16 agosto 2007

UMA QUESTÃO DE CONCEITO

Wilson Jacob Filho

O tema envelhecimento vem determinando atenção e interesse progressivos, a ponto de ser incluído em muitos eventos científicos e sociais. Tenho percebido progressivo interesse na discussão, por parte dos participantes, de questões mais fundamentadas, diretamente relacionadas à condição do idoso na sociedade e às suas diversas formas de participação ou de exclusão. Recentemente, após uma apresentação sobre os caminhos que permitem maior possibilidade de envelhecer com saúde, uma jovem participante me perguntou como diminuir os preconceitos contra o idoso.
A escassez de tempo, devido ao grande número de inscritos para participar do debate, permitia apenas respostas rápidas. Respondi que, em minha opinião, o conceito sobre o envelhecimento vai se aprimorar quando a maior parte da população estiver convicta de que, na melhor das hipóteses, todos vamos envelhecer. Essa condição de ver o outro como aquele que um dia eu fui ou que em algum momento eu serei permite muito maior identidade e aproxima as condições temporárias de cada um.
Os preconceitos decorrem, fundamentalmente, de um suposto distanciamento atemporal entre as partes. No caso do envelhecimento, elas são elos de uma mesma corrente, e a tentativa de discriminar uma à outra é a melhor maneira de reduzir a sua própria condição de continuidade e resistência. Se essa argumentação parece óbvia, por que permanece tão restrita ao pensar de poucos?
Não é difícil entender. É ainda interessante, para muitos, dividir o ciclo da vida em diversos segmentos, propondo a falsa impressão de que alguns deles possam ser perpetuados e outros, suprimidos. Chegam ao desatino de criar "associações antienvelhecimento" ou de proferir palestras sobre "como ser eternamente jovem". O falso fundamento desses conteúdos é que, para ter um envelhecimento saudável, seja necessário perpetuar a juventude. Isso é uma inverdade que não pode ser aceita à luz do conhecimento atual.
Os inúmeros idosos ativos que conhecemos não são, como muitos argumentam, "produtivos como jovens". São, em verdade, idosos produtivos. Aí reside a verdadeira questão do conceito. Admitir que um idoso ativo é aquele que "produz como um jovem" é uma forma preconceituosa de negar o envelhecimento como uma fase produtiva da vida. O mesmo se aplica a inúmeras outras condições, como a beleza ou a inteligência.
Entendo, obviamente, que as atuais regras de mercado e de divulgação de produtos ainda demorem a se modificar, mas esse tempo será cada vez menor quanto mais conscientes estivermos do que queremos para o nosso futuro. Ninguém, para ser considerado belo, inteligente ou produtivo, precisa ser condenado à juventude eterna. Estou convicto de que, em breve, os idosos poderão ser reconhecidos publicamente como idosos, sem que as suas qualidades sejam desmerecidas. Apenas com conceitos bem fundamentados sobre o envelhecimento saudável conseguiremos reduzir os preconceitos atuais contra o idoso.

ANTIDEPRESSIVOS, ASPIRINAS E URUBUS

CONTARDO CALLIGARIS

Os antidepressivos são uma espécie de aspirina psíquica, capaz de aliviar qualquer tristeza?


A febre se manifesta numa longa lista de moléstias: gripe, infecções bacterianas, insolação e por aí vai. Em todos esses casos, a aspirina combate a febre, mas não cura a enfermidade em que ela se manifesta. Para isso, cada enfermidade tem remédios próprios (quando tem): antibióticos, sulfamídicos, cortisona etc.
Pergunta: segundo a psiquiatria, os antidepressivos atuais são um remédio específico para uma moléstia chamada "depressão"? Ou são uma espécie de aspirina psíquica, capaz de aliviar a tristeza e a morosidade que se manifestam numa variedade de situações de vida e de quadros clínicos? Ou será que podem ser as duas coisas?
Pois bem, graças a um amigo, Célio G. Marques de Godoy, que me indicou o artigo, li uma pesquisa publicada recentemente no "New England Journal of Medicine" (2007, vol. 356, 17). A pesquisa testa a "eficácia do tratamento auxiliar com antidepressivos na depressão de pacientes bipolares". Uma explicação: na clínica psiquiátrica, os transtornos bipolares são um quadro bem distinto da depressão. Neles, o sujeito alterna fases depressivas com fases de euforia maníaca; as fases depressivas são mais longas do que as maníacas, mas a alternância é crucial para o diagnóstico. Em suma, um bipolar em fase depressiva se parece com um deprimido, mas isso não significa que ele sofra da mesma "moléstia".
Na pesquisa, trata-se de saber se, num quadro diferente da depressão, os antidepressivos podem funcionar ou não como uma aspirina que aliviaria qualquer tristeza. A resposta, no caso dos transtornos bipolares, é negativa: os antidepressivos não funcionam como a aspirina com a febre. No entanto, eis o conselho paradoxal dos pesquisadores: se um paciente bipolar já estiver tomando antidepressivos, melhor que continue, embora a pesquisa mostre que eles não parecem aliviar sua fase depressiva. Por que a recomendação?
Pois é, literalmente, porque NUNCA SE SABE. Essa incerteza faz a felicidade dos urubus, que faturam com o uso dos antidepressivos como se fossem aspirina. Mas ela é também o retrato fiel do estado de nossa clínica e de nossa ciência. Vamos lá:
1) Os antidepressivos atuais foram descobertos quando alguém administrou um derivado da hydrazina a pacientes tuberculosos. O efeito inesperado (e único) foi que eles ficaram mais alegres.
2) Mais tarde, descobriu-se que a mesma substância aumentava (pouco importa como) a quantidade de um neurotransmissor no cérebro (a serotonina).
3) Supondo que essa alteração fosse responsável pelo bom humor dos pacientes tuberculosos, decidiu-se experimentar o uso de substâncias análogas em pacientes deprimidos.
4) Para isso, foi necessário construir um padrão de comportamentos e afetos que identificassem os deprimidos; nasceu assim "a depressão". De fato, entre 30 e 40% dos sujeitos que correspondem a esse padrão se beneficiam com o uso dessas substâncias.
5) Por que não todos? a) A definição padrão da depressão é comportamental, afetiva e discursiva, não química, pois é difícil verificar o nível de serotonina no cérebro das pessoas; b) portanto, é possível que muitas depressões sejam conformes ao padrão comportamental e afetivo estabelecido, mas que se expressem por alterações químicas diferentes da insuficiência de serotonina; c) conclusão: reagiriam positivamente a antidepressivos só aqueles deprimidos que expressam quimicamente sua depressão pela diminuição da serotonina no cérebro. Como identificá-los? Só experimentando.
6) Assim como haveria depressões que não se expressam pela insuficiência da serotonina, é também possível que haja, fora da depressão, tristezas e morosidades que se expressem por uma falta de serotonina. Nesses casos, os antidepressivos ajudariam. Como identificá-los? Só experimentando.
Em suma, o uso dos antidepressivos é empírico. Compara-se à administração de antibióticos específicos diante de um quadro no qual nenhuma cultura bacteriana pudesse nos dizer se o paciente é infectado ou não pela bactéria que o antibiótico está atacando.
É uma razão para condenar os antidepressivos? Não. Mas é bom saber que nossa ciência e nossa clínica os administram balbuciando.

