27 outubro 2007

ACORDO PERMITE APOSENTADORIA NO EXTERIOR

Clóvis Rossi

Brasileiro que emigrar para país da Comunidade Ibero-Americana poderá levar tempo de contribuição e se aposentar

Projeto deve ser aprovado na Cúpula Ibero-Americana, em Santiago; 23 nações fazem parte do grupo, que inclui Portugal e Espanha

O brasileiro que emigrar para qualquer outro dos 22 países da Comunidade Ibero-Americana poderá levar consigo o seu tempo de contribuição para a Previdência Social e, se continuar contribuindo no país escolhido, aposentar-se de acordo com as regras deste.
Esse projeto será aprovado no início do próximo mês, durante a 17ª Cúpula Ibero-Americana, a realizar-se de 8 a 10, em Santiago do Chile, na forma de um "Convênio de Seguridade Social".
Trata-se de uma das maneiras de "falar o que interessa ao cidadão", na definição de Maria Elisa Berenguer, secretária-geral-adjunta da Segib (Secretaria Geral Ibero-Americana, o núcleo de coordenação de todo o processo). Até aqui, de fato, a Comunidade Ibero-Americana é, no máximo, um estado de espírito, rico em retórica e em debates, mas pobre em ações concretas. O convênio sobre seguridade social será o "programa estrela" da cúpula de Santiago, como diz Trinidad Jiménez, secretária de Estado para Ibero-América, de recente criação pelo governo espanhol, o que por si só dá uma medida da importância que a Espanha dá a essa incipiente comunidade.
A importância do convênio é óbvia. A formidável diáspora latino-americana leva bolivianos a viver em situação precária no Brasil e brasileiros a fazê-lo em Portugal ou na Espanha.
Em Portugal, a comunidade brasileira é a maior de todas. Na Espanha, os brasileiros passaram de cerca de 24.000 em 2002 para mais de 53.700 em 2005. No total, supera 3 milhões o número de imigrantes na Espanha, claro que nem todos latino-americanos.

Precariedade
O convênio a ser assinado em Santiago diminui a precariedade em que vive grande parte dos imigrantes em qualquer lugar do mundo. Tem, além disso, um aspecto institucional, apontado por Trinidad Jiménez: "É um marco que um grupo de países decida ceder parte de sua soberania para uma soberania conjunta".
Mas não é o único marco concreto a surgir em Santiago. O presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, deve anunciar o valor do "Fundo para Aceso à Água Potável", idéia lançada na cúpula de 2006 mas que só agora se materializará no essencial (os recursos).
Um terceiro ponto objetivo ainda está meio cru e nem tem um nome definido. Por isso, está sendo chamado precariamente de "Erasmus ibero-americano".
O Erasmus europeu, criado em 1987, é um programa de intercâmbio de estudantes universitários financiado pela Comissão Européia, o braço executivo do conglomerado que hoje reúne 27 países. Dá, por isso, grande mobilidade acadêmica ao estudante europeu.
O formato (e o nome) do "Erasmus ibero-americano" ainda não está definido. Nem mesmo se será para estudantes de graduação ou apenas para os de pós-graduação.
A cúpula de Santiago muito provavelmente dará o tiro de partida para a concretização do programa.

Coesão
Mas o que tende a se impor como futuro "programa estrela" é a proposta de um "fundo de coesão". Como o "Erasmus", é a adaptação dos fundos estruturais que a Europa utilizou para financiar seus países mais pobres de forma a aproximá-los, crescentemente, dos mais ricos.
O "fundo de coesão" se inscreve no tema central da cúpula de Santiago, prolixamente batizado de "Coesão social e políticas públicas para alcançar sociedades mais inclusivas na América Latina".
"Se há algo importantíssimo e urgente na Comunidade Ibero-Americana, é avançar em coesão social", afirma María Teresa Fernández de la Vega, vice-presidente do governo espanhol.
Reforça Trinidad Jiménez: "Para mim, coesão social não é uma frase, mas a oportunidade de resolver o desafio mais importante da América Latina, que é o da desigualdade e da pobreza".
Difícil discordar de uma ou de outra, quando se sabe que há 200 milhões de pobres na América Latina e que o subcontinente vive uma clara situação de apartheid social -o oposto da coesão social.
"O Uruguai, o país de maior igualdade na América Latina, é mais desigual que o mais desigual dos países europeus", constata Trinidad, que põe uma pitada forte de utopia no projeto ao dizer que "cidadão é o que sabe que não será nunca abandonado à própria sorte". O fundo de coesão seria a maneira de fazer a retórica aterrizar no mundo real. Mas não sairá da cúpula pronto e acabado.
"O importante [na cúpula] é que se abra o debate e se fixe a conveniência de ter um fundo de coesão", diz a vice-presidente De la Vega.
É previsível, por isso, que a cúpula dê à Segib um mandato para estudar como seria o sistema, de forma a apresentar uma proposta mais concreta na cúpula seguinte, em El Salvador. "É preciso ser prudentes, para evitar que, antes que o criemos, o fundo seja algo que assuste", diz De la Vega.
Em todo caso, seus focos estão claros na cabeça da vice-presidente: fomento da infra-estrutura e da educação e instrumento de queda da pobreza.
Os 23 países ibero-americanos são: Andorra, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Chile, Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.


*

Uma boa notícia para os brasileiros que saem do país em busca de uma vida melhor.
Muito justo.
Aguardamos a aprovação.

LIMITE ÀS GREVES

Editorial da Folha de S. Paulo

STF estende lei do setor privado às paralisações de servidores e abre caminho para um grande avanço institucional

"No serviço público não há patrão. O que existe é o interesse da sociedade, do outro lado." Soam óbvias as palavras do ministro Eros Grau, relator no julgamento em que o Supremo Tribunal Federal estendeu para o funcionalismo a Lei de Greve do setor privado. A aplicação do enunciado, contudo, representará um avanço institucional no Brasil.
Paralisações de funcionários públicos não prejudicam necessariamente o prefeito, o governador ou o presidente de turno. Afetam obrigatoriamente o cidadão que depende do serviço suspenso. Mas o usuário, até a decisão do STF, não contava com nenhum mecanismo para defender-se de greves abusivas. A balança estava de todo desequilibrada, a favor dos servidores.
A omissão de sucessivas legislaturas - devem desde 1988 a regulamentação para o funcionalismo do artigo 9º da Carta, que institui o direito de greve - ajudou a estabelecer o vale-tudo nesse terreno. Categorias inteiras se sentiam à vontade para deixar de trabalhar durante meses, pois não estavam sujeitas a nenhuma sanção, nem mesmo ao corte de salários proporcional aos dias parados.
Agora, com a decisão do Supremo, o órgão público afetado pela paralisação poderá solicitar à Justiça a decretação da ilegalidade da greve, a proibição de piquetes, a desocupação de prédios, a preservação de pelo menos 30% de funcionamento e o desconto dos dias não-trabalhados. É o mínimo para restituir algum poder à sociedade, como parte prejudicada pelas greves.
A extensão da Lei de Greve ao funcionalismo ocorre no momento em que o governo Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma proposta para regulamentar a questão. A idéia inicial do Executivo era justamente adaptar os principais mecanismos presentes no texto que rege as paralisações do setor privado. Para os 19 setores listados como serviços essenciais, o Planalto propõe um mínimo de 40% de funcionamento em caso de greve.
Mas a pressão de centrais sindicais, que constituem a base histórica de apoio a Lula e contam com militantes colocados em diversos postos da administração federal, atrasou o processo. O presidente cedeu às invectivas e abriu uma discussão interna com até 90 dias de prazo para produzir conclusões.
A intervenção da corte constitucional é oportuna porque estabelece parâmetros para essa discussão - parâmetros que vão ao encontro do interesse dos usuários do serviço público, que não estão sentados à mesa em que sindicalistas debatem com ex-sindicalistas agora no governo.
Não é o primeiro sinal recente de que o modo de encarar o funcionalismo público vai evoluindo no Brasil. As instituições e os governos eleitos pouco a pouco respondem à necessidade de cobrar eficiência, constância e qualidade desses trabalhadores.


*

Brilhante decisão do STF.

3º MANDATO

Os deputados Devanir Ribeiro (PT-SP) e Carlos Willian (PTC-MG) se movimentam no Congresso e devem apresentar uma PEC - Proposta de Emenda à Constituição - , na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que permitiria a todos os políticos mandatários atual do Executivo: presidente, governadores e prefeitos, concorrerem a um 3º mandato. Além de aumentar o mandato de 4 para 5 anos.
Também pensou-se na idéia de reduzir o mandato de senadores de 8 para 5 anos, o que foi imediatamente retirado, pois seria difícil a aceitação pelo Senado.
Vem por aí mais uma grande batalha política.

O ASSASSINO DA MENINA MÁRCIA

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Este é Natanael Bufalo, 41 anos, o assassino da garota Márcia Andréia Prado Constantino, de 10 anos, brutalmente violentada e morta, no último sábado.
Ontem à noite, ele confessou o crime numa delegacia em Maringá. Por precaução, ele passou à noite numa cela da Penitenciária Estadual de Maringá.

Durante sua confissão ele disse que foi ao velório e até abraçou o pai da menina.
E detalhou o crime: disse que no último sábado estava no pátio da Igreja Assembléia de Deus, onde abordou a menina oferecendo bolo e ela foi com ele até seu carro. Ele a levou para sua casa. Amarrou os pés e as mãos da menina e cometeu o estupro. A menina chorava o tempo todo e pedia para voltar à igreja. Daí, ele pegou um sacola plástica e sufocou a menina até a morte. Para livrar-se do corpo, foi até a saída de Iguaraçu, jogou álcool, colocou palha de milho e queimou.

