finalmente, precisamos reconhecer que o amor dos pais é sempre marcado pela idealização. Hoje, os pais planejam os filhos que querem e imaginam que serão extremamente felizes. Mas a felicidade só poderá ser contabilizada após o árduo trabalho educativo -e é aí que a coisa encrenca. Os pais anseiam pela felicidade imediata, pela satisfação no presente, e, como nem sempre os filhos proporcionam esses momentos, o que sobra é o estresse.
Se quem tem filhos, por mais espevitados que sejam, entender que não residem só neles os motivos de seu estresse, conseguirá ter mais paciência, mais firmeza para ocupar o lugar de autoridade e, desse modo, diminuir a pressão e até tornar o processo educativo e a convivência com os filhos algo mais equilibrado, mais tranqüilo e mais efetivo.
Criança não precisa ser barulhenta, desobedecer sempre, ser agitada; criança pode ser tranqüila. Aliás, essa é a melhor condição para elas viverem plenamente a infância.
O TEMPO É INEXORÁVEL
Não há como evitar a comparação com o passado. Em conversas ou nas consultas médicas, observo com que esforço são feitos os confrontos entre passado e presente. Surge sempre a conclusão de que "envelhecer é uma porcaria".
Respeitando os motivos que levam cada um a pensar dessa maneira, tento mostrar o meu ponto de vista: felizmente, o tempo modifica tudo e, sem isso, não haveria evolução.
Há milhares de anos, o filósofo grego Heráclito conferiu-nos essa certeza profetizando que "ninguém entrará no mesmo rio duas vezes" e nós, mortais, verificamos a impossibilidade de fazer duas vezes a mesma coisa, da mesma maneira.
Se é fato que o tempo tudo modifica, qual a dificuldade em aceitar que nos modifique também? Evidente que entendo as dificuldades com que cada um faz aquilo que fazia antes, como subir uma escada ou lembrar-se de todos os detalhes. Cada um desses sintomas merece uma avaliação antes que se conclua serem decorrentes do processo de envelhecimento.
Freqüentemente, uma detalhada avaliação geriátrica identifica causas aparentemente inócuas que, quando corrigidas, têm sensíveis melhoras. Surpreendem-se aqueles que acreditam que o organismo funciona por partes independentes, em que cada órgão teria sua autonomia e o biológico se destacaria do psíquico. Grave engano: cada pessoa é uma só.
Por outro lado, poucos são os que se comparam ao passado e destacam os exemplos de quanto o envelhecimento lhe fez bem. De como era difícil aceitar certas limitações, agora incluídas no rol das dificuldades a serem vencidas. Aliás, a maioria sequer se recorda de que, quando jovem, enfrentou limitações pessoais. Admite apenas aquelas que lhes foram impostas pelos outros. Vivem da falsa memória da plena capacidade juvenil. Em todas as idades, enfrentamos limites que são vencidos ou respeitados de acordo com as nossas capacidades.
Em diálogos como esse, costumo citar uma história real e simples, que exemplifica a relação do homem com o tempo.
Na década de 1950, uma criança asmática foi aconselhada a tentar otimizar seu tratamento medicamentoso com exercícios, preferencialmente natação. Sua mãe, agoniada pelas inúmeras crises de falta de ar, fez o que lhe foi recomendado. Ele tanto se sentiu bem nadando que se dedicou ao esporte e, nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ganhou sete medalhas de ouro.
O nadador americano Mark Spitz não vencera apenas os seus adversários. Antes teve que vencer a doença e os seus próprios preconceitos.
Como um dos recordes lá registrados perdurou imbatível por mais de uma década, o atleta tentou obter novamente o índice olímpico para integrar a equipe de natação que iria a Barcelona em 1992. Nas várias tentativas, conseguiu no máximo o quarto melhor tempo das seletivas e não pôde se incorporar à equipe. Apoiado na borda da piscina, disse: "Nada se pode fazer contra o tempo".
A que tempo, porém, Mark se referiu? Aos 20 anos que separavam as duas Olimpíadas, ao tempo-limite que permitiria seu ingresso na equipe ou às diferenças técnicas do esporte em duas décadas de evolução? Creio que a todos, pois, apesar de não ser um dos três melhores nadadores americanos naquela data, certamente ele era o melhor nadador com 40 anos de todos os tempos.