CONTRIBUIÇÃO PARA DESMORALIZAÇÕES


JANIO DE FREITAS


Retiraram da CPMF a exclusividade de beneficiar a Saúde e ela passou a servir até mesmo para pagar juros

A CPMF, esse imposto sem caráter até para se reconhecer como imposto, mais uma vez comprova que tem a sina de desnudar baixezas típicas da política brasileira, como se assim quisesse compensar a extorsão praticada a cada simples movimentação financeira nas contas de cidadãos e empresas.
Proposta como contribuição provisória dos mais favorecidos, no conjunto de medidas com que o médico Adib Jatene tirava do estado de calamidade o Ministério da Saúde, encontrou sua pior dificuldade, em vez do apoio lógico, na resistência que lhe opuseram o então presidente Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan. Acusavam-na de sobrecarregar, mesmo com vigência limitada a um ou dois anos, a carga de taxações que diziam ser já excessiva.
Assim como ia vencendo outras dificuldades, Adib Jatene venceu a batalha da contribuição. E por isso perdeu o ministério. O aplauso empolgado da opinião pública ao seu trabalho sugeria estar ali um forte candidato à Presidência. Logo, em contraste com a pretensão exposta de público pelo orientador do PSDB, Sérgio Motta ("Nosso projeto é para 20 anos no governo"), e com a idéia, ainda irrevelada, de reeleição.
A CPMF iniciara suas demonstrações: a reforma da Saúde no país foi substituída pela conveniência grupal de eliminar um possível concorrente bem apoiado para a Presidência. Jatene foi substituído por um médico-socialite do Rio Grande do Sul, cuja inabilitação para o cargo foi reconhecida até pelo próprio. Carlos Albuquerque, portanto, era politicamente a figura ideal para a Saúde no projeto de 20 anos atucanados.
Extinto o risco de fortalecer Adib Jatene, Fernando Henrique e Pedro Malan aderiram à CPMF, agravaram-na contra os cidadãos e as empresas, e retiraram a exclusividade de sua destinação em benefício da Saúde. A CPMF passou a servir até para pagar juros, ou seja, transferir dinheiro público para cofres privados. Ficara tão flexível quanto as convicções de Fernando Henrique e Pedro Malan. E mais determinada nas suas demonstrações morais e outras.
Lula e o Partido, àquela época, dos Trabalhadores fizeram oposição política muito firme à CPMF transformada em imposto mal disfarçado. Afinal instalado Lula no poder, a CPMF não se intimidou, no que lhe cabia: ao receber dele adesão entusiástica, deu colaboração importante às revelações de quem era o novo presidente. Sem chegar ao poder, por mais que fingisse fazê-lo, nem por isso o PT escapou à determinação da CPMF: adotou-a sem o menor dos rubores que indicam algum pudor.
Agora, também oferecido pela CPMF, aí está o resultado da preferência de Lula pelo método de compra de deputados, com verbas e cargos, em vez de constituir sua base parlamentar por cooptação política e programática. Só a primeira instância para a prorrogação da CPMF, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, já fez Lula curvar-se a uma chantagem ostensiva e humilhante. Entregou Furnas, e com ela o riquíssimo fundo de Previdência da empresa, a um grupo do PMDB que está sob cerco da Justiça, por seus feitos na estatal fluminense de água/esgoto e seu fundo.
O método da compra tem fôlego para desprezar seus inconvenientes morais, mas sucumbe ao inconveniente prático: o preço sobe sempre, e o comprador fica refém dos comprados. Como o vigarista que caía no conto-do-vigário.
A CPMF mostra mais de Lula e do ex-PT. E não pára no ponto atual, porque o trâmite da prorrogação desejada pelo governo ainda tem caminho e obstáculos pela frente.

ACORDO

O senador Renan Calheiros(PMDB-AL) prepara sua "saída honrosa".
Juntamente com o Palácio do Planalto negocia sua absolvição pelo plenário em troca da presidência do Senado, a qual o senador renunciaria.
Assim, o senador poderá ir a reeleição em 2010 e o Palácio do Planalto emplacará um outro aliado na presidência do Senado.
Um dos nomes mais cotados para assumir o Senado é o da senadora Roseana Sarney (PMDB-MA).

30 DIAS PARA TRAIR

Editorial da Folha de S. Paulo

Com "fidelidade" que prevê um mês por biênio para trocas de partido à vontade, deputados caçoam dos cidadãos

Os deputados federais brasileiros acabam de deixar mais uma marca na história universal do despautério político. Não é todo dia que se consegue produzir algo como a janela bianual de 30 dias franqueando o troca-troca partidário.
A invenção brotou na noite de anteontem, na votação de um projeto de lei complementar de autoria de Luciano Castro (PR-RR). Na sua origem, o texto tornava inelegíveis por quatro anos, contados a partir da diplomação, políticos que trocassem de legenda no decurso do mandato.
Até aí, tudo ótimo. Tratava-se de versão de um mecanismo inteligente - similar ao que o Senado aprovara havia seis anos- para induzir à fidelidade partidária sem, no entanto, lançar mão de medidas drásticas como a cassação do mandato. Mas, na passagem pela Comissão de Constituição e Justiça, a proposta foi corrompida e transformada num dispositivo patético.
No projeto aprovado com o voto de 292 parlamentares, a fidelidade partidária vigora por 23 meses em cada período de dois anos. Ao longo desse tempo, o político que mudar de sigla não só fica inelegível por quatro anos como pode ter o mandato cassado, mediante ação de seu partido de origem na Justiça Eleitoral.
Os deputados, contudo, ofereceram um período de graça a si mesmos. A fidelidade fica suspensa em todo setembro que preceder um ano eleitoral: quem trocar de legenda enquanto essa janela estiver aberta não poderá ser punido. O espírito dos festejos carnavalescos, quando a ordem vigente é suspensa temporariamente, invadirá a política nacional nesses 30 dias caso o Senado e o presidente da República cometam a sandice de confirmar o projeto da Câmara.
A titularidade do mandato, que era do partido, volta a ser de pleno gozo do político nesse breve período, para logo depois retornar à agremiação. A absoluta incoerência da medida revela o grau de cinismo a que pode chegar a maioria dos deputados na tentativa de preservar seus interesses mesquinhos. Afirmar que alguma fidelidade partidária foi instalada com o projeto é ofender a inteligência dos eleitores.
Se a janela para trair tornar-se lei, a vontade das urnas continuará a ser desrespeitada a troco de negociatas, emendas, cargos e migalhas de poder - exatamente como acontece hoje. A única diferença é que os movimentos ficarão concentrados no tempo e tomarão a forma de manadas anunciando a primavera.
A Câmara produziu um monstro legislativo na tentativa de ludibriar a opinião pública - e de fazer passar uma "anistia prévia" ao troca-troca de legendas após a manifestação do TSE de que considera o partido, e não o político, o titular do mandato. Vai-se confirmando, para a infelicidade e o atraso da nação, o prognóstico de que os atuais legisladores serão incapazes de conduzir uma reforma política que atenda aos anseios da sociedade.