Ele era investigado desde domingo passado, mas negava o crime.
O assassino já havia cumprido 5 anos de prisão por estupro e pode ter cometido outros crimes.
Agora, deve deve ser condenado por homicídio qualificado, seqüestro, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver. E pode pegar de 25 a 57 anos de prisão.

O que dizer sobre isto?
Não há palavras...
Mas o sentimento é de muita indignação e tristeza.

MUITO PIOR DO QUE ASNEIRAS

ELIANE CANTANHÊDE

Para o geneticista norte-americano James Watson, "as experiências" mostram que a inteligência dos africanos (negros) não é igual à "nossa" (dele, que é branco), e citou uma dessas "experiências": "Quem tem que lidar com empregados negros sabe que isto não é verdade".
E olha que Watson não é qualquer um. É um pioneiro em pesquisas com DNA e ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1962. Para o juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues, de Sete Lagoas (MG), a Lei Maria da Penha, que aumenta as penas para agressões contra mulheres, é inconstitucional e apenas um "conjunto de regras diabólicas". E explicou: "O mundo é masculino" e "a desgraça humana começou por causa da mulher".
E olha que Rumbelsperger Rodrigues não é qualquer um. É juiz, num país onde ainda há milhares ou milhões de analfabetos.
Para o governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio, o aborto pode ser um bom remédio contra a violência. Mas o aborto para as mulheres pobres, evidentemente, porque ele considera que as altas taxas de fertilidade nas favelas são "uma fábrica de produzir marginal".
E olha que Cabral não é qualquer um. É governador de um dos três principais Estados do Brasil e um nome em ascensão na política nacional, lembrado até para 2010.
Depois de dizerem o que queriam e ouvirem o que não queriam, o geneticista Watson, o juiz Rumbelsperger e o governador Cabral estão, um atrás do outro, tentando explicar que não era bem assim e se desculpando por dizerem "asneiras".
Não, meus caros, não foi. O que vocês disseram foi muito mais profundo e mais grave do que meras asneiras, pelo caráter do que foi dito e pelo grau de responsabilidade de quem o disse. Cada passo à frente contra o racismo e o preconceito exige enorme esforço. Coisas assim são milhões de passos atrás.
Em que mundo estamos? E onde vamos afinal parar?

QUEM PARE A VIOLÊNCIA

CLÓVIS ROSSI

Não conheço o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho. Não sei se sua gestão é boa, ruim ou péssima, mas é indiscutível que o rapaz é corajoso, ao menos no falar. Toca em assuntos tabus, como foi o caso, mal assumiu, da presença das Forças Armadas no combate à violência urbana.
Agora Cabral entra no pantanoso terreno da suposta ligação entre a fertilidade das mães pobres e a criminalidade. Sua teoria de que as taxas de fertilidade de mães faveladas são "uma fábrica de produzir marginal" é de um preconceito notável.
Pode-se dar mil voltas à frase, mas ela equivale a dizer que pobre gera marginal e ponto final.
Mas há outra parte da frase que merece um segundo olhar.
É quando o governador diz que parte das mães moradoras de áreas carentes "está produzindo crianças, sem estrutura, sem conforto familiar e material". E acrescenta que essas mulheres não receberem "orientação do governo em questões de planejamento familiar dos órgãos de saúde".
Muito bem. Primeiro ponto: falta de "estrutura" e de "conforto familiar" não é problema só de famílias carentes. Há famílias que têm e oferecem "conforto material", o que não impede que os filhos sejam criminosos. Basta ver a lista dos chamados criminosos de colarinho branco, de amplo "conforto material". Podem até não ser violentos, mas são delinqüentes.
Segundo ponto: planejamento familiar é, de fato, um problema a ser enfrentado, não para que os pobres tenham menos filhos porque são pobres, mas para que tenham filhos aos quais possam oferecer as melhores condições possíveis dentro da realidade brasileira.
Tudo somado, de fato, o Brasil é "uma fábrica de produzir marginal", mas a culpa não é das "parideiras", e sim de uma estrutura social obscena e de um Estado incapaz de impor o monopólio da coerção que lhe é inerente.


*

Definitivamente, o Brasil é o país das polêmicas.
E geralmente os assuntos mais sérios, acabam no final, virando piada.
Tudo é muito relativo dependendo de onde vem ou de quem fala.
O Brasil parece dividido. É o Brasil contra o Brasil.
Discussões acirradas, discursos inflamados, defesas esdrúxulas, acusações levianas: pura teoria.
A solução parece não exisitir. Ou pelo menos quase nunca aparece.
Fazer o que... esperar a próxima polêmica.

FÁBRICA DE MARGINAIS

André Petry

"A miséria marginaliza e a legalização do aborto é uma medida igualitária.
Sem miséria e com aborto, dá Suécia"

No dia em que os mecanismos de proteção social no Brasil funcionarem com a rapidez e a eficiência da patrulha ideológica, o Brasil será como a Suécia. O governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, em entrevista ao site G1, disse que as "favelas são fábricas de marginais", e o mundo desabou sobre sua cabeça. Para ilustrar sua tese, Cabral disse duas besteiras. A primeira é uma imprecisão grosseira: afirmou que a taxa de fertilidade nas favelas cariocas é igual às de Gabão e Zâmbia. Não é: nas favelas cariocas, ela é de 2,6 filhos por mulher, contra 5,4 e 6,1 nos países citados. A segunda é uma conclusão descabida: disse que o aborto é capaz de reduzir a taxa de criminalidade na medida em que impede o nascimento de crianças indesejadas e criadas em famílias desestruturadas. Não há nada assim: a tese, aventada no livro Freakonomics, aparece no condicional, precisa ser investigada a fundo, e há renomados especialistas que a contestam com veemência e solidez. É uma hipótese, não é um fato.

Mas a patrulha fez o mundo desabar na cabeça de Cabral porque o essencial de sua tese é cristalinamente verdadeiro: as favelas são fábricas de marginais, sim. Cabral, acuado diante da repercussão negativa, saiu desdizendo-se no dia seguinte. Não precisava: as favelas são fábricas de marginais, sim. Isso não quer dizer que os pobres são culpados, naturalmente maus e geneticamente mais inclinados ao crime. E, portanto, precisam ser eliminados. Essa é uma manobra patrulheira para falsificar o núcleo do argumento. Os pobres não são maus. Nem geneticamente mais propensos ao crime. Nem têm de ser eliminados fisicamente. A miséria é que é má. Quanto mais aguda, pior. A miséria precisa ser extirpada. A miséria destrói, brutaliza, animaliza, desumaniza. No seu rastro de desespero e desamparo, ela cria marginais. Cria alguns marginais, não todos – pois é óbvio, e diante da patrulha canarinho é preciso dizer o óbvio, que nem todo pobre é marginal, e nem todo marginal é pobre. Simplesmente porque só a razão econômica não explica a criminalidade.

O governador abriu o flanco aos que o acusam de defender a eliminação dos pobres quando falou do aborto como política de segurança pública. Mas, resgatado de seu vôo cego, o argumento essencial é, de novo, verdadeiro: as mulheres faveladas não têm acesso a políticas de planejamento familiar, a métodos de anticoncepção ou ao aborto (esse, apesar de clandestino, bastante acessível às mulheres mais abastadas). A evidência do tratamento desigual está na própria taxa de fecundidade dos morros cariocas (2,6) contra a taxa verificada na Zona Sul (1,7). Até em cidades do interior, o acesso ao mais elementar meio de contracepção – a camisinha – é restrito, pois há padres católicos que usam sua autoridade para demonizar o prefeito que estimula a distribuição de graça de camisinha (e depois o mesmo padre demoniza a mulher que faz aborto...!).

Cabral contribui com sua ousadia, apesar dos equívocos. Em vez da patrulha, seria melhor o debate franco, sem a manipulação de preconceitos, sem o recurso estacionário do politicamente correto, para que se possa dizer – como está dito aqui – que a miséria marginaliza e a legalização do aborto é uma medida igualitária. Sem miséria e com aborto, dá Suécia.

MODAS PARA FAZER FRENTE AO LADRÃO

Roberto Pompeu de Toledo

Saias, bolsas e outros itens que driblam os assaltantes: idéias do Japão que poderíamos adotar

Uma recente reportagem do jornal New York Times mostrou como os designers de moda do Japão vêm contribuindo para aplacar entre os cidadãos e, principalmente, as cidadãs do país o medo do ladrão que crescentemente os domina. Um dos inventos é uma saia vermelha que, lisa por fora, sem nada que a distinga de uma banal saia comprida, se transforma numa falsa máquina de vender Coca-Cola. A saia é composta de várias camadas. Uma vez desdobrada pela portadora, e levada até a cabeça, revelará, do lado do avesso, o logotipo da Coca-Cola e demais imagens que identificam uma máquina de vender refrigerantes. O modo de acionar o engenho não requer prática nem habilidade. Cada vez que, numa rua, vir despontar um tipo suspeito, a usuária se recolherá a um canto, como Clark Kent quando quer virar Super-Homem, e se cobrirá com sua mágica saia. Lá permanecerá, imóvel, encostada à parede. O ladrão, a menos que esteja tomado do desejo de, bem naquele momento, beber uma Coca-Cola – o que, convenhamos, é uma hipótese remota –, passará sem desconfiar da presença de uma possível presa.