[...] EM TODAS AS IDADES, ENFRENTAMOS LIMITES QUE SÃO VENCIDOS OU RESPEITADOS DE ACORDO COM AS NOSSAS CAPACIDADES
INTEGRANTES DE CPI VÃO DE GRAÇA A SHOW PAGO PELA TAM
Congressistas e autoridades ganham convites para ver Cirque du Soleil em Brasília
Juniti Saito e Gilberto Carvalho compareceram; TV Globo e Bradesco também distribuíram convites para sessões do espetáculo
Uma semana antes da votação do relatório final da CPI do Apagão Aéreo no Senado, a TAM, um dos objetos da investigação, distribuiu 400 ingressos do espetáculo "Alegría", do Cirque du Soleil, a congressistas e autoridades em Brasília, entre eles o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, o presidente da CPI, Tião Viana (PT-AC) -hoje presidente interino do Senado-, e mais quatro integrantes da comissão.Todos eles compareceram ao espetáculo, fechado pela TAM só para convidados -cerca de 1.600, entre eles clientes, jornalistas e beneficiários de entidades assistenciais. O evento ocorreu na noite de quarta-feira da semana passada.
O relatório aprovado ontem pela comissão sugere que as empresas aéreas sejam auditadas por conta da crise aérea.
Anteontem, o Cirque du Soleil apresentou o "Alegría" em sessão fechada, dessa vez bancada pela TV Globo, para funcionários, deputados, senadores e autoridades convidadas, como o ministro do STF Marco Aurélio Mello, que "bailou" com um cantora do espetáculo, e Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete de Lula.
"Recebi um convite de amigos, não levei em conta essa questão. Nunca saio do Palácio, não tomei ciência do preço do ingresso. De fato, há um código de ética, deveria ter tomado esse cuidado", disse Gilberto.
"Demos lá umas rodadas. Estranhei um pouco porque geralmente nós conduzimos a dama. E ela, talvez por ser uma atriz, procurou conduzir. Depende da platéia avaliar, mas acho que não fui tão mal", disse Marco Aurélio, que não vê inconveniente no convite.
O Bradesco também realizou três sessões fechadas para convidados, entre eles congressistas e autoridades.
Os políticos e as autoridades que foram de graça ao espetáculo e as empresas que distribuíram os ingressos disseram não ver conflito de interesse na situação. Elas não forneceram as listas dos convidados.
O grupo canadense Cirque du Soleil está em turnê pelo Brasil e estreou na capital federal em 19 de outubro. Os ingressos vão de R$ 150 a R$ 450, e as autoridades foram colocadas, geralmente, nos lugares cujos ingressos são os mais caros.
"Não vejo qualquer relação com a CPI. É vínculo zero, não houve nenhum contato com diretor", argumentou Tião Viana. "Ali dava quórum para votação no plenário", brincou Ideli Salvatti (SC), líder do PT e também membro da CPI.
A Folha confirmou que os outros três integrantes da comissão que assistiram ao espetáculo na quarta da semana passada são Romero Jucá (PMDB-RR), Sérgio Guerra (PSDB-PE) e Inácio Arruda (PC do B-CE).
Vários outros senadores também foram ao evento, como José Nery (PSOL-PA), Eduardo Suplicy (PT-SP) -que disse ter sido convidado pela "produção do evento"-, Augusto Botelho (PT-RR), Marco Maciel (DEM-PE), Heráclito Fortes (DEM-PI) e Pedro Simon (PMDB-RS). "O que a gente comentou lá é que eles poderiam melhorar um pouco o atendimento do passageiro em vez de gastar aquela montanha de dinheiro", disse Simon.
Alguns senadores convidados pela TAM disseram ter recusado. "Comprei ingresso e fui com minha família outro dia. Deu R$ 1.037. Não aceitei os convites, até porque eu estou batendo muito nisso [crise aérea]", disse Mário Couto (PSDB-PA), da CPI. Outros lamentaram não terem sido convidados. "Me deixaram de fora dessa. Queria ir, mas fui olhar o preço dos ingressos e dava R$ 1.000", disse Sibá Machado (PT-AC), também da CPI.
"Comprei ingresso para 9 de novembro. Não posso fazer prejulgamento. Você tem os camarotes de empresa no Carnaval, na festa de Parintins [AM]. Soube que a TAM convidou, que a Globo convidou, mas não aceitei porque já havia comprado", disse o senador José Agripino (DEM-RN). "Eu não, que convite o quê? Comprei ingresso e fui na sexta. Vocês da Folha me amam, hein?", reagiu Wellington Salgado (PMDB-MG), membro da CPI.
Criado em comemoração ao décimo ano do Cirque du Soleil, em 1994, o "Alegría" é o segundo espetáculo do grupo - que já havia vindo ao Brasil.
Senadores afirmam não ver "conflito de interesses"
Senadores que assistiram ao show como convidados da TAM dizem não ver conflito de interesse pelo fato de a empresa ser investigada no Congresso. Para a companhia aérea, promover sessões fechadas "é uma das propriedades de relacionamento desse patrocínio".
"A TAM informa que apóia projetos culturais e, desde o ano passado, é patrocinadora dos espetáculos do Cirque du Soleil apresentados no Brasil. Desta forma, a realização de sessões fechadas nas localidades onde o grupo faz suas apresentações é uma das propriedades de relacionamento desse patrocínio", disse, em nota. Segundo a TAM, foram 400 ingressos para autoridades, congressistas e jornalistas.
Presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), que chegou a comandar a CPI do Apagão Aéreo, disse que recebeu dois convites porque é cliente "fidelidade vermelho" -plano de milhagens da TAM.
"O convite era no dia que minha esposa podia ir, não vejo qualquer relação com a CPI, é vínculo zero, não houve nenhum contato com diretor. Poderia não ter ido naquele dia e ir hoje [ontem], que foi a Globo que deu quatro [convites]. Se fosse da Folha também iria, não vejo maldade", disse Tião.
Ideli Salvatti (PT-SC) disse que o fato de ter ido a convite "não muda nada sua posição sobre a CPI". Ela ironizou: "Ali, dava quórum para plenário".
Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que foi ao espetáculo atendendo a um chamado da organização do evento e não sabia que era da TAM. Augusto Botelho (PT-RR) disse que "só foi por insistência de Suplicy".
"Se há alguém que a TAM não deve gostar sou eu, que briguei pela Varig. Pensei que tinham comprado o ingresso, fiquei sabendo quando estava lá", disse Pedro Simon (PMDB-RS). "Não interfere em nada, não muda minhas posições, inclusive sobre os serviços prestados pela TAM", afirmou Sérgio Guerra (PSDB-PE).
Heráclito Fortes (DEM-PI) e Marco Maciel (DEM-PE) afirmaram por meio de assessoria que "não há conflito de interesses". Romero Jucá (PMDB-RR) não comentou.
O ministro Marco Aurélio Mello disse que "de forma alguma" vê empecilho ao fato de ter aceitado convite da Globo. "Havia várias autoridades e não se pode vislumbrar aí qualquer comprometimento. O dia em que um juiz for alcançado na sua honorabilidade por um convite para espetáculo circense, estará muito vulnerável, e isso será péssimo à sociedade."
O Bradesco afirmou, por meio da assessoria, que convidou clientes de varejo, "prime", "private", empresarial, "corporate", acionistas, funcionários e parceiros, e que, entre eles, havia congressistas e autoridades que não são clientes, mas em número reduzido.
A assessoria da Central Globo de Comunicação disse que o evento de anteontem foi destinado a funcionários -cada um recebeu dois convites. Mas que, como havia muitos lugares, foram convidados também "fornecedores, clientes, integrantes do mercado publicitário, parceiros em projetos sociais e autoridades". Informou ainda que foram convidados "o público com o qual a Globo tem relacionamento".
A assessoria da Aeronáutica não comentou a presença do comandante, José Nery (PSOL-PA) está no exterior e Inácio Arruda (PC do B-CE) não ligou de volta.
ESCÁRNIO, MAS DE ROTINA
O ex-governador Ronaldo Cunha Lima está sendo processado há 14 longos anos por ter atirado a sangue-frio, e em público, no seu maior adversário político na Paraíba, o também ex-governador Tarcísio Burity. A vítima sobreviveu e só veio a morrer dez anos depois, de uma doença qualquer. Cunha Lima, tucano, tem vivido tranqüilamente nesses anos todos. Disputa e vence eleições, ajudou a fazer o filho, Cássio, governador. Como se nada tivesse acontecido.
Cunha Lima foi envelhecendo, e o caso foi subindo de instância em instância. Um dia, parou no Supremo Tribunal Federal, por força do tal "foro privilegiado" pelo qual os políticos são julgados por caminhos e descaminhos muito diferentes dos comuns mortais. Então, o que fez ontem o réu? Renunciou ao mandato de deputado federal.
Com a maior cara-de-pau, alegou, 14 anos depois, que quer ser julgado como "um igual que sempre fui". Na verdade, com a renúncia à Câmara, toda a tramitação faz meia-volta e recomeça na Justiça comum da Paraíba. Mais quantos anos?
Relator do processo no Supremo, Joaquim Barbosa (que acolheu a denúncia do mensalão) considerou tudo isso um "escárnio" e classificou o foro privilegiado como "perverso". "Este homem manobrou e usou de todas as chicanas, por 14 anos, para fugir do julgamento", disse, indignado.
O ministro, porém, deveria usar o plural: "Estes homens...". Exemplos não faltam. Precisa citar? E o foro privilegiado é só um aspecto do escândalo, em que o mais grave são a impunidade e o sistema jurídico falido, que não é cego, surdo e mudo.
Joga milhões de pobres na cadeia por nada, mas livra ricos e poderosos apesar de tudo. Tente você dar uns tiros a queima-roupa em alguém. Se você é pobre, está liqüidado. Se é da classe média, tem alguma chance. Se é rico e poderoso, não se apoquente. A Justiça livra sua cara.