DEPUTADOS MAIS FALTOSOS

Dos dez parlamentares mais faltosos no Congresso Nacional, dois são paranaenses.
O deputado federal Odílio Balbinotti (PMDB) ocupa o 5º lugar com 18 faltas.
Ratinho Júnior (PSC) está em 8º, com 15 faltas.
Odílio Balbinotti quase foi ministro da Agricultura. Já Ratinho, quer ser prefeito de Curitiba.

15 agosto 2007

Três Maracanãs

Editorial da Folha de S. Paulo

Só pressão da sociedade fará a Câmara enterrar projetos que criam trem da alegria com 260 mil poltronas para servidores

A CÂMARA dos Deputados se articula para dar mais um bote na sociedade. Ela está preparando um dos maiores trens da alegria de que se tem notícia, que poderá beneficiar mais de 260 mil servidores.
Como num passe de mágica, esse exército de funcionários, equivalente à população da cidade de Foz do Iguaçu ou a quase três estádios do Maracanã lotados, ganharia estabilidade ou seria efetivado sem a necessidade de prestar concurso público.
A esparrela é uma obra coletiva que tomou a forma de duas propostas de emenda constitucional (PECs). A primeira, nº 54/1999, originalmente apresentada pelo então deputado Celso Giglio (ex-PTB-SP, hoje no PSDB), dá estabilidade a cerca de 60 mil servidores contratados sem concurso entre 5 de outubro de 1983 e 5 de outubro de 1988, quando a Constituição estabeleceu que o ingresso no serviço público dependeria de aprovação em exames específicos.
Provavelmente por considerar 60 mil pouco, alguns deputados apuseram emendas à PEC que ampliam o número de favorecidos. A mais contundente delas determina a efetivação de funcionários hoje contratados para serviços temporários nos Estados, municípios e na União. É difícil precisar quantos seriam beneficiados pela medida, mas técnicos da Câmara estimam que eles sejam, só em âmbito federal, algo como 200 mil almas.
A segunda PEC, nº 2/2003, de autoria de Gonzaga Patriota (PSB-PE), escancara as portas para um outro tipo de farra no funcionalismo, ao criar atalhos para os mais cobiçados postos da administração. Basta que o candidato à prebenda seja aprovado num concurso público para qualquer cargo de qualquer prefeitura do interior de qualquer Estado e seja requisitado por um deputado para trabalhar na Câmara, por exemplo. Se a PEC 2 for aprovada, ele poderá optar por efetivar-se como funcionário do Legislativo federal e não no cargo para o qual foi aprovado.
Evidentemente, são numerosos os casos de deputados que levam para seus gabinetes, a título de requisitados, parentes e amigos que prestaram concurso nos seus municípios de origem.
É um acinte que, num momento em que se fala na necessidade premente de melhorar os quadros da administração pública e cortar privilégios injustificáveis, parlamentares venham propor bandalheira desse calibre.
É preciso que a sociedade mantenha sob forte pressão os deputados, única maneira de assegurar que as PECs sejam enterradas. Um trem da alegria com no mínimo 260 mil poltronas é só o que falta para dinamitar a combalida imagem do Congresso.

A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO


MELCHIADES FILHO


A opção petista pelo papel de vítima deve ser compreendida como uma tática política de transição, e não apenas como manobra diversionista para blindar Lula, como querem uns, ou tentativa legítima de reparar injustiças, como defendem outros.
Muitos observaram que a derrota em novembro deixou PSDB e Democratas perdidos, desconectados do eleitor. Mas a situação do partido do presidente não é diferente.
Faz tempo que o PT não fala em nome dos chamados movimentos sociais. O embate com esses aliados históricos gerou desencantos no primeiro mandato. A antecipação do xadrez de 2010 tende a impedir a reconciliação no segundo.
O funcionalismo caiu no colo de quem cobra aumentos com mais veemência. A igreja alçou vôo solo. O MST, depois de tanto estica-e-puxa, roeu a corda. Setores da OAB tucanaram. A UNE pede distância. A CUT vai perder um pedaço.
O espaço institucional aberto pela conquista da Presidência tampouco dá projeção e propósito ao PT. O loteamento desenfreado de cargos saiu pela culatra. Todo problema cai na conta petista. Sem novos quadros a oferecer, o partido vê o Planalto buscar gestores em outras bandas. E lá vem o Jobim... Até o onguismo virou de coalizão.
Restou o esperneio. Com o traquejo dos anos de oposição, o PT vai à imprensa acusar... "a imprensa e a elite branca que ela representa".
Esse Fla-Flu midiático, esse "nós contra eles", tem sido bem-sucedido. Aos poucos, reaglutina a militância amuada pelo mensalão -e, indiretamente, amplia a sobrevida de Berzoini e o sonho de Zé Dirceu.
É difícil não reagir ao "relaxa e goza", ao "top, top, top", ao enésimo "eu não sabia". É fácil se deixar levar e estender essa indignação contra tudo o que Lula faça ou fale.
Mas a estridência da crítica e, sobretudo, o esforço de atrelar toda crise do país à pessoa do presidente têm um efeito colateral. Essa mão que apedreja ajuda o PT a atravessar a rua.

14 agosto 2007

FHC E O SABIÁ


Folha de S. Paulo


PSDB busca fórmula para melhorar a comunicação

Partido conclui que divulga mal "realizações tucanas"

Reunida ontem num seminário em Belo Horizonte, a cúpula nacional do PSDB concluiu que o partido se comunica muito mal com a população. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a propor que o partido precisa mudar o bico do tucano, símbolo da legenda, pelo do sabiá. Motivo: cantar as realizações tucanas e, com isso, reconquistar o apoio da sociedade e voltar à Presidência.
Coube ao ex-presidente FHC fazer o discurso final e dar o tom do que o partido considera chave para recuperar o Planalto: insistir na tecla de que o governo petista falha na gestão e que os tucanos são mais capazes nessa área, mas não conseguem divulgar suas realizações.
"Vou fazer uma proposta um pouco estranha. Estava olhando o nosso tucano. Vamos mudar o bico dele e botar um de sabiá, porque o que nós precisamos é cantar os nossos feitos", disse, arrancando aplausos.
Esse foi um enfoque de um seminário que teve como tema "Um novo modelo de gestão para o Brasil", o segundo de uma série que os tucanos vão realizar para promover uma mudança no programa do partido.
Durante a última campanha presidencial, FHC criticou internamente no partido o fato de o então candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, não ter defendido realizações de seu governo, como a privatização do sistema Telebrás.
Em sua avaliação, os tucanos precisam defender "com vigor" seus projetos, como a estabilidade da economia, que na visão da sociedade seria hoje uma conquista dos petistas: "Nós contamos pouco o que fizemos. A estabilidade foi feita pelo PSDB, com a oposição do PT".
FHC disse que "a economia vai bem, mas o governo vai mal". Nesse ponto ele arrancou novamente aplausos ao dizer que "nós temos de mostrar a nossa cara, porque nós somos capazes de fazer e somos melhores que os outros".
Prosseguiu dando estocadas em Lula, sem citá-lo: "Somos melhores, e não importa que digam que somos arrogantes, porque não somos. Arrogantes é quem não sabe nada de nada e diariamente nos empurra mentira, fingindo que fazendo coisa que não está fazendo".