Não é brincadeira. Nem se trata, a saia criada pela estilista Aya Tsukioka, de 29 anos (o nome e a idade vão para amansar os incréus), do único produto do gênero. Há também a bolsa que se transforma numa dessas tampas de ferro que, nas ruas, dão acesso aos encanamentos e à fiação subterrânea das cidades. A bolsa, redonda, chata e cinzenta, é uma exata imitação desse tipo de tampa. Vai sua portadora pela rua quando vê despontar o suspeito. Numa manobra rápida e discreta, ela joga a bolsa no chão. Claro que não poderá andar com a bolsa estufada de objetos, sob pena de a suposta tampa exibir uma suspeita protuberância. Ao contrário da maioria das mulheres, terá de ser contida, e não levar senão uma magra carteira e outros poucos e delgados itens.

Outro artefato ainda, este para uso das crianças, é uma mochila escolar que, virada pelo avesso, ganha a aparência de extintor de incêndio. O surto de criações destinadas a espantar o ladrão mostra que os japoneses andam preocupados – e isso num país que, segundo nota a reportagem do New York Times, apresenta índices de criminalidade sete vezes mais baixos do que os dos Estados Unidos. Se é assim com relação aos EUA, quanto será com relação ao Brasil? Nem é bom saber. O Brasil, sim, necessitaria de engenhos semelhantes. Que forma poderiam assumir por aqui?

Está afastada a hipótese de simplesmente importarmos os modelos japoneses. São raras, no Brasil, as máquinas de vender refrigerantes, e mais raro ainda é encontrá-las nas ruas. Isso não ocorre por acaso. Ao relento, elas só sobreviveriam umas poucas horas aos ladrões que lhes levariam as moedas e aos vândalos que as depenariam até o último fiapo da carcaça. Usar um tal disfarce, em nosso país, traria risco maior do que apresentar-se de peito aberto ao ladrão. As tampas de rua, por sua vez, nas cidades brasileiras costumam ser alvo dos ladrões, para venda no ferro-velho. O ladrão, por aqui, se sentiria atraído pela tampa. Ao descobrir que se tratava de uma simples bolsa, ele se sentiria logrado e, localizando o autor do embuste, o atacaria com redobrada fúria.

É preciso buscar soluções ajustadas à realidade brasileira. Se aqui faltam máquinas de vender refrigerantes, não faltam postos de gasolina. A saia poderia disfarçar a portadora numa bomba da Shell. Outra coisa que não falta no Brasil são farmácias. Para grupos de mulheres, a sugestão é que usem saias, cada uma imitando uma parte da fachada de um desses estabelecimentos. À aproximação do ladrão, elas se juntariam umas às outras e, como peças que se complementam, se fingiriam de farmácia. A menos que o ladrão, atormentado pela dor de cabeça, esteja justamente em busca de um analgésico ou, pior, venha com o plano de assaltar o caixa da farmácia – ambas hipóteses que, convenhamos, só se confirmariam em caso de muito azar –, estariam a salvo. Quanto à bolsa, se fabricada com esmero, para dar ilusão de profundidade, imitaria, em vez de tampa, um buraco. Jogada ao chão, ela se integraria sem susto à paisagem de nossas ruas.

Muitas outras sugestões podem ser apresentadas. Uma é a máscara de Luciano Huck. O fato de todo ladrão, no Brasil, saber que ele já perdeu seu Rolex é garantia de que o usuário não seria importunado. Outra é um disfarce do deputado ou senador à frente do escândalo do momento. Seja de humilhação, diante do concorrente imbatível, seja para proteger seus próprios valores, ao ladrão só restaria fugir. Outra ainda é uma capa que, desdobrada, faria do portador uma exata reprodução do ministro Nelson Jobim em farda de camuflagem. O produto estaria disponível em três versões, correspondentes ao grau de ameaça que se deseje impingir ao ladrão: o ministro só de farda, de farda e segurando um macaco e de farda e segurando uma sucuri. Idéias não faltam, nem faltarão outras, melhores. Os estilistas do Brasil estão convocados a, tal como os colegas japoneses, dar sua contribuição para o sossego nas ruas.

NO IRAQUE, É MELHOR

Diogo Mainardi

"No ano passado, o Brasil teve 44 663 assassinatos. O dado acaba de ser publicado pelo governo federal. No mesmo período, de acordo com o site do Iraq Coalition Casualty Count, a guerra no Iraque produziu 18 655 mortes. Os americanos alarmaram-se tanto com esse número que aceitaram mandar mais 30 000 soldados para lá. O resultado? As mortes diminuíram drasticamente"

A favela da Rocinha é uma "fábrica de produzir marginais". A frase é do governador Sérgio Cabral. Ele acrescentou que a Rocinha só vai parar de fabricar marginais quando o aborto for legalizado. Finalmente um político admite que o maior problema do Brasil é o brasileiro.

Na mesma reportagem, Sérgio Cabral comparou a Rocinha à Zâmbia. Até aí tudo bem. Ninguém discute que a Rocinha seja igual à Zâmbia. Espantei-me apenas quando ele comparou Copacabana à Suécia. E o Méier à Suécia.

Sérgio Cabral é nosso James Watson. James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, declarou que o preto africano é menos inteligente do que o branco europeu. Anteriormente, ele já declarara que os estudos genéticos permitiriam abortar todos os fetos defeituosos. O governador do Rio de Janeiro descobriu o DNA da marginalidade entre os africanos da Rocinha e agora quer abortá-los. Segundo ele, ficaremos mais seguros. Ficaremos mais inteligentes também?

Uma semana antes de Sérgio Cabral apresentar suas teorias eugenistas, os policiais cariocas, a bordo de um helicóptero, mataram uns marginais no Morro da Coréia. A Secretaria de Segurança Pública explicou que seria difícil efetuar uma operação análoga nos morros da Zona Sul, porque "um tiro em Copacabana é diferente de um disparado na Coréia". Copacabana é a Suécia. Ali só vale o aborto em massa.

No ano passado, o Brasil teve 44 663 assassinatos. O dado acaba de ser publicado pelo governo federal. No mesmo período, de acordo com o site do Iraq Coalition Casualty Count, a guerra no Iraque produziu 18.655 mortes. Os americanos alarmaram-se tanto com esse número que aceitaram mandar mais 30 000 soldados para lá. O resultado? Em fevereiro de 2007, quando as novas tropas desembarcaram no país, registraram-se 3 014 mortes. Em agosto, elas já haviam diminuído para 1.674. Em setembro, 848. Em outubro, até a última quinta-feira, morreram 531 iraquianos.

Consulto todos os dias o site do Iraq Coalition Casualty Count. Consulto todos os dias também o site do Iraq Body Count, onde cada confronto fatal recebe um código e uma ficha de ocorrência. A ficha k7633 relata a morte de um professor da universidade religiosa de Al Sadr. A ficha k7634 assinala dois cadáveres encontrados em Al Kifl. Os americanos parecem se preocupar mais com os assassinatos de iraquianos do que os brasileiros com os assassinatos de brasileiros.

Pior do que a idéia de Sérgio Cabral de abortar os marginais zambianos da Rocinha só mesmo o Pronasci, aquela idéia de Lula de dar um dinheirinho mensal aos marginais para evitar que eles cometam crimes. O programa foi apelidado de Bolsa Bandido ou Bolsa Pivete. Prefiro chamá-lo mais simplesmente de Bolsa Júlio Lancellotti.

Cedo ou tarde, o Iraque será pacificado e a autoridade local poderá comparar Al Kifl à Suécia. A Zâmbia de Sérgio Cabral e Lula continuará com seus 44.663 assassinatos. Se tudo correr bem.

26 outubro 2007

UM NOVO HINO

Do Blog do Rigon

Só ouviram em Brasília as frases tácitas
De um povo conformado irretumbante,
E o sol da impunidade, em solos lúbrigos,
Brilhou no céu da Pátria estagnante.

Se o penhor da desigualdade
Consentimos assistir com ócio forte,
Em teu seio, a impunidade,
Desafia o nosso peito à própria sorte!
Ó Pátria desamada,
Idiotizada,
Salve! Salve!

Brasil, um pesadelo intenso, um raio vívido
De desamor e de desesperança à terra desce,
Se em teu formoso céu risonho e límpido,
A impunidade no Congresso resplandece.
Berrante é a nossa impotência,
De inércia forte, pávido colosso,
E o teu futuro espelha só pobreza
Terra manipulada,
Entre outras mil
És tu, Brasil.
Ó Pátria roubada!
Dos corruptos deste solo és mãe gentil,
Pátria desamada,
Brasil!

Dormindo eternamente de modo esplêndido
Ao som da mídia paga por um véu profundo,
Ofuscas, ó Brasil, florão da América,
Observado ao sol de todo Mundo!
Nesta terra tanta intriga
Teus risonhos, lindos campos têm poucos donos,
‘Nossos governantes têm mais vida’
‘Nossa vida’, no teu seio, ‘mais credores’
Ó Pátria desamada,
Idiotizada,
Salve! Salve!

Brasil, da impunidade seja símbolo
As falcatruas que comete o teu senado,
E diga o corporativismo desta trama
- Paz no futuro sem mandatos cassados.
E, se erguem da injustiça a clava forte,
Verás que os filhos teus fogem da luta
E temem quem os rouba até a morte,
Terra idiotizada
Entre outras mil,
És tu Brasil,
Pátria manipulada!
Dos corruptos deste solo és mãe gentil,
Pátria desamada,
Brasil!


*

O Brasil de Brasília reflete da cara de todos nós.

RECEITA INFALÍVEL PARA VIRAR INCOMPETENTE

Gilberto Dimenstein

Uma das melhores notícias para a educação brasileira é a crescente sofisticação dos exames para entrar nas faculdades, exigindo mais reflexão e menos "decoreba". Deve-se comemorar a mudança porque, afinal, os ensinos médio e até fundamental passam a estimular cada vez mais um currículo centrado na visão crítica do aluno e em sua capacidade de associar idéias e informações, conectadas a questões concretas.