A ÚLTIMA DO CONTRAN

MARIA INÊS DOLCI

Sábios do Contran reuniram-se, e saiu a fumaça branca: o problema do trânsito é o roubo de veículos. Não é.

Tem gente que não aprende, diz a sabedoria popular, sobre aquelas pessoas que gostam de repetir, sempre, os mesmo erros. E que não ousam cometer novos erros, como preconizava Winston Churchill, que comandou a Inglaterra à vitória na Segunda Guerra.
Ora, o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) obrigou, em 1997, que cada veículo tivesse um estojo de primeiros socorros. Quase dois anos depois, essa lei foi revogada. Milhões de brasileiros ficaram com um estojo branco e pouco útil em casa, porque os ferimentos provocados por acidentes de trânsito costumam ser sérios -e demandam bem mais do que gaze e esparadrapo.
Aprenderam com a revolta que isso provocou, até a revogação da lei? Não.
Agora, dez anos depois, uma nova pérola surge na concha do Contran. Uma pérola estranha, digamos. Uma resolução do conselho obriga os fabricantes de automóveis a instalar um dispositivo contra roubo, que permite o rastreamento do veículo. Em 2009, nenhum carro, moto, ônibus ou caminhão poderá sair de fábrica sem esse item instalado.
Que bom, não, o consumidor terá mais facilidade para recuperar seu veículo sem custo? Aí está a maldade embutida na resolução. Não só o consumidor pagará mais caro por um acessório que não pediu, que não escolheu, como terá que pagar o serviço de rastreamento. Uma maravilha para quem fabrica o equipamento, para quem presta serviços de rastreamento e para as seguradoras, pois deve reduzir o índice de veículos roubados e não recuperados.
O consumidor ganhou um top-top, algo que já se tornou uma prática nos últimos anos. O interessante é que isso foi feito assim, sem uma grande consulta popular. Sábios do Contran reuniram-se, e saiu a fumaça branca: o problema do trânsito no Brasil é o roubo de veículos. Não é.
Nosso problema número um, todos sabem, é a carnificina das ruas e estradas esburacadas, que ceifa milhares de vidas todos os anos. Um triste campeonato em que a medalha ninguém gostaria de receber. Isso decorre da conjugação de falta de educação e responsabilidade dos motoristas, que não respeitam sinalização, limites de velocidade e tampouco a vida (a sua e a dos outros).
Além disso, os veículos só contêm itens como airbag e freios ABS nos pacotes de opcionais mais caros. Em que se é obrigado a adquirir, junto com os itens de segurança, por exemplo, espelho elétrico, rodas de liga leve e CD player.
Fica claro, evidente, que o Contran se preocupou mais com os fabricantes do equipamento rastreador, com as empresas que oferecem esse serviço e com as seguradoras do que com motoristas e passageiros.
É lamentável que isso aconteça nas nossas fuças. Preocupa tamanha despreocupação com o que é mais fundamental no trânsito. Realmente, o Contran merece o troféu Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) de eficiência. Ou melhor, medalha. Estamos na temporada das medalhas.

ARITMÉTICA DA IMPUNIDADE

ELIANE CANTANHÊDE

Até que eu me esforço para cultivar meu lado Poliana, para ver o lado positivo das coisas, acreditar que hoje é melhor do que ontem e que amanhã será melhor do que hoje. Mas está ficando cada vez mais difícil. Assim não dá.
Levantamento publicado na última edição da revista "Veja" sobre os resultados de dez operações realizadas pela Polícia Federal entre 2003 e 2004 mostra que o festival não deu em nada. De 245 presos, só 64 foram julgados e só dois continuam onde a maioria deveria estar: na cadeia. Ou seja: 245 passaram para 64 e viraram dois.
As operações eram fantásticas, e os nomes, criativos e instigantes: Anaconda, Gafanhoto, Vampiro, Pororoca, Sentinela. Repórteres e fotógrafos deliravam com o espetáculo. As pessoas em casa pensavam: "Agora, vai!" Foi?
Há uma espécie de complô para o sistema não funcionar. A polícia investiga e prende, mas a Justiça não é para fazer justiça. É toda montada e operada para fazer teatro e legitimar uma rede e uma realidade em que bandidinho vagabundo e até inocentes acabem atrás das grades e bandido de grande calibre e contas milionárias continue por aí, livre, leve e solto.
Quando tem o título de "político", então, nem se fala. As polícias do Brasil, dos EUA, da Suíça, das ilhas isso e aquilo podem providenciar montanhas de provas e documentos, mas o que prevalece são os privilégios. Há excesso de habeas corpus, apelações, prescrições.
Os advogados são pagos a peso de ouro, não para defender, mas para empurrar com a barriga. Pedem incontáveis revisões e contam os anos, os meses e as horas para o crime prescrever. Enquanto isso, o ilustre cliente desfila pelas colunas sociais, senta em plenários e vai a tribunas fazer discursos incríveis como "representante do povo".
Então fica difícil torcer, acreditar. Como não ver, não ouvir, não falar? Como não escrever?

O TANGO AGORA É NOSSO

CLÓVIS ROSSI

Não pode ser mera coincidência o fato de dois intelectuais de origens totalmente diferentes, João Moreira Salles e Roberto Schwarz, convergirem para uma análise desesperançada do Brasil, ambos nesta Folha.
No sábado, dizia Schwarz, austríaco, pertinho dos 70 anos, brasileiríssimo, marxista: "O que desapareceu foi a perspectiva do progresso orientado e acelerado, fruto do conflito e da consciência coletiva, que tornasse o Brasil decente em tempos de nossa vida".
Ontem, ecoava Moreira Salles, sobrenome tradicionalíssimo, 45 anos, sem um rótulo ideológico a reivindicar: "As nossas ambições se tornaram mais medíocres".
Pode até ser que se trate de percepções isoladas, vinda do segmento da intelectualidade que não renunciou a pensar.
Suspeito, no entanto, que seja um estado de espírito mais disseminado. Cruzo com ele sempre que encontro brasileiros que emigraram porque suas ambições não são tão medíocres. Cruzo com ele também virtualmente, por meio de correspondência eletrônica de brasileiros que, como Schwarz, descrêem da possibilidade de viver em um país decente e já foram atrás de suas ambições em outras terras ou se preparam para fazê-lo.
É gente muito diferente entre si, desde economista de banco instalado em Londres até garçom de churrascaria rodízio de Lisboa. Começam a se parecer com argentinos. Nunca esqueci um jantar em Madri com Newton Carlos, um dos mais notáveis analistas internacionais do jornalismo brasileiro, e dois amigos argentinos exilados da ditadura (era 1977). Falavam da Argentina como um país abatido por uma maldição divina da qual jamais se recuperaria.
O brasileiro leva a vantagem de ainda achar-se cupincha de Deus, mas já começa a intuir que a maldição é coisa nossa, feita pelo homem, pelo homem brasileiro.

MÁQUINA SEM GESTÃO

Editorial da Folha de S. Paulo

Carreiras de Estado melhoram rendimentos, o que é positivo, mas burocracia é ineficiente e avessa à modernização

Emdez carreiras do Executivo federal, o aumento real dos vencimentos no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva variou de 15% a 80%, segundo levantamento da Folha. Como são carreiras de nível superior, quase todas exclusivas do Estado (delegados, procuradores, diplomatas etc.), faz sentido uma melhora na remuneração, condizente com as funções desempenhadas.
Trata-se de uma maneira de disputar bons profissionais e evitar a cooptação por grupos privados. O maior problema, contudo, não está na elite, mas nos setores de média e baixa qualificação do serviço público, cuja remuneração tende a ser mais alta do que seus similares na iniciativa privada.
Pior: a folha de salários relativamente elevada do funcionalismo federal - a despesa pode ultrapassar 5% do PIB neste ano - contrasta com a má qualidade do serviço prestado à população. O Estado brasileiro é carente de mecanismos de gestão destinados a incentivar o aumento da produtividade dos servidores.
Concepções arcaicas resistem a idéias óbvias como a remuneração de acordo com o desempenho. Ainda fazem parte de experimentos vanguardistas na administração pública brasileira os contratos de gestão, por meio dos quais se estabelecem parâmetros objetivos para medir a execução das tarefas. O órgão que se destaca nesse saudável campeonato recebe um bônus.
Outro foco de resistência à modernização é a batalha contra a gestão de setores da administração por meio de fundações. Bem fiscalizado, esse modelo tem se mostrado mais eficiente do que o tradicional - que acaba protegendo mais os servidores, com estabilidade, aposentadoria integral e outras vantagens- do que os usuários do serviço.
Não há razão para que o Estado dê tratamento especial a carreiras - como a de médico, enfermeiro, professor etc. - que não são exclusivas do setor público. Os hospitais públicos, por exemplo, devem ser capazes de pagar remunerações competitivas no mercado de trabalho, mas também precisam ter à mão instrumentos para cobrar desempenho profissional análogos aos das empresas privadas.
Tímido nos projetos para modernizar a administração pública, o governo Lula mostra-se à vontade para lotear politicamente a máquina federal.
O Estado brasileiro entrou em franca deterioração financeira e operacional com a crise da dívida externa do início dos anos 1980. Deglutir esse imenso passivo custou muito - em tempo e recursos - ao país. A inflação foi debelada a partir de 1994; o descompasso fiscal foi equacionado a partir de 1999; e o desarranjo nas contas externas pôde ser corrigido a partir de 2003. O ambiente se tornou favorável à entrada do Brasil numa nova fase de seu desenvolvimento.
A transformação dessa expectativa em realidade, porém, requer um Estado com capacidade gerencial, que modernize a administração dos seus serviços, corte despesas correntes, amplie gastos em infra-estrutura e diminua o fardo dos impostos sobre a sociedade.

13 agosto 2007

SOBRE O PAPEL DO PAI

Lya Luft

"Nunca, neste mundo tumultuado, perigoso e tão fascinante, o pai foi tão importante. Não importa se é pai separado, pai solteiro, pai sem grana, pai sem graça ou pai que a mãe procura diminuir"

Deixei de lado o artigo em que ia retomar temas por demais recorrentes que me entristecem, como os mortos das duas tragédias aéreas recentes. Tragédias que eram esperadas, como a indignação que desencadearam, porque o caos aéreo vinha sendo denunciado havia tempos. Até nosso presidente, em 2002, ainda candidato, publicou um veemente artigo sobre "a morte anunciada da aviação brasileira", exigindo providências. Mas até dias atrás nada tinha sido feito ainda.

Vou tentar – sou má cumpridora de meus propósitos – focar a atenção nos meus temas queridos, vida e morte, relacionamentos humanos, o mistério de tudo e o sentido de algumas coisas. (Antes, desejo boa sorte ao novo ministro, o que não diz bobagens a cada duas frases, o que tem autoridade, energia e boa vontade, e talvez consiga começar a botar nos trilhos o que anda à deriva por aqui. Porque a gente precisa não só de uma tábua de salvação, mas de uma ilha inteira, um continente.)

Falarei do assunto mais óbvio, nesta véspera de Dia dos Pais: este não precisa ser um tema sentimentalóide ou artificial. Pode ser provocador, mexer com nossos sentimentos, com nossa culpa e desculpas... e por isso escrevo. Estive recentemente num aeroporto esperando uma pessoa. Junto a mim, uma jovem mãe com sua filhinha de uns 4 ou 5 anos. De repente, desembarcou um grupo, vindo pela sala da esteira, e a menina correu para o vidro que a separava de onde devia estar seu pai. Ficou atenta, olho arregalado. Então a mãe disse alto e claro apontando para alguém: "Olha ali, o boca-aberta do seu pai!". Meu coração bateu em falso. Que representação da figura paterna aquela moça passava para a criança, talvez sem se dar conta, por ignorante, ou de propósito, por magoada? Doeu-me ainda mais quando vi um rapaz de cara iluminada vir ao encontro delas, pegando nos braços, cheio de ternura, a filhinha que esperneava de alegria.

É duro o papel do homem na família. E não me critiquem – ou me critiquem à vontade – as mães metidas a mártires, que por interesse ou covardia ficam ao lado de um homem a quem desprezam, que querem cooptar os filhos por frustradas e alijar emocionalmente o pai, mostrando-o como mero provedor. Afinal, a gente precisa dele. Sempre me impressionou a solidão dos homens, medida também da solidão de suas mulheres, que têm uma poderosa ponte afetiva para filhos, famílias, amigas ou vizinhas, algo que o marido raramente tem.

Lembrei-me, naquele dia e muitas vezes, da importância da figura paterna – portanto, masculina – em minha vida. Quando eu era criança, o carro de meu pai entrando pelo portão, seu passo no corredor, o cheiro de sua água-de-colônia, sua máquina de escrever batucando noite adentro na biblioteca do outro lado da parede do meu quarto, tudo isso era mais que metade da minha segurança e felicidade. Seu jeito de falar comigo, nunca como se eu fosse uma criança boba, mas uma pessoa, suas respostas às minhas eternas curiosidades, seu acolhimento, sua paciência, até sua brabeza. Sua preocupação comigo, sua severidade em questões de vida escolar (em que eu era apenas sofrível), seus elogios e seu interesse, tudo me marcou tanto que ainda hoje, tantas décadas depois, me pego pensando: o que será que ele diria disso? O que me aconselharia? Que palavras escolheria para me confortar, animar ou até censurar?

O personagem positivo, amoroso, do pai que cuidava sem podar, atendia sem cobrar, acompanhava sem aprisionar, e me fazia sentir uma princesa mesmo que estivesse atrapalhada, é fundamental para minha relação com o mundo, sobretudo com o masculino. Não conheci o homem arrogante e bruto, egoísta, tirano, infantilóide ou metido a garotão, de que tantas mulheres se queixam, como pai ou companheiro, e por isso lhe agradeço ainda hoje. Conheci o masculino confiável – não perfeito, porque apenas humano, mas presente e bom. Por isso, possivelmente, não cresci desconfiada dos homens, nem agressiva, nem irônica. Não por virtude minha, mas pela beleza e bondade daquela presença primeira.