A USP acaba de divulgar sua intenção de fazer vestibulares seriados; ou seja, o estudante vai enfrentar três provas, uma ao fim de cada ano do ensino médio. Mais uma vez, será cobrada reflexão, o que exige formação geral. É o fim da mediocridade dos cursinhos e dos professores que ensinam matérias sem nenhuma ligação com outras matérias e, muito menos, com o cotidiano.

O que está em jogo não é fazer bons alunos, mas bons profissionais, capazes de sobreviver num mundo de inovações cada vez mais velozes e no qual se demanda a habilidade da auto-aprendizagem. O problema é que, muitas vezes, os professores estão longe, muito longe, do mercado do trabalho e ficam ensinando coisas inúteis; seu poder deriva não da relevância do que ensinam, mas da nota e do vestibular.

Os novos vestibulares estão desmontando esse poder. O papel do professor deve ser o de gerenciador de curiosidades. Até porque todo o conhecimento disponível já está na internet.

Empanturrar a criança e o jovem com informações sem contextualização e, pior, sem que os alunos sejam protagonistas, é uma fórmula infalível para produzir, no presente, um ser humano infeliz diante dos prazeres da descoberta intelectual e, no futuro, um trabalhador incompetente. Ou um desempregado.

25 outubro 2007

CABRAL APÓIA ABORTO E DIZ QUE FAVELA É FÁBRICA DE MARGINAL

Folha de S. Paulo

Para o governador do Rio, interrupção da gravidez está relacionada à redução da violência

Para ele, rede pública teria de oferecer condições, já que mulheres de melhor poder aquisitivo acabam pagando por procedimento

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), pai de cinco filhos, defendeu ontem a legalização do aborto como forma de conter a violência no Estado e afirmou que as taxas de fertilidade de mães faveladas são uma "fábrica de produzir marginal".
Segundo o governador, 44, existem "dois brasis", um de padrão de países nórdicos, como a Suécia, e outro com nível de pobreza comparável a países miseráveis africanos.
"Não tenho a menor dúvida de que o aborto [como política pública] pode conter a violência. Eu particularmente não sou a favor do aborto", declarou ontem em encontro de agentes de viagem na Barra da Tijuca.
De acordo com Cabral, parte das mães moradoras de áreas carentes "estão produzindo crianças, sem estrutura, sem conforto familiar e material". Ele disse lamentar o fato de essas mulheres não receberem "orientação do governo em questões de planejamento familiar" dos órgãos de saúde.
Em entrevista levada ao ar ontem pelo site G1, o governador havia dito: "A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro "Freakonomics" [Steven Levitt e Stephen J. Dubner]. Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela Suprema Corte", citou [na verdade, foi em 1973].
"Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só", afirmou ao site.
Questionado à tarde pela Folha se mulher de alto poder aquisitivo não dá à luz a filho marginal, ele respondeu, irritado, que não é uma questão de "mãe rica ou mãe pobre".
"A mulher tem o direito de interromper uma gravidez indesejada. É assim em Portugal, na Espanha, no Japão e nos Estados Unidos. Por que não pode ser assim no Brasil?", indagou o governador peemedebista.
Segundo Cabral, a mulher de classe média vai a uma clínica de aborto ilegal que "todo mundo sabe onde fica" e faz um aborto "relativamente seguro". Já as "meninas da favela vão para onde?" "Vamos parar com hipocrisia. Temos de oferecer oportunidade de a rede de saúde pública dispor de qualidade para interromper a gravidez."
Questionado mais uma vez se a prática do aborto ajudaria a conter a violência, Cabral optou por uma resposta mais abrangente. "Está tudo dentro de um conjunto de ações."
"Quis dizer que este ponto do aborto é um desrespeito às mulheres. Cerca de 200 mil procuram a rede pública para tratarem de problemas relacionados aos abortos mal feitos. Oficiosamente, o número chega a 1 milhão anualmente no país."


"Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez"


Governador é contestado por estatísticas

A afirmação de que a Rocinha tem padrões africanos de fecundidade, feita pelo governador Sérgio Cabral Filho ao associar "fertilidade" e violência, não encontra respaldo nas estatísticas oficiais.
Um estudo feito pelos demógrafos José Eustáquio Diniz Alves (da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, do IBGE) e Suzana Cavenaghi (do Núcleo de Estudos de População da Unicamp), com base no Censo 2000 do IBGE, mostra que o número médio de filhos por mulher em favelas cariocas é de 2,6, enquanto no resto da cidade é de 1,7.
As taxas de fecundidade do Gabão ou de Zâmbia, de acordo com a ONU, são mais do que o dobro: 5,4 e 6,1, respectivamente. O estudo também conclui que o que faz diferença na taxa de fertilidade é a escolaridade.
Eles provam isso com a taxa de fecundidade entre mulheres que têm mais de oito anos de estudo, que é a mesma tanto nas favelas quanto no restante da cidade: 1,6 filhos por mulher.
"Justificar as injustiças sociais e a violência usando o álibi dos diferenciais de fecundidade é ignorar o fato de que os problemas com filhos jovens e adolescentes ocorrem independemente do tamanho das famílias", dizem os pesquisadores.
Outra comparação que contesta Cabral é a das taxas de fecundidade e mortes violentas de jovens do Rio e do Maranhão. Em 2000, a fecundidade no Maranhão era de 3,2 filhos por mulher, ante 2,1 da verificada no Rio. O Rio, no entanto, é líder do ranking de mortes violentes entre homens jovens e o Maranhão ocupa a penúltima posição.


*

O governador foi extremamente infeliz em suas declarações. Deve reconhecer seu erro, e sem dúvida, pedir desculpas.
Um homem público, eleito para governar, necessita de mais sensibilidade e respeito para com seu povo. Afinal, ele foi eleito para melhorar a vida das pessoas e não para subjugá-las.

"INFIEL"

CONTARDO CALLIGARIS


A tolerância não impede de reconhecer e recusar a diferença quando ela é inimiga de nossos valores

A COMPANHIA das Letras acaba de publicar a autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, "Infiel - A História de Uma Mulher que Desafiou o Islã".
Hirsi Ali nasceu na Somália (país muçulmano) em 1969, viveu o horror da guerra civil e da luta entre clãs que levaram o país da pobreza à miséria, passou partes da infância e da adolescência na Arábia Saudita e no Quênia e, enfim, adulta, fugiu para o Ocidente. Na Holanda, ela se tornou cidadã e, logo depois, foi eleita deputada. Pela sua história e pela coragem de suas palavras, ela continua sendo alvo de um fanatismo assassino.
O livro, além de tocante, é imprescindível para quem queira, hoje, perguntar: "Vigia, como está a noite?".
As primeiras 300 páginas tratam da progressiva metamorfose de Ali: uma menina definida pela sua ascendência e pela obediência aos homens e ao Alcorão se transforma numa jovem pessoa atormentada por dúvidas sobre sua fé e pela vontade de escutar seus sentimentos e de escolher livremente seus objetos de amor.
Essas páginas deveriam estar nas bibliografias de introdução à antropologia cultural: elas explicam perfeitamente quem somos nós, ocidentais. Na história da jovem somali, a oposição à autoridade tradicional do clã e do texto sagrado não está nos grandes textos do Ocidente -está nos romances.
Fragilidade e grandeza de nossa cultura: a liberdade do indivíduo moderno é, antes de mais nada, liberdade de amar e de romancear o amor. "Romeu e Julieta" e Barbara Cartland nos definem melhor do que "O Contrato Social".
Li as últimas 200 páginas do livro na noite de sábado, sem parar, madrugada adentro. Nelas, Ali, ao contar as peripécias de sua vida na Holanda, expõe sua crítica do Islã.
Depois de 11 de setembro de 2001, talvez você tenha lido "Choque de Civilizações?", de Samuel Huntington, e, como eu, tenha resistido à idéia de que o terceiro milênio seja destinado a encenar um conflito cultural sangrento entre o Ocidente e o Islã. Talvez você, como eu, sem examinar de perto os textos e os fatos, tenha se juntado ao coro da tolerância e à visão otimista do Islã paz-e-amor, convencido de que aceitar a diferença seja (como é, de fato) uma prerrogativa crucial e gloriosa de nossa cultura.
Só a tolerância -você pode ter pensado, como eu- permitirá a integração que confirmará a humanidade comum de todos, realizando o sonho ocidental moderno. Pois bem, Ali pensa diferente.
Para ela, o fundamentalismo e o terrorismo islâmicos de hoje não se fundam numa distorção do Islã, eles estão inscritos na letra do Alcorão e do Hadith.
Só será possível evitar um embate frontal se o mundo islâmico passar por uma revolução interna comparável com a que sacudiu o cristianismo no começo da modernidade, quando o indivíduo (com sua liberdade e seu foro íntimo) se tornou um valor bem mais importante do que a instituição e o texto religiosos.
Portanto, para Ali, sobretudo nos lugares de maior fricção entre o Islã e o Ocidente, como na Europa, a estratégia de uma convivência possível não passa pela simples tolerância, mas pela exigência ativa de uma integração dos imigrantes na cultura para onde se mudaram ou fugiram. Essa exigência inclui a capacidade de recusar a diferença quando ela for inimiga de nossos valores.
Não há espaço, no Ocidente, para a submissão das mulheres, o ostracismo das minorias sexuais, o poder patriarcal indiscriminado e, sobretudo, não há espaço para a confusão entre religião e Estado de direito.
Theo Van Gogh, holandês, dirigiu um documentário, escrito por Ali, sobre a submissão da mulher no Islã. Ele foi assassinado e degolado por um fundamentalista islâmico, que cravou no peito de sua vítima uma mensagem para Ali, perguntando se ela estava disposta a morrer por suas idéias como ele, o assassino, estava pronto a se sacrificar pelas suas.
É um argumento freqüente nos comunicados exaltados dos terroristas: o Ocidente estaria fadado a desaparecer porque preza a vida do indivíduo.
Ora, Van Gogh, diante de seu assassino, antes de ser morto, perguntou: "Será que a gente não pode conversar?". O assassino deve ter pensado que se tratava de mais uma demonstração da fraqueza e da covardia ocidentais. Ele se enganou. Era a maior demonstração de fé nos valores do Ocidente e, portanto, de força.