Nunca, neste mundo tumultuado, perigoso e tão fascinante, o pai foi tão importante. Não importa se é pai separado, pai solteiro, pai sem grana, pai sem graça, pai sem muito jeito, pai que a mãe procura diminuir, ou pai amado e feliz. O amigo, o orientador, que dá apoio, que confia, que indica os caminhos (e nos ama mesmo se não seguimos por eles), é um bem inefável. Todo pai devia se orgulhar e se comover por ter esse papel. Com defeitos e dificuldades, como todo mundo, sendo apenas um pobre ser humano como todos nós, o pai tem de ser glorificado, procurado, amado, aplaudido, pelo menos no dia a ele dedicado. E, se puder ser, de um jeito ou de outro, todos os dias, é o que a gente – mulheres, homens, filhos e filhas – merece e devia tentar.


*

Que Deus nos ajude a sermos cada dia pais melhores.

OS DIREITOS DO HOMEM

DANUZA LEÃO

Evite sofrer; ao menor sinal de que vai começar a tortura, pense em primeiríssimo lugar no que você quer

Todos temos diariamente, sempre, um monte de compromissos, sejam eles de um trabalho que se ficou de entregar até o final da semana, ao médico marcado, à ginástica. Tirando alguns deles, é preciso aprender, desde cedo, que não somos obrigados a quase nada, e até o filme que tanto queremos ver pode esperar até chegar no clube de vídeo ou passar na TV. Afinal, somos escravos de uma agenda ou pessoas livres?
É difícil ter consciência disso. Até os compromissos que assumimos com nós mesmos são dificílimos de serem cancelados, pois afinal -como aprendemos- compromisso é compromisso.
Exemplo: você se programou para viajar no fim do ano e sair fora do estresse das festas, de ouvir e ter que dizer Feliz Natal 500 vezes, para ficar só numa praia deserta olhando o mar e comendo peixe frito. Tudo bem, é seu direito. Mas lá pelo fim de novembro vai dando uma agonia; e se chover? E se o lugar indicado não for tão sensacional quanto dizem? E se cair em depressão? E o medo de se sentir tão só, mas tão só, que corre o risco de cair em prantos no ombro do primeiro desconhecido que aparecer? Começa a se sentir mal, mas a última coisa que passa pela sua cabeça é mudar os planos e cancelar a viagem, já que assumiu o compromisso de ir. Já pensou que bastaria um telefonema, um só, para resolver o problema?
Outra situação clássica é estar no melhor lugar do mundo, comendo as coisas mais deliciosas, comprando o que queria, e dar uma vontade louca de voltar antes da data prevista; e a coragem? Agora me diga: coragem de quê? Afinal, você é ou não é livre para ir e voltar de onde quiser, na hora em que quiser? Isso não faz parte do seu sagrado direito à sua própria vida? Seja corajosa; afinal, está com medo de quê?
Agora uma coisa mais banal ainda: está fazendo frio, você acordou mais tarde do que de costume e tem ginástica às 4h. Ginástica, para você, é sagrada, pois é uma questão de saúde, de bem-estar, e todos temos a obrigação de nos cuidar; mas naquele dia não está dando, e você começa a sofrer. Sofrer porque não passa por sua cabeça que pode perfeitamente cancelar a ginástica e ficar vendo um filme, mesmo idiota, na televisão.
Afinal, não estamos no exército, e talvez esta tarde passada em casa, com os gatinhos deitados no mesmo sofá com você, te faça mais bem à alma do que um ano de exercícios físicos. À alma, não ao corpo, mas nesse dia faça o que seu coração pedir. E prepare-se para passar um dia muito feliz, pois gazetear uma aula de ginástica é das coisas melhores do mundo.
E aquele jantar que parecia ser tão interessante? Muitos amigos, também gente desconhecida, até já tinha escolhido como ia vestida. Mas lá pelas 5h, 6h da tarde, pensa que só quer uma coisa na vida: ficar em casa sozinha, sem ter que conversar com ninguém, lendo um livro, o que não faz há muito tempo. Mas estão contando com você, que jurou que ia.
Começa o sofrimento entre o compromisso e a vontade: faz o quê? Pois não vá; simplesmente não vá, e talvez nem faça falta. Afinal, sua presença não é assim tão fundamental, e uma dor de coluna é fácil de inventar e não faz mal a ninguém.
E evite sofrer; ao menor sinal de que vai começar a tortura, pense em primeiríssimo lugar no que você quer, e siga o seu coração, sem culpas nem arrependimentos, porque esse é um dos maiores direitos do homem.
E eu vou seguir meus próprios conselhos e já já desmarcar minha ginástica de hoje.

*

Como temos sido escravos do tempo... a agenda sempre cheia, tantos compromissos sempre.
Sofremos uma "auto-renúncia" (?). Tudo o que queremos tem que esperar. Se der, faremos.
Precisamos repensar algumas coisas.
Tempo é questão de prioridade.

11 agosto 2007

O MOVIMENTO DOS SEM-BOLSA

Reinaldo Azevedo

"Um grito de protesto da classe média é ilegítimo? É ela hoje o verdadeiro 'negro' do Brasil. Ninguém a protege: estado, ONG, igrejas, nada... Corajosa, sem líder, sozinha, sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo, quer vaiar no Brasil inteiro"

Quem tem boca vaia Lula. A frase é lema e divisa de um bom número de inconformados. Os apupos explodiram primeiro no Maracanã, na abertura dos Jogos Pan-Americanos. O presidente estava lá. Foram reiterados na cerimônia de encerramento, da qual ele se manteve a uma prudente distância. Em São Paulo, milhares de pessoas enfrentaram o frio numa passeata, unidas pela palavra "Cansei". As 75 000 vozes do 13 de Julho, no estádio carioca, eram um protesto e uma premonição: quatro dias depois, 199 corpos assariam na pira macabra da desídia. Não sei quem se surpreendeu mais com o coro dos descontentes: o próprio Lula, acostumado aos paparicos de seus bolsistas, ou as oposições, em especial o PSDB, cujos líderes trocam bicadas para ter o discutível privilégio de ser o preferido do Estimado Líder.

Surpresa? Vaias e passeata nada têm de inexplicável. Lula obteve o segundo mandato com 58 milhões de votos – e isso significa que 66 milhões de eleitores não o escolheram. Lanço aqui uma sombra de ilegitimidade sobre o seu mandato? Não – até porque acho o voto obrigatório indecente. Relevo é o fato de que o petista está longe de ser uma unanimidade. A exemplo do que se viu no primeiro mandato, as dificuldades políticas que ele enfrenta, no entanto, são obra de seus próprios aliados e de sua administração, jamais dos adversários. E por quê? Porque o Brasil esqueceu – e esta é uma tarefa das oposições – como se faz política sem crise econômica.

Desde a redemocratização, é a tal crise, ou a ameaça dela, que pauta o debate. Ela tem sido o elemento redutor de todas as divergências e demandas. Ora, catorze anos de aposta na estabilidade, já caminhando para quinze, expulsaram esse fantasma. Em algum lugar, é certo, ele se esconde. Mas isso é verdade para qualquer país – a prosperidade perpétua é uma utopia. Ocorre que não adianta mais anunciar nem o apocalipse nem a redenção. Quem quiser tomar a cadeira do PT vai ter de redescobrir a política, que pauta os debates e divide opiniões nas outras democracias.

Antes que prossiga na trilha do primeiro parágrafo, permitam-me uma digressão. A Al Qaeda eletrônica do petismo e os colunistas que jamais dizem "Epa!" apressam-se em abraçar duas explicações distintas, mas combinadas, para os protestos: 1) partem da classe média branca e incluída; 2) são manifestações manipuladas por golpistas. Os petistas estão indecisos, como se vê, entre o arranca-rabo de classes e a teoria conspiratória. Os terroristas cibernéticos – células dormentes da esquerdopatia despertadas para defender o chefe – atuam para tirar dos ombros de Lula a responsabilidade por seu próprio governo.

Ainda que estivessem certos, pergunto: um grito de protesto da classe média é ilegítimo? É ela hoje o verdadeiro "negro" do Brasil: paga impostos abusivos; não utiliza um miserável serviço do estado, sendo obrigada a arcar com os custos de saúde, educação e segurança; tem perdido progressivamente a capacidade de consumo e de poupança; é o esteio das políticas ditas sociais do governo, e, por que não lembrar?, ninguém a protege: estado, ONG, igrejas, nada... Está entregue a si mesma: nas escolas, nas ruas, nos campos, nos aeroportos. Pior: está proibida até de velar os seus mortos. Quando um classe-média morre de bala perdida ou assado num avião, o protesto é logo abafado pela tese delinqüente de algum cientista social ou jornalista que acusa a gritaria dos incluídos. Lula foi vaiado no Maracanã porque era o nhonhô na senzala dos escravos do seu regime.

Começo aqui a juntar o fio da minha digressão com aquele que está lá no início do texto. É possível, sim, que houvesse no Maracanã e nas ruas de São Paulo uma maioria de pessoas da classe média. São os espoliados do regime lulista, mas também homens livres porque não dependentes da caridade estatal, da papa servida na senzala ou na casa-grande. Eu lhes apresento o MSB: o Movimento dos Sem-Bolsa. Não são nem os peixes grandes, que se alimentam da Bolsa-BNDES, nem os peixes pequenos, que vivem do Bolsa Família. A classe média, coitadinha, se financia é nos bancos mesmo, sem taxa camarada.

Corajosa, sem líder, sozinha, sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo, quer vaiar no Brasil inteiro. Os oposicionistas estão se fazendo de surdos. Se é para levar alguns espertalhões para o Conselho de Ética, deixam a tarefa para o PSOL. O governo debate a ampliação do aborto legal e chega a adotar um método abortivo, contra a Constituição? Eles ignoram. Lula veta uma emenda da Super-Receita e pode provocar um desastre nas microempresas de serviços? Quatro milhões de pessoas ficam ao relento, sem apoio. Um grupinho de aloprados resolve recriar a censura prévia no país? Não se ouve uma voz graduada em sinal de protesto. A crise nos aeroportos mata? A reação é não mais do que burocrática. Debate-se a possibilidade de as Forças Armadas agirem no combate ao crime, em vez de ficar internadas, engraxando baionetas enferrujadas? Os líderes da oposição, especialmente tucanos, nada têm a dizer. O país cobra a maioridade penal aos 16 anos? Eles esperam passar o clamor.

O austríaco Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, perguntou, certa feita, sem chegar a uma resposta definitiva: "Mas, afinal, o que querem as mulheres?". Serei o barbudo de charuto do PSDB e do DEM: "Mas, afinal, o que querem as oposições?". Admito que elas não formem um grupo homogêneo, o que as impede, sei bem, de desejar uma única coisa. Se as mulheres vistas por Freud demonstravam uma inquietude sem alvo ou ainda sem objeto definido (ao menos para ele), as oposições padecem é de excessiva quietude e condescendência com o lulismo. E gostam de se comportar como a mulher do padre: deixam que o petista defina a sua identidade e só exercem o papel que Lula lhes outorga.

Assim, vai-se fazendo uma política que se manifesta como negação da política: líderes oposicionistas, especialmente os governadores, estão sempre ocupados em negar que tal ou qual ação seja contra o governo federal – como se fosse um ato criminoso opor-se a ele. Cria-se uma cisão, que é pura especulação teórica, sem base empírica, entre "administrar" e "fazer política". E qual é o marcador dessa falsa disjunção? A economia. Como não se vislumbra a possibilidade de uma crise nos três ou quatro anos vindouros, os oposicionistas, sobretudo tucanos, parecem ambicionar apresentar-se como a resposta necessária para os desafios do pós-Lula – mas de braços dados com o lulismo.

Há nessa pretensão uma formidável ilusão, que consiste em supor que se possa ter um lulismo sem Lula; que se possa apenas dar mais eficiência à economia, mas preservando os fundamentos do estado patrão, assistencialista, gigante e reparador. As oposições refugam todas as chances que apareceram de ter uma agenda própria e de falar àquela gente do Maracanã e dos aeroportos. Gente capaz de, resistindo à gigantesca máquina oficial de culto à personalidade, vaiar Lula. Os que deveriam liderar a resistência tornam-se caudatários e até propagandistas do assistencialismo, tentando emular com aquele que deveria ser o seu antípoda. E eu lhes digo: inexiste um lulismo virtuoso, universitário, de barba feita e gramática no lugar. Inexiste o lulismo sem Lula.

Sim, a vaia do Maracanã era um protesto e uma premonição; expressava um juízo sobre o passado e traduzia uma expectativa, macabramente cumprida. O Maracanã e o movimento "Cansei" não são o Brasil, sei bem. Mas são bastante representativos da parcela que não tem nem Bolsa Família nem Bolsa BNDES. Um Brasil que, pasmem!, é a imensa maioria. Falta que se tenha essa clareza. A crise política que aí está é uma crise de liderança das oposições. Ou alguém se apresenta ou já pode ir-se preparando para entrar também na fila da vaia.






*

Cadê a oposição?

10 agosto 2007

PARA RIR OU PARA CHORAR?


Do Blog de Cláudio Humberto


Superlançamento nas bancas

revista - Lula.jpg




*

Sinceramente, não sei se é engraçado ou triste...