*

Excelente dica de leitura.

INFIEL
- A história de uma mulher que desafiou o islã
Ayaan Hirsi Ali

Preço: R$ 49,00

Páginas: 512






SEM RECEITA MÉDICA

PRISCILA PASTRE-ROSSI

Riscos de automedicação incluem os remédios de venda livre; veja cuidados que devem ser tomados com medicamentos como antigripais, analgésicos, colírios e descongestionantes

Caminhar por uma farmácia grande, daquelas com muitas prateleiras ou gôndolas, tem o efeito de passear num shopping ou num supermercado: funciona como um convite para encher a cestinha com comprimidos para dor de cabeça, para indigestão, para descongestionar o nariz num desses dias secos ou para uma eventual irritação nos olhos.
A sacola sai recheada de remédios que, apesar de serem vendidos livremente, não são inofensivos. A automedicação é arriscada também com os produtos que não exigem receita médica. "Sabemos que 40% das intoxicações são resultado do uso incorreto de medicamentos - incluindo os de venda livre", alerta Raquel Rizzi Grecchi, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo.
Segundo ela, o conselho está discutindo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a necessidade de esses remédios irem para junto daqueles que necessitam de receita médica - nas prateleiras atrás do balcão. "Há pessoas com restrição a componentes, remédios que dão reações se tomados com outros, substâncias que mascaram ou agravam doenças", diz, lembrando que a medida faria com que o consumidor tivesse a oportunidade de receber esse tipo de orientação dos farmacêuticos.
Na semana passada, nos Estados Unidos, um comitê da FDA (Food and Drug Administration), órgão do governo que regulamenta o mercado de medicamentos, sugeriu que remédios contra resfriados (antigripais) e contra tosse vendidos sem receita não funcionam em crianças abaixo de seis anos e deveriam ser submetidos a mais estudos.
Enquanto a eficácia é discutida, os efeitos adversos desses medicamentos já são conhecidos. Saiba, a seguir, quais são os principais cuidados que devem ser tomados com antigripais e outros remédios que não precisam de prescrição para serem levados para casa.


Antialérgicos

Se uma reação alérgica é desencadeada pela presença de ácaros no carpete, não adianta se entupir de antialérgicos sem cortar o mal pela raiz.
A medicação é um paliativo, mas não resolve o problema. "Eventualmente, ela será indicada em um processo agudo, mas é preciso ir atrás das causas do processo alérgico", diz Peter Liquornik, membro do departamento científico de pediatria ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria. Um dos efeitos adversos que os antialérgicos podem causar é a sonolência. "Por isso, cuidado para não se medicar e sair dirigindo", alerta.
A locutora Letícia Beringhs Barone, 26, tentou durante três anos combater suas crises de bronquite com antialérgicos de venda livre. "A automedicação mascarou um problema sério de pulmão e fui parar na UTI. Fiquei em coma por cinco dias", conta. Letícia teve broncoespasmo, uma crise forte de bronquite que a impedia de respirar direito. Hoje, ela usa um remédio preventivo com acompanhamento médico.
A farmacêutica Renata Mazza Haimoff, 27, também teve problemas com a automedicação. "Enquanto fazia uso dos antialérgicos por conta própria, eu costumava ter muito sono durante o dia. Cheguei também a sentir palpitações", relata, dizendo que, depois de ir ao médico, descobriu que a medida que acabaria com o seu problema seria adotar mudanças na alimentação.
Anti-histamínicos em geral não costumam ser indicados para idosos, que podem apresentar tontura, boca seca e escurecimento da visão, e para crianças, que costumam ficar mais estimuladas, levando a casos de hiperatividade e insônia.


Descongestionantes

É comum encontrar as pequenas e práticas embalagens em bolsas, cabeceiras ou mesas de trabalho. Imaginando que está tratando o problema, quem costuma usar descongestionante nasal pode estar contribuindo para o aparecimento de doenças no sistema respiratório, como sinusite crônica (infecção dos seios da face).
"O descongestionante é um vasoconstritor. Em contato com a parte interna do nariz, as gotas contraem as artérias e tiram o sangue do local", diz Richard Voegels, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia. É nesse momento que surge a sensação de que a medicação "abriu" a via nasal.
Ao comprimir os vasos sangüíneos, as gotas de fato facilitam a passagem do ar, mas, assim que passa o efeito, o nariz fica cheio de sangue novamente. Às vezes, mais congestionado do que antes. "O que a pessoa faz? Vai correndo pingar o remédio de novo", alerta Voegels. Segundo ele, esse é o primeiro passo para se viciar nas gotinhas.
O uso freqüente faz com que os vasos se contraiam cada vez menos, o que leva o paciente a apostar em doses maiores nas aplicações seguintes para tentar alcançar o mesmo efeito. Uma possível conseqüência do mau uso do remédio é a rinite medicamentosa, uma inflamação que, em casos mais graves, chega a levar à perda do olfato.
A professora Ismênia Serra Machado, 27, pingou tanto descongestionante no nariz que teve a doença. "Eu usava o dia todo e criei uma necessidade psicológica. Quando chegaram a rinite e umas palpitações, procurei um otorrino, que me advertiu sobre as conseqüências do uso indevido." A utilização em excesso desse medicamento pode afetar ainda o coração. Os descongestionantes têm derivados da adrenalina em sua fórmula. Caindo na corrente sangüínea, a substância acelera a freqüência cardíaca e aumenta a pressão.
Exatamente por isso, esse tipo de medicamento não é recomendado para crianças, mulheres grávidas e hipertensos nem para quem tem glaucoma, problemas cardíacos e de próstata. Outro tipo de substância com efeitos nocivos à saúde são os conservantes, encontrados em vários medicamentos utilizados diretamente no nariz - inclusive nos descongestionantes. Estudo publicado na revista "Archives Otolaryngology Head Neck Surgery" mostrou que uma dessas substâncias (o cloreto de benzalcônio) pode causar crises de broncoespasmo e de asma e rinite medicamentosa.


Analgésicos

Aparentemente inocente, o uso diário de analgésicos - os campeões entre os remédios de venda livre, segundo o Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo - pode transformar uma dor de cabeça em problema crônico.
"Quem tem dores esporádicas e começa a tomar muito esse medicamento corre o risco de ficar com dor todos os dias", alerta o neurologista Mario Peres, do hospital Albert Einstein. Peres chama a atenção para o fato de que muitos analgésicos contêm cafeína, podendo causar ansiedade e insônia. A falta de sono, não raramente, faz agravar o quadro de dor.
"O analgésico não é um tratamento para a cefaléia de nenhum nível. Ele serve, no máximo, como paliativo para amenizar dores esporádicas", diz Peres. Como esporádicos, ele define casos que aconteçam no máximo uma vez por mês. Acima dessa freqüência, é preciso fazer um tratamento preventivo, com orientação médica.
O perigo de dependência de analgésicos em pacientes com esse problema começa antes mesmo do aparecimento dos sintomas de uma nova crise. "Os pacientes tomam o remédio pelo simples medo de ter dor. É o que chamamos de cefalaugeafobia", diz o neurologista, que fez um estudo sobre o fenômeno.
A professora de inglês Débora de Lorenzo, 47, sofre com dores de cabeça desde os 22 anos. Quando percebeu que o excesso de analgésicos estava piorando as dores, procurou um médico.
"Foi uma surpresa quando descobri que a solução para a minha enxaqueca não estava no analgésico, mas no abandono dele, seguido de uma mudança nos hábitos alimentares e de sessões de terapia, que ajudam a controlar a minha ansiedade", conta.


Antigripais e xaropes

A primeira providência antes de tomar remédios para tosse, nariz escorrendo e dor de garganta é diferenciar gripe de resfriado. A gripe é uma doença que costuma, além de atingir o aparelho respiratório, causar dores musculares e febres altas. É causada pelo vírus influenza e costuma demorar uma semana para passar. Não existe remédio que combata o vírus - os medicamentos conhecidos como antigripais têm o objetivo de aliviar, na verdade, os sintomas semelhantes aos de resfriados, como indisposições, nariz entupido, dor de garganta e febre baixa.
Causado por mais de 200 tipos de vírus, o resfriado tem incômodos mais leves que os da gripe e demora até quatro dias para passar. Em razão da variedade de sintomas, as fórmulas desses medicamentos costumam ser compostas e unir analgésico, antitérmico, anti-histamínico e broncodilatador.
Como muita gente não sabe da presença da diversidade de componentes, o primeiro alerta dos médicos é para o risco de hiperdosagem. "Tem gente que, com o antigripal, toma um analgésico. Se a fórmula já traz essa substância, ingerir outro remédio com a mesma função pode acarretar problemas hepáticos", diz Peter Liquornik, da Sociedade Brasileira de Pediatria.
No caso de o comprimido ter também efeito anti-histamínico, há perigo de secura de mucosas (membranas que recobrem o aparelho respiratório). Com isso, a garganta e as vias nasais se irritam e começam a incomodar.
Já a presença do broncodilatador, além de ser dispensável para quem não tem asma brônquica ou bronquite, pode levar a taquicardias.
Quanto aos xaropes, segundo Paulo Olzon, clínico-geral e chefe da disciplina de clínica médica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), há dois tipos: um para fluidificar a secreção (usado nos casos em que o paciente tem muito catarro preso) e outro para inibir a tosse (indicado em crises agudas e recorrentes). "Mas, em alguns casos, a secreção aumenta em decorrência da irritação provocada pelo próprio medicamento", diz Olzon. Segundo Peper Liquornik, os xaropes podem mascarar alguns sintomas, permitindo que outras doenças evoluam.