VÍCIO ANTIGO

Editorial da Folha de S. Paulo

Como seus antecessores, de Sarney e Collor a FHC, Lula lança mão de verbas e cargos para submeter o Congresso ao Executivo

Como sempre na história deste país, o governo federal recorre ao testado e comprovado estratagema de liberar verbas e cargos para influenciar votações no Congresso. Trata-se de uma crônica distorção da democracia brasileira que Lula, na oposição, prometia corrigir. Mas seu governo, neste como em outros pontos, em nada inovou.
O Planalto empenhou R$ 67 milhões nos seis dias iniciais de agosto para aprovar a prorrogação da CPMF, mais de três vezes o total que havia sido liberado em sete meses. Até o valor é similar aos R$ 80 milhões que FHC pulverizou em maio de 2001 para evitar a CPI da Corrupção.
Militantes propensos a justificar os meios pelos fins poderiam alegar que no caso da CPMF se trata de uma necessidade. Decerto denunciariam como "golpista", hoje, uma propaganda política -mesmo se ideada por um Duda Mendonça- que associasse tal corrupção do processo parlamentar com a imagem de ratos roendo a bandeira do país.
Fernando Henrique acusou a campanha feita pelo PT na época de "nazista". A direção petista de então devolveu a pecha de "fascista", assim: "FHC é chefe de um governo que esteriliza o Legislativo, a poder de medidas provisórias, e que conduziu o país a uma fase de trevas".
Muitos adversários de Lula diriam que a frase se aplica bem ao atual governo. Nem por isso se qualificariam como oposição conseqüente, capaz de iniciar a erradicação do patrimonialismo que assola a política, aqui, desde que o Brasil era Portugal.
O líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS), confrontado com práticas equivalentes dos governos FHC integrados por seu partido, saiu-se com esta: "Estava errado lá e está errado agora". Nada indica que, se voltar ao poder, o ex-PFL agirá de modo diferente.
Tal constatação por certo não justifica a temporada de caça ao apoio político e de oferta de cargos aberta por Lula. Os R$ 67 milhões são só a ponta de um iceberg bilionário que o Planalto estaria prestes a dissolver sobre o Congresso. Também das verbas represadas do PAC se aguarda uma enchente neste semestre, destinada a irrigar o prestígio regional e local dos aliados, cujo apetite não se aplaca somente com recursos.
O Executivo federal entesourou um cobiçado acervo de cargos, cuja barganha por serviços parlamentares em áreas sensíveis foi intensificada. A nomeação prometida de Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas coincidiu não só com a retomada da tramitação da CPMF como também com a resistência da CPI do Apagão Aéreo -interinamente presidida pelo ex-rebelde Eduardo Cunha (PMDB-RJ)- a convocar depoimentos incômodos para o Planalto, notadamente o de Denise Abreu, diretora da Anac.
Lula dá uma contribuição importante, ainda que não inédita nem recordista (como talvez gostasse), para sujeitar o Congresso. Ao concentrar tudo na Presidência, acumula poder, mas também conflitos e a obrigação de arbitrar, coisa que a história, a teoria política e seu próprio retrospecto não recomendam.


*

O que este governo tem de diferente dos outros governos?
Apenas o fato de ter passado 20 anos fazendo uma oposição burra e prejudicando o país.
Ao chegar no poder o PT simplesmente ignorou tudo o que sempre defendeu.
Além da perda de identidade, instalou-se no país a incompetência e o desmando, somado à alienação do senhor presidente, que nada sabe e nada vê.
A CPMF, sempre tão criticada, agora de provisória passará à permanente. E para aprovação, o governo federal negocia com o congresso de uma forma vergonhosa que alimenta mais e mais a corrupção. O troca-troca é moeda forte.
Não adianta reclamar... é isso mesmo: mais um imposto eterno. E ponto final.

INIMIGOS ÍNTIMOS

NELSON MOTTA

Nem a Polícia Federal, nem o Ministério Público, nem a imprensa: foram atos individuais de Pedro Collor, Nicéa Pitta e Roberto Jefferson que trouxeram à luz as tenebrosas transações que levaram ao impeachment de Collor, à condenação de Celso Pitta, ao mensalão e à queda de José Dirceu.
Essas pessoas, movidas por sentimentos pessoais, acabaram prestando inestimáveis serviços ao país. Sem o ódio deles, tudo continuaria como estava. É o que vale: a história não é feita de boas intenções, mas de conseqüências. Traições, humilhações, invejas, rancores, o ser humano é muito sensível a esses sentimentos. Aqui, a vingança não é um prato comido frio, mas fumegante.
Renan Calheiros, por exemplo, foi um dos artífices da vitória de Collor sobre Lula, integrou a linha de frente collorida e só rompeu com elle quando foi preterido em favor de Geraldo Bulhões para o governo de Alagoas. Até então, estava poderoso na cúpula do governo, freqüentava o círculo íntimo presidencial e nunca percebeu nada de errado com o poder de PC Farias e a ética de Collor e da República de Alagoas.
Traído, rompeu com seu líder em nome da decência e da democracia. Derrotado, denunciou a farsa collorida e, sempre um homem de esquerda, foi para a trincheira democrática do PMDB, unindo-se a Sarney e a Jader.
Como nos romances regionalistas sobre guerras entre famílias nordestinas, uma outra vingança pessoal -pela traição de Renan ao usineiro e ex-companheiro de lutas João Lyra na eleição para o governo de Alagoas- revelou que ele pagara R$ 1,3 milhão, não contabilizados, para ser sócio, oculto e ilegal, do acusador em uma rádio e um jornal.
Não por acaso, é justamente o medo da vingança de Renan que atrasa a sua expulsão do Senado.


*

Geralmente em política tudo é questão de tempo.
E o tempo passa, como todas as outras coisas.

HISTÓRIA MAL CONTADA

ELIANE CANTANHÊDE

Seria um enorme exagero dizer que os cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara são a Olga dos nossos dias, porque ela morreu sob Hitler e eles provavelmente não vão morrer sob Fidel. Mas que não vão ter vida fácil em Cuba, lá isso não vão. E o Brasil sabia muitíssimo bem disso.
Então, por que a pressa e a eficiência para procurar, encontrar e despachar os dois campeões para os braços - ou as garras - da ditadura cubana? Num país como o Brasil, em que milhares de criminosos andam por aí à solta, em que milhões de imigrantes não têm documentos, em que as polícias têm mais o que fazer, é de estranhar por que, em menos de 15 dias, os dois já haviam sido localizados e estavam de volta a Havana.
A reação do Itamaraty à deportação, ou seja lá que nome tenha, foi sintomática. Celso Amorim lavou as mãos: a diplomacia não tem nada a ver com isso. E os diplomatas não param de jurar que não viram, não ouviram e não falaram sobre os cubanos. Leia-se: a questão é política, coisa do Planalto e da Justiça. A explicação formal é simples.
Estrangeiros que pedem asilo a uma embaixada brasileira são da alçada do Itamaraty, e os que pedem refúgio dentro do Brasil são do Ministério da Justiça. Mas, convenhamos, não se trata um simples caso de asilo ou refúgio. E os dois acabaram sendo um caso de polícia. Uma polícia que aceitou com muita facilidade a versão do "arrependimento". Rigondeaux e Lara foram despachados ""a pedido", como nas demissões em Brasília, e sem investigação, sem processo, sem julgamento. Nenhuma entidade de direitos humanos foi ouvida.
Em sendo muy amigo de Fidel, fica parecendo que o governo do PT cedeu à pressão e entregou os cubanos à própria sorte - ou azar. Se viessem de outra ditadura, "à direita", talvez tivessem sido acolhidos como refugiados. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Ou nem isso.


*

Como eu já disse anteriormente: é apenas uma questão de amizade.
O resto da história não importa para o governo.