Antiácidos

Tomar um antiácido alivia os sintomas da indigestão em minutos. "O efeito é rápido, mas geralmente a azia volta, e será preciso tomar o efervescente outra vez", diz o clínico-geral Paulo Olzon. Ele explica que, apesar de o bicarbonato de sódio - um dos principais componentes da fórmula - promover a rápida neutralização da acidez no estômago, ele acaba favorecendo, como efeito secundário, a maior produção de ácido. "Quem toma antiácidos para qualquer coisinha pode começar com uma azia e terminar com uma gastrite", alerta o clínico-geral.
É preciso também ficar atento à presença de analgésicos na fórmula. Dependendo da composição, o efervescente não será recomendado para quem tem gastrite ou úlcera, já que pode irritar a mucosa do estômago e causar sangramento no aparelho digestivo.
Outro perigo está na reação que o antiácido pode provocar quando interage com outros medicamentos. Também por isso, não é recomendado para pessoas com hipertensão ou problemas cardíacos e renais. Para quem tem episódios esporádicos de indigestão, a recomendação é esperar o mal- estar passar. Se os sintomas se prolongarem por uma semana ou mais, o ideal é procurar um médico.


Colírios

Ele fica esquecido por tempos no armarinho do banheiro. Um belo dia, a vítima de uma irritação qualquer resolve aplicá-lo para amenizar a vermelhidão dos olhos. A prática, descrita por Leôncio Queiroz Neto, oftalmologista do Instituto Penido Burnier e diretor médico do Banco de Olhos de Campinas, é mais comum do que se imagina.
Pesquisa coordenada por ele com 2.700 pacientes revela que a automedicação na oftalmologia ultrapassa 30% dos entrevistados. Durante o verão, quando há maior exposição à luz, à água do mar e ao cloro das piscinas, esse número chega a 45%.
"Isso acontece porque muita gente pensa que se trata de uma 'agüinha' qualquer", diz. Por serem vasoconstritores, os colírios podem levar a alterações cardíacas e elevação da pressão arterial. Neto explica que o colírio chega a ter quatro princípios ativos. O mais perigoso deles é o corticóide, que, quando utilizado indiscriminadamente, colabora para o desenvolvimento de doenças como a catarata e o glaucoma.
"Geralmente, essas complicações ocorrem depois de alguns anos do uso freqüente da medicação, mas são conhecidos casos de pessoas que chegaram a estágios graves com apenas três meses de uso contínuo", alerta.
Se pingar um colírio comum com regularidade já é perigoso, usar aqueles indicados para doenças específicas é pior ainda. "Quando uma pessoa asmática passa um colírio para glaucoma, por exemplo, ela pode desenvolver uma crise de asma", diz Neto, que explica que eles também podem causar sonolência e taquicardias.
Uma atitude comum constatada durante sua pesquisa foi o compartilhamento do mesmo colírio por membros de uma família. "Se um deles tiver colocado o vidrinho em contato com um olho com conjuntivite, todos os outros correrão o risco de ser infectados", afirma.
Outro detalhe que quase não é levado em conta é a validade. Mas é preciso ter cuidado: quando termina o prazo, o remédio começa a ficar cheio de bactérias.
A dica do especialista para quem quiser "limpar" os olhos é esquecer o colírio, que dilata a pupila e prejudica a visão de perto, e lavar abundantemente os olhos com água ou usar compressas de água mineral.


*

No fundo, todos nós sabemos dos riscos da automedicação.
Organismos reagem diferentes aos mesmos medicamentos. O que é bom pra você pode não ser bom pra mim, e vice-versa.
Saúde é fundamental. Vamos preservá-la.





NARGUILÉ


Por trás daquela fumacinha

Julliane Silveira

Pesquisa do Inca aponta consumo de narguilé entre universitários brasileiros; segundo a OMS, uma sessão de uma hora equivale a 100 ou 200 cigarros comuns

O narguilé, cachimbo d'água típico do Oriente Médio, é conhecido por nomes tão variados quanto as histórias que contam seu surgimento, provavelmente na Índia do século 17. De lá, foi adotado por todos os países do Oriente Médio e se tornou tradição nas reuniões das famílias árabes.
Uma pesquisa do Inca (Instituto Nacional do Câncer), realizada com 3.189 universitários brasileiros e divulgada em agosto, mostra que a moda pegou por aqui também: depois do cigarro, o narguilé foi apontado como a forma mais freqüente de consumo do tabaco entre esses jovens. O problema é que, como qualquer produto feito de tabaco, o narguilé contém nicotina e as outras 4.700 substâncias cancerígenas e tóxicas do cigarro convencional. "Apesar de haver poucos estudos que avaliem os riscos específicos do cachimbo d'água, sabe-se que não existe segurança em consumir nenhum tipo de tabaco em nenhuma quantidade", diz Jefferson Gross, cirurgião torácico e diretor do departamento de tórax do Hospital do Câncer A.C. Camargo.
Uma revisão científica, organizada pela Universidade de Memphis (EUA) e divulgada na semana passada, também alerta para o uso indiscriminado do produto e mostra algumas pesquisas em andamento, que apontam uma exposição ao monóxido de carbono duas vezes maior em fumantes de narguilé do que em fumantes de cigarro.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou um documento em 2006 para alertar sobre os riscos do consumo desse produto. E ainda divulgou que a sessão de uma hora de narguilé poderia equivaler ao consumo de 100 a 200 cigarros regulares. O material diz que, enquanto um cigarro dura cinco minutos, com uma média de 500 ml de fumaça inalada, a sessão de cachimbo d'água pode chegar a uma hora, com dez litros de substância aspirada, o que aumentaria a ingestão de gases tóxicos e os riscos.

[...] A PRESENÇA DA ÁGUA FAZ COM QUE SE ASPIRE MAIS FUMAÇA, QUE SE TORNA MAIS TOLERÁVEL; DESSA FORMA INALA-SE MAIOR QUANTIDADE DE TOXINAS

Falsa impressão
Uma das razões para a popularização do narguilé é a idéia errada de que a água poderia filtrar as substâncias maléficas do tabaco. Quando criado, o cachimbo d'água recebeu a desmerecida fama de inofensivo, por causa do líquido por onde passava a fumaça, que se propagou por todas as culturas que o utilizam.
"Assim como um pano umedecido não evitaria a poluição de chaminés de fábricas, a água não absorve as toxinas do tabaco", compara o pneumologista Frederico Arrabal Fernandes, responsável pelo ambulatório do grupo antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo). Ao contrário, a presença da água faz com que se aspire mais, uma vez que torna a fumaça mais tolerável. Inala-se, assim, maior quantidade de substâncias.
O aroma agradável também tranqüiliza especialmente quem está em volta e não participa da roda. No entanto, a fumaça ambiental do cachimbo d'água é bem mais tóxica que a provocada pelo cigarro. "A brasa do narguilé tem temperatura de 400ºC em média, a queima do tabaco é incompleta e sobram mais substâncias perigosas do que na fumaça do cigarro, na qual a temperatura na brasa chega a 900ºC", diz Fernandes. Os males causados em quem freqüenta esses ambientes são semelhantes aos dos fumantes passivos, que têm mais chances de desenvolver as doenças relacionadas ao tabagismo.
Para preparar o fumo, são utilizadas folhas secas de tabaco, melado e essência de frutas, que não anulam os malefícios da planta. Ricardo Meirelles, pneumologista da divisão de controle de tabagismo do Inca, conta ainda que a quantidade de metais pesados (chumbo, níquel, cádmio, benzopireno) é mais alta nessa mistura do que em outras. Essas substâncias são altamente cancerígenas. Outros riscos
Não custa lembrar que o tabagismo está associado à ocorrência de câncer de pulmão, boca, esôfago, bexiga e pâncreas, enfisema pulmonar, aneurisma cerebral, AVC (acidente vascular cerebral), infarto e osteoporose, entre outras doenças. De acordo com os especialistas, o risco também existe para quem usa o narguilé. "O problema é que as pessoas começam aos poucos, cria-se uma neuroadaptação à nicotina e esse hábito se torna uma porta de entrada para outros tipos de cigarro", afirma Ricardo Meirelles, do Inca. Frederico Fernandes, da USP, diz ainda que a nicotina, presente em qualquer tipo de tabaco, é uma das substâncias com maior poder de causar dependência.
Gestantes também correm os mesmos riscos e não devem fazer uso do cachimbo d'água nem freqüentar ambientes onde esteja sendo usado. Os perigos para o bebê são semelhantes aos de quem fuma e aos dos fumantes passivos: parto prematuro, nascimento com baixo peso e baixa resposta ao teste de Apgar, que examina freqüência cardíaca, respiração, musculatura, reflexos e cor da pele do recém-nascido.
O relatório da OMS ainda cita uma pesquisa realizada com crianças libanesas que cresceram em ambientes cheios de fumaça do narguilé. Essas crianças teriam 2,5 vezes mais chances de desenvolver doenças respiratórias, a mesma probabilidade das que convivem com fumantes.
Outro problema é o compartilhamento da piteira e da mangueira do narguilé. "Em países onde o uso é acentuado, como na Índia, existe um alto risco de transmissão de hepatite A, herpes, tuberculose e outras doenças infecciosas", alerta Meirelles, do Inca.


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Fiquei espantado ao ler esta matéria!
Se você conhece alguém que use narguilé, alerte-o. Afinal, é uma questão de saúde.

ENVELHECIMENTO INVISÍVEL

Rosely Sayão

Semanas atrás, um garoto com idade em torno dos seis anos fez uma pergunta que expressou a leitura que ele faz sobre o envelhecimento. Ele chegou até mim e perguntou: "Você é bisavó de quem aqui da sala?"
Eu estava na escola que ele freqüenta participando, como observadora, das atividades de sua turma. Perguntei por que ele achava que eu era bisavó de algum colega, e ele respondeu, sem hesitar: "Só bisavós têm cabelos brancos".
Deixei de colorir meus cabelos há mais ou menos um ano.
Foi uma decisão que tomei ao perceber que tingia meus cabelos automaticamente, sem pensar, sem escolher. Por isso, decidi deixá-los na cor natural -grisalhos- para, depois de experimentar, fazer minha escolha. E, devo dizer, tem sido bem difícil ter cabelos brancos nesta época.
Esse sinal tão visível do envelhecimento progressivo e inexorável incomoda: são poucos os adultos que não me interpelam a respeito. "Você tem alergia a tinta?", "parabéns, você é uma pessoa muito corajosa!", "você é bem ousada" ou "você implantou marca-passo?" são algumas das frases que tenho de enfrentar com muita freqüência. O que elas revelam?
Que os sinais do envelhecimento precisam ser ocultados e, quando não o são, é preciso ter um motivo muito importante para tal.
De minha parte, gostaria imensamente que meus cabelos brancos expressassem apenas o que, de fato, são: os sinais de minha herança genética e do envelhecimento. Mas, nos dias atuais, isso parece ser uma missão impossível.
E a pergunta do garoto, o que pode revelar? Em primeiro lugar, que temos ofertado aos mais novos uma visão de mundo em que o envelhecimento é tão desmoralizado que precisou ser banido de cena. Para o garoto, todos os adultos são jovens. Só são velhos os muito velhos, como os que se tornaram bisavôs e bisavós, e essa passagem acontece repentinamente. Aliás, a ocorrência desse fenômeno tem sido bem mais comum, já que a expectativa de vida aumentou consideravelmente nas últimas décadas.
Conviver com a quarta geração já não é uma dádiva para poucos, e sim uma possibilidade real para muitos.
A eliminação das evidências aparentes do envelhecimento gradual, com o uso de todo o arsenal produzido para tanto, pode transmitir a falsa idéia aos mais novos de que podemos manipular e controlar o passar do tempo ou de que a juventude é eterna. Essa concepção certamente afeta, de alguma maneira, o desenvolvimento deles. Já não temos constatado um prolongamento da adolescência e da juventude, um pouco caso com os cuidados com a saúde e com a vida por parte dos jovens e, do mesmo modo, uma falta de respeito geral em relação aos velhos? E tudo isso ocorre, entre outros motivos, porque são poucos os que não deixam de considerar como certo o fato de que eles mesmos irão envelhecer.
É: o fato de o processo natural e inevitável do envelhecimento ter se tornado um fenômeno invisível não afeta apenas os adultos que já o enfrentam; afeta também, e principalmente, os mais novos. Afinal, que mundo é esse que apresentamos aos que nos sucederão?


*

A gente ri de uma situação dessa... mas o assunto é sério.
O Brasil está ficando idoso. A população de idosos tem aumentado significativamente.
Estamos vivendo mais e melhor, e isso é muito bom.
Temos que nos preparar para a velhice, onde possamos ser respeitados e compreendidos.
Vamos ensinar nossas crianças?!

ENSINAR A PENSAR

Dulce Critelli

[...] A REFLEXÃO EXPLICITA MAL-ENTENDIDOS, DESVELA SEGUNDAS INTENÇÕES, DESAUTORIZA PRECONCEITOS, DESCOBRE MANIPULAÇÕES...

"De pensar morreu um burro." "Quem pensa não faz"... Muitos ditos populares expressam um certo sarcasmo e um desprezo em relação ao pensar, revelando uma crença, alimentada há séculos, de que o pensar atrapalha, emperra a ação, é coisa de quem não tem nada para fazer.
Quando se trata, então, da filosofia, esse deboche vai ainda mais longe, afirmando que todo pensador não possui pé na realidade e vive numa torre de marfim.
É certo que o tempo da reflexão conflita com a urgência do agir. Mas nem sempre todo agir é assim urgente e, na maioria da vezes, parar para pensar nos salva de decisões equivocadas e prejudiciais. Pensar a respeito de alguma coisa ou de algum acontecimento é compreender os seus verdadeiros sentidos e significados.
Um artigo publicado na Folha no dia 1º de outubro deste ano comentava o Saeb, exame federal de avaliação da aprendizagem de alunos do último ano do ensino médio. Mal alfabetizados, esses adolescentes, nas palavras do jornalista, "não conseguem, por exemplo, compreender o efeito de humor provocado por ambigüidade de palavras ou reconhecer diferentes opiniões em um mesmo texto".
Quem não sabe ler não sabe distinguir nem rir de fato, nem pensar. É presa fácil de mistificações e sujeições, obediente a tudo o que causar a impressão mais forte.
O pensar, diz Sócrates, "abre os olhos do espírito". E isso quer dizer que a reflexão explicita mal-entendidos, desvela segundas intenções, percebe mentiras, desautoriza preconceitos, descobre manipulações... Em decorrência, sentimo-nos capacitados para escolher, dizer não, colocar limites, mudar a ordem das coisas, redefinir destinos, desarticular dominações...
Em outras palavras, o pensar prepara nossa liberdade e nossa autonomia tanto quanto nos faz reconhecer as responsabilidades que nos cabem nas situações vividas. Liberdade e autonomia, convenhamos, não são comportamentos muito bem-vindos na esfera político-social, porque ameaçam o poder vigente.
E, na esfera da vida privada, a responsabilidade é, na maioria das vezes, temida e recusada pelas pessoas, porque cria encargos e compromissos. Liberdade, autonomia, responsabilidade?... O pensar põe em perigo. E, em grande parte, por isso mesmo, ele é estrategicamente convertido em objeto de escárnio.
Ensinar a pensar. É esse o único projeto que poderia nos tirar do atoleiro de pobreza, de violência e de impotência em que vivemos. É um projeto cuja origem não está em nenhuma economia nem ideologia ou política oficial. Não precisa de equipamentos especiais nem depende da criação de uma secretaria do pensamento. É só uma atitude. Ensinar a pensar, aprender a pensar.


*

Quantas coisas seriam diferentes se pensássemos antes de agir...
Prá mim, pensar é muito importante. Me mantenho organizado comigo mesmo, me descubro e me encontro. Aliás, é um excelente exercício de auto conhecimento.
Experimente!

SUPERDOTADO


Do Blog de Gilberto Dimenstein:

Será que seu filho é um superdotado? O que é um superdotado? E uma criança prodígio? E um gênio? Há alguma explicação científica para o fato de algumas pessoas serem superdotadas? Veja essas respostas e também dados sobre a vulnerabilidade juvenil, segmento da sociedade em que também pode se encontrar jovens com altas habilidades.

Classificação de Superdotação, segundo o Conselho Brasileiro para Superdotação:

Precoce: a criança que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento, seja na música, na matemática, na linguagem ou na leitura.

“Criança prodígio”: para sugerir algo extremo, raro e único, fora do curso normal da natureza. Um exemplo seria Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a tocar piano aos três anos de idade. Aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez, e aos sete já compunha regularmente e se apresentava nos principais salões da Europa.

Gênios: Mozart, assim como Einstein, Gandhi, Freud e Portinari, entre outros mestres, são ainda exemplos de gênios, termo este reservado para aqueles que deram contribuições extraordinárias à humanidade. São aqueles raros indivíduos que, até entre os extraordinários, se destacam e deixam sua marca na história.

Superdotação ou altas habilidades: As habilidades apresentadas pelas pessoas aqui citadas, tenham sido elas precoces, prodígios ou gênios podem ser enquadradas em um termo mais amplo, que é a superdotação ou altas habilidades.

O superdotado/talentoso/portador de altas habilidades é aquele indivíduo que, quando comparado à população geral, apresenta uma habilidade significativamente superior em alguma área do conhecimento, podendo se destacar em uma ou várias áreas:

  • Acadêmica: tira boas notas em algumas matérias na escola – não necessariamente em todas – tem facilidade com as abstrações, compreensão rápida das coisas, demonstra facilidade em memorizar etc.
  • Criativa: é curioso, imaginativo, gosta de brincar com idéias, tem respostas bem humoradas e diferentes do usual.
  • Liderança: é cooperativo, gosta de liderar os que estão a seu redor, é sociável e prefere não estar só.
  • Artística: habilidade em expressar sentimentos, pensamentos e humores através da arte, dança, teatro ou música.
  • Psicomotora: Habilidade em esportes e atividades que requeiram o uso do corpo ou parte dele; boa coordenação psicomotora.
  • Motivação: torna-se totalmente envolvido pela atividade do seu interesse, resiste à interrupção, facilmente se chateia com tarefas de rotina, se esforça para atingir a perfeição, e necessita pequena motivação externa para completar um trabalho percebido como estimulante.

Comportamentos específicos de altas habilidades

Características Comportamentais Gerais:

• Muitos aprendem a ler mais cedo do que as crianças de sua idade, apresentando uma melhor compreencão das nuances da linguagem... é frequente que leiam com maior rapidez, mais intensidade e apresentam vocabulários amplos.

• Geralmente aprendem habilidades básicas melhor mais rapidamente, e com menor número de exercícios práticos.

• Frequentemente são capazes de identificar e interpretar dicas não verbais, elaborando interferências que outras crianças dependem de adultos para fazer.

• Têm menor aceitação de “verdades prontas”, buscando “os comos” e os “por ques”;• Apresentam melhor habilidades de trabalho independente, mais cedo e por períodos de tempo mais longos que outras crianças.

• Podem manter períodos de concentração e atenção longos do que seus.

• Seus interesses são, frequentemente, tanto amplamente ecléticos como intensamente focalizados.

• Frequentemente apresentam energia interminável, que as vezes conduz a um diagnóstico errôneo de “hiperatividade”’.

• São geralmente capazes de responder e de se relacionar bem com os pais, professores e outros adultos. Eles podem preferir a companhia de crianças mais velhas e de adultos. Ao invés da companhia de seus colegas da mesma idade.

• Eles são sempre motivados a examinar aquilo que é bem comum, sendo altamente inquisitivos (fazem muitas perguntas, buscando compreensão do fenômeno).


Situação de vulnerabilidade dos jovens brasileiros

* Há cerca de 60 milhões de crianças e adolescentes no Brasil, correspondendo 33% da população geral (IBGE/PNAD, 2004).

* 90% das crianças brasileiras até 3 anos não freqüentam creche e, dos 4 aos 6 anos, apenas 55% estão na pré-escola (Unicef, 2006)

* 932 municípios identificados como territórios de exploração sexual de crianças e adolescentes (UnB, 2004).

* Há 1,9 milhão de crianças e adolescentes entre 5 a 14 anos em trabalho infantil (IBGE/PNAD, 2004)

* 70% das mortes entre 10 a 19 anos são por violência, prevalecendo 34% de homicídios, num total de 8.045 óbitos em 2004 (Unicef, 2006)

* a estimativa de 120 mil crianças e adolescentes abrigados (MDS, 2006), sendo 24% por motivo de pobreza 20% com mais de 6 anos de abrigagem (IPEA, 2004).
Adolescentes internos no Sistema Febem, dados SEDH/IPEA, 2002

* 80% dos internos têm renda familiar inferior a dois salários mínimos

* 51% não freqüentavam a escola

* 49% não trabalhavam

* Mais de 60% negros

* 90% homens e 10% mulheres

* A estimativa é de 60 mil adolescentes em cumprimento de medidas
socioeducativas, com 15 mil na internação e 45 mil em meio aberto (SEDH, 2006)

* Crescimento de 363% no ingresso de adolescentes em internação entre 1996 a 2006

* Déficit de cerca de 3 mil vagas no sistema socioeducativo

* Mais de 600 adolescentes cumprindo medidas socioeducativas em cadeias
públicas

*60% das capitais não têm programas municipais em meio aberto




*

Já havíamos falado disso anteriormente. Como a questão é importante, volto a falar.
Famílias: prestemos atenção em nossas crianças e em nossos jovens. Estejamos atentos às suas necessidades e sensíveis aos seus apelos.

A escola educa. A família ensina. Taí, uma grande diferença.

24 outubro 2007

"AMOR VIRTUAL"

Veja só a história:

Um casal da Bósnia, Sana, 27 anos e Adnan, 32 anos, se divorciou logo depois de descobrir que frequentavam salas de bate-papo na internet.
Eles se comunicavam com aplelidos e quando marcaram o encontro descobriram suas verdadeiras identidades.
A decepção foi recíproca: os dois se sentiram traídos.
A esposa se viu apaixonada por aquele "homem" que lhe mostrou o verdadeiro amor.
O marido, disse que a "mulher" não poderia ser sua esposa, a qual durante anos foi incapaz de lhe dizer uma palavra de carinho.



Como explicar isso?
É simples: o amor foi banalizado.
Hoje em dia, dolescentes e jovens, "ficam".
"Ficam" o tempo todo e com todo mundo.
Dias desses, pensei: será que esta geração sabe o que é amor? Ou saberão um dia?
Daí, veio a grande preocupação: que famílias virão amanhã?
Não bastasse isso, homens e mulheres se prostam diante de um computador, por horas a fio, conversam com desconhecidos, ocultam identidade,
revelam intimidades e vão por aí ferindo e sendo feridos.
Para piorar, sabe-se que é grande o número de pessoas comprometidas, como o exemplo acima, que usam salas de bate-papo à procura de alguém "especial".
No mundo virtual pode falar o que quiser, ser quem quiser, viver o que quiser.
Que pode haver de bom nisso?
Fugir da realidade, de si próprio, não vai ajudar em nada. Muito pelo contrário. As pessoas ficarão cada dia mais e mais vazias.
Portanto, eduquemos nossos filhos com amor e para o amor.
O mundo agradece.


IDENTIDADES EM FÚRIA

MARCELO COELHO

As manifestações que têm aparecido na esfera pública estão perdendo o caráter propositivo

Meiose, Mitose, cissiparidade: os nomes eu não lembro direito, mas nas aulas de biologia do colégio o assunto era explicado em detalhes.
Sei que as células se dividem aos poucos, que no começo há uma duplicação dos cromossomos. Guardo a imagem de uns desenhos em que, como forquilhas ou asas de libélula, eles se organizavam em pares.
O núcleo da célula se estendia e só no fim desse processo o citoplasma e a membrana celular se rompiam, criando duas células onde só havia uma.
Nos últimos tempos venho tendo a impressão de que a sociedade brasileira passa por um mecanismo semelhante. Claro, sempre houve divisões entre pobres e ricos, brancos e negros, Sul e Nordeste. Mas o que antes era um dado permanente, uma característica crônica da estrutura social, parece que agora vai se pondo em movimento: os cromossomos se "pareiam", as metades se encaram frente a frente, replicam-se, refletem-se e tomam distância umas das outras.
Há várias linhas de divisão, e parecem acentuar-se a cada dia. Não faz muito tempo, simpatizantes do PT e do PSDB recebiam apenas o nome de "petistas" e "tucanos". Agora, "petralhas" e "tucanalhas" são termos que passaram ao uso comum.
Sempre tivemos adeptos de várias religiões em nosso território; acostumei-me a um estado de coisas em que uma pessoa não se metia com a outra nesse tipo de assunto. Entretanto, se a rivalidade entre evangélicos, católicos e adeptos do candomblé começa a ser não apenas "vivida" e "sentida", mas também "explicitada" e "vocalizada", tenho medo de que daqui a um tempo estejamos num verdadeiro pandemônio.
A polêmica em torno do Rolex de Luciano Huck é sem dúvida outro exemplo em que a "vocalização" das diferenças sociais adquiriu grande estridência, sem que as partes envolvidas tivessem tanto assim o que dizer.
Claro que a lei vale para todos; claro que há desemprego, droga e desigualdade. Claro que é preciso haver ação social nas favelas, que é preciso prender infratores, que é preciso melhorar as condições dos presídios. Em tese, é fácil concordar com tudo isso.
Ocorre que a vontade de discordar tornou-se mais forte do que a de chegar a um consenso. É que as manifestações, os artigos, as entrevistas que ultimamente têm aparecido na esfera pública estão perdendo, a meu ver, o caráter geral, propositivo, civil que deveriam ter. Tornaram-se desabafos, manifestações de impaciência, de exasperação.
Mutatis mutandis, o "cansei" das elites é também o "senta o dedo" do capitão Nascimento, ou não sei que grito de guerra do gangsta rap em versão adaptada para a periferia paulistana.
Não se trata de alternativas políticas em confronto, nem mesmo de expressão de diferentes pontos de vista subjetivos: a forma dos debates, das polêmicas em curso, tem sido mais e mais calcada na questão das identidades sociais do que na das propostas políticas.
É como se importasse menos dizer "o que eu quero" e mais "quem eu sou". E a posição de cada um -se é negro, branco, pobre ou rico - conta mais do que o que cada um diz.
Faço essa avaliação sem querer exagerar no pessimismo. Na verdade, seria estranho que numa sociedade tão desigual todo debate transcorresse em clima de chá das cinco. Muitos setores que até recentemente não tiveram acesso a meios públicos de expressão conseguem, hoje, se fazer ouvir: internet, câmeras digitais, centros culturais estão ao alcance de mais pessoas, e não haverá de ser sem raiva o recado que têm a transmitir.
Ao mesmo tempo, entretanto, diminuiu o leque das alternativas políticas, das respostas ideológicas para os problemas a que se dá expressão. O resultado é uma espécie de radicalismo sem rumo, de extremismo em striptease, de terrorismo confessional, de provocação via computador.
Durante as eleições presidenciais o caso ficou bem claro: nos blogs e nos e-mails, adeptos de Lula e de Alckmin se entredevoravam com radicalidade assustadora; eram pouco perceptíveis, entretanto, as diferenças programáticas entre os candidatos. Mas um era um, e o outro era o outro; já era o bastante para ninguém se entender.
Nisso - numa questão de identidades, não de alternativas - parecem resumir-se muitas das polêmicas em curso. Se cada envolvido, narcisisticamente, procura apenas afirmar-se onde está, é natural que não se chegue a lugar nenhum.


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Daqui a pouco perderemos nossa identidade.
Será que ainda conseguimos nos enxergar